Festa das Vindimas: o que Palmela quer preservar, renovar e deixar às gerações futuras

Entrevista ADN | André Ribeiro revela o que gostaria de deixar resolvido antes de terminar o ciclo à frente da Associação

Se na primeira parte desta entrevista André Ribeiro falou da identidade da Festa das Vindimas, do trabalho que começa muitos meses antes de Setembro e dos desafios financeiros que condicionam a organização, nesta segunda conversa com a ADN–Agência de Notícias o presidente da Associação das Festas de Palmela entra num território ainda mais ligado à memória e ao futuro. A Rainha das Vindimas, a pisa da uva, o Cortejo, a representação de Palmela fora do concelho, os problemas provocados pelas intempéries e a necessidade urgente de encontrar um espaço digno para guardar o património da festa são alguns dos temas desta segunda parte. André Ribeiro fala também daquilo que gostaria de deixar quando terminar o seu ciclo à frente da Associação: não apenas uma festa maior, mas uma tradição capaz de continuar a ser reconhecida pelas próximas gerações.
Novas candidatas a Rainha são conhecidas no sábado à noite 

Este sábado, 22 de Agosto, Palmela começa a conhecer alguns dos rostos que irão marcar uma das tradições mais antigas da Festa das Vindimas. Às 21 horas, na Sociedade Filarmónica Humanitária, serão apresentadas as candidatas à eleição da Rainha das Vindimas.
Mas a coroa é apenas uma das peças de uma Festa que, aos 63 anos, enfrenta uma questão muito maior: como preservar aquilo que a tornou única sem deixar de preparar o futuro.
É precisamente sobre esse equilíbrio que André Ribeiro fala nesta segunda parte da entrevista à ADN-Agência de Notícias. A representação de Palmela, o envolvimento das novas gerações, o património dos cortejos, as dificuldades para o preservar e aquilo que o presidente da Associação gostaria de deixar a quem vier depois cruzam-se numa conversa onde a tradição aparece não como algo parado no tempo, mas como uma responsabilidade que passa de geração em geração.

“Rainha coroada, festa começada”
Há uma expressão que atravessa gerações em Palmela e que continua a explicar o significado da eleição: “Rainha coroada, festa começada”.
Para André Ribeiro, não se trata apenas de uma frase tradicional. A eleição funciona como uma espécie de sinal de partida para a Festa das Vindimas.
“Quando elegemos a Rainha é sinal que, para quem mora em Palmela, para quem vive aqui no concelho e que vem à eleição, é sinónimo que a festa está pronta para sair para a rua, para ser inaugurada no dia a seguir”, explica.
Mas antes de existir uma Rainha, existem candidatas. E este sábado, 22 de Agosto, será precisamente o momento em que Palmela ficará a conhecer as jovens que aceitaram assumir esse desafio.
A partir daí começa também uma experiência que, para a organização, deve ser muito mais do que uma competição.
A Rainha, a Primeira Dama, a Segunda Dama e a Miss Simpatia passam a estar associadas à representação da Festa e do concelho, assumindo uma responsabilidade que pode prolongar-se muito para além dos seis dias de Setembro. Serão todas eleitas na noite de 2 de Setembro. 

Uma eleição que quer ir além da aparência
A organização decidiu este ano reforçar a preparação das candidatas. A intenção é aproximá-las ainda mais da realidade de Palmela, dos seus produtores, dos seus vinhos e dos produtos que fazem parte da identidade gastronómica do concelho.
Durante a primeira semana de atividades, as candidatas vão visitar adegas e conhecer diferentes produtos regionais, entre doces e salgados, procurando perceber não apenas aquilo que existe no território, mas também a história e o trabalho que estão por detrás de cada produto.
Depois chegará uma nova prova, perante um júri. Cada candidata terá de escolher um doce, um produto salgado e um vinho e apresentá-los, demonstrando o conhecimento adquirido ao longo desse percurso.
“Este ano temos aqui um desafio um bocadinho maior para as nossas candidatas”, revela André Ribeiro.
“Elas na primeira semana de atividades irão visitar inúmeras adegas aqui do concelho, produtos regionais, doces, salgados, perceber como é que são feitos, aquilo que temos no nosso concelho e que depois vai culminar com uma prova de sabores”.
A mudança tem uma intenção clara: fazer com que a jovem escolhida conheça verdadeiramente aquilo que vai representar.
“Terão que apresentar o doce, o salgado e o vinho que escolherem e tentar promover ao máximo e partilhar o conhecimento que adquiriram sobre esses produtos”, explica.
A eleição passa, assim, a ser também uma forma de aprendizagem. E esse conhecimento poderá revelar-se importante caso a futura Rainha tenha oportunidade de representar Palmela fora do concelho.

Da coroa à representação de Palmela
Tradição que une várias gerações de palmelenses 
A experiência de Inês Carvalho mostrou precisamente até onde pode chegar esse papel.
Eleita Rainha de Palmela em 2024, Inês Carvalho conquistou posteriormente o título de Embaixadora dos Territórios Vinheteiros de Portugal, função que continuará a desempenhar até 12 de Setembro, quando passará o testemunho.
Para André Ribeiro, o percurso da jovem representa um motivo de orgulho e demonstra a importância de preparar as futuras Rainhas para uma função que não termina quando as luzes da eleição se apagam.
“Para mim, enquanto presidente da Associação das Festas, é um orgulho imenso a nossa Rainha, que foi eleita em 2024, ter sido Embaixadora e ser ainda, porque só vai passar o testemunho no dia 12 de Setembro”, afirma.
Ao longo do último ano, Inês Carvalho participou em diferentes iniciativas, levando consigo o nome de Palmela e da Festa das Vindimas.
“A Inês Carvalho tem feito um papel extraordinário na representação das festas, do município, ao longo de todo o ano e inúmeros eventos que vai participando”, sublinha.
É precisamente esse caminho que a organização pretende continuar a construir. “Temos vindo a tentar com que a Rainha da Festa das Vindimas não seja a Rainha que aparece só na altura da festa e só na altura da eleição”, explica.
A participação em eventos ligados ao vinho e ao turismo permite que a representante conheça melhor os produtores, as adegas e os produtos do concelho e, ao mesmo tempo, leve essa identidade para outros territórios.
A coroa deixa, assim, de ser apenas um símbolo da Festa. Passa a ser também uma forma de representar Palmela.

Uma tradição que precisa de novas vozes
É precisamente nesta passagem entre gerações que André Ribeiro vê uma das maiores responsabilidades da organização. Uma tradição com 63 anos só consegue continuar viva se houver jovens dispostos a recebê-la.
A eleição da Rainha é uma das formas mais visíveis dessa renovação. Mas a participação das novas gerações não pode ficar limitada à noite em que uma coroa é colocada na cabeça de uma jovem. É necessário criar condições para que conheçam a terra, os produtos, as histórias e as pessoas que estão por detrás da Festa. Por isso, a preparação das candidatas ganha uma importância particular.
Mais do que saber responder perante um júri ou apresentar um vinho, está em causa perceber o que estão a representar. É também nesse sentido que a organização procura aproximar as jovens dos produtores e das diferentes realidades do concelho.
A Festa não pode pedir às novas gerações que preservem aquilo que não conhecem. E é nessa transmissão de conhecimento que a tradição pode encontrar uma nova vida.

Uma marcha que continua a marcar a eleição
Há símbolos que permanecem praticamente intocados e que continuam a provocar expectativa, como a marcha da Festa das Vindimas, revelada no momento da eleição e posteriormente ouvida pelas ruas durante os dias de Setembro.
“É uma das tradições também que me arrisca dizer única. Acho que não há em mais território nenhum eleger uma Rainha com uma marcha da Festa das Vindimas”, considera.
Este ano, a organização decidiu ir ainda mais longe e envolver várias entidades locais no videoclip da marcha, numa tentativa de transformar também esse momento num retrato da comunidade.
Participam a Sociedade Filarmónica Humanitária, a Sociedade Filarmónica Palmelense “Loureiros”, a Quinta do Piloto e a Dona Mery, responsável por fornecer a cepa utilizada na inauguração.
A ideia é que a marcha não seja apenas uma música da festa, mas também uma expressão das pessoas e das instituições que ajudam a construí-la.
“Fizemos aqui um vídeo em que envolvesse o máximo de pessoas possíveis e que certamente já ouvi, mas que só vamos revelar no dia da eleição”, conta André Ribeiro.

O património que não pode ficar ao abandono
O cortejo é um dos momentos maiores da festa das Vindimas
Se a Rainha representa o futuro da Festa, há outro elemento que representa a sua memória: os carros, peças e materiais que ao longo dos anos foram construindo a dimensão visual dos cortejos.
E aqui existe um problema que André Ribeiro considera urgente. A Associação não dispõe de um espaço adequado para guardar o património.
A chuva, as intempéries e até a presença de pombos provocam danos que obrigam a sucessivas intervenções e reparações.
“Temos enfrentado aqui uma grande dificuldade em acondicionar o nosso património, os nossos carros, em tentar poupar aqui um investimento anual de reparação por causa dos estragos das intempéries e das tempestades e das chuvas ao longo de todo o ano”, explica.
A solução encontrada até agora é provisória. Um telheiro cedido por Jorge Emílio permite guardar parte do material, mas não resolve o problema. “Estamos num espaço provisório que não é possível ficar por causa das chuvas”, afirma.
E o problema não é apenas financeiro. É também patrimonial. Uma peça construída para um determinado cortejo pode não voltar a ser utilizada no ano seguinte, mas continuar a ter valor para a Festa.
Pode regressar três ou quatro anos depois, recuperada e integrada novamente numa narrativa que o público talvez já não esperasse voltar a ver.
“Não podemos andar todos os anos a fazer um grande investimento em reparações sem ter um sítio digno para guardar roupas, para guardar os carros do cortejo, para guardar peças que naquele ano até podemos não usar mas passado três ou quatro anos podemos reaproveitar”, defende.
É por isso que André Ribeiro coloca o pavilhão entre as prioridades para o futuro.
“Eu gostava que esse ponto ficasse efetivamente corrigido e terminado com um espaço digno e que a Festa das Vindimas já merece e as pessoas de Palmela também já merecem”, afirma.

Mais do que construir uma festa, deixar uma continuidade
É neste ponto que a entrevista deixa de ser apenas sobre a edição de 2026. André Ribeiro sabe que nenhuma direção fica para sempre e que a Festa das Vindimas não pertence a quem, num determinado momento, assume a responsabilidade de a organizar. Pertence a Palmela.
Por isso, quando fala do futuro, fala também da necessidade de garantir que aquilo que hoje está a ser construído possa ser recebido por quem vier depois. O pavilhão surge novamente como símbolo dessa preocupação.
Resolver o espaço onde o património possa ser preservado significaria não apenas resolver um problema da atual direção, mas criar uma condição para as próximas gerações.
“Eu gostava que um dia, quando sair de presidente da festa, alguém dê continuidade a este projeto, porque isto é um projeto que se vai construindo devagarinho, com o apoio de todos”, afirma.
A frase revela também uma consciência sobre o verdadeiro significado de dirigir uma festa com mais de seis décadas. Quem passa pela Associação deixa trabalho feito, mas não leva a Festa consigo. Tem de a entregar.

O desejo para Setembro
Depois de meses de preparação, há uma expectativa que se sobrepõe a todas as outras: que tudo corra bem.
“Eu espero da festa este ano, em primeiro lugar, é que tudo corra sem incidentes”, afirma André Ribeiro.
A segurança, que nos últimos anos tem assumido uma importância crescente na organização de grandes eventos, surge assim como uma das principais preocupações.
Mas há outra expectativa, mais simples e talvez mais difícil de medir. Que Palmela goste da Festa. “Depois é que todas as pessoas que moram na vila, todas as pessoas do concelho de Palmela gostem da festa que estamos a preparar para todos”, acrescenta.
E para quem vem de fora, o convite mantém-se aberto. “Todos aqueles que nos visitam, que nos continuem a visitar e continuem a vir aproveitar a festa e aquilo melhor que temos para oferecer”, afirma.
É para esse momento que todo o trabalho dos meses anteriores converge. Para que, quando chegar Setembro, Palmela possa voltar a reconhecer-se na sua própria Festa.

Uma Rainha, uma responsabilidade e uma história para continuar
Este sábado, 22 de Agosto, às 21h00, na Sociedade Filarmónica Humanitária, as candidatas a Rainha das Vindimas serão finalmente conhecidas. A partir dessa noite, começa uma nova etapa.
Uma delas será escolhida para usar a coroa. Mas todas terão já participado num percurso que pretende aproximá-las de uma identidade que vai muito além da própria eleição.
Conhecer os vinhos, os produtos, os produtores e as histórias de Palmela é também aprender aquilo que significa representar uma terra. E talvez seja essa a verdadeira dimensão da Rainha das Vindimas.
Não ser apenas o rosto de uma Festa durante seis dias, mas levar consigo, durante o ano, uma parte daquilo que Palmela é.
André Ribeiro sabe que o futuro da Festa não depende apenas de uma pessoa, de uma direção ou de uma edição. 
Depende da capacidade de transmitir. De guardar o património. De envolver os mais jovens.  De criar condições para que a memória não desapareça. E de permitir que quem chega depois encontre ainda razões para dizer aquilo que, para o presidente da Associação das Festas de Palmela, resume tudo: “Isto é único e é nosso”.

O verdadeiro desafio é conseguir deixá-la preparada para quem vier depois
André quer manter a tradição viva para as próximas gerações
Porque uma tradição só permanece verdadeiramente viva quando cada geração aceita recebê-la e, depois, tem vontade de a entregar à seguinte.
“Eu gostava que um dia, quando sair de presidente da festa, alguém dê continuidade a este projeto, porque isto é um projeto que se vai construindo devagarinho, com o apoio de todos”, confessa.
É talvez aqui que a entrevista ganha a sua dimensão mais humana. André Ribeiro sabe que não será presidente da Associação das Festas para sempre. Sabe também que nenhuma direção pode assumir como sua uma tradição que pertence a várias gerações.
O verdadeiro desafio é conseguir deixá-la preparada para quem vier depois. “Espero que alguém dê continuidade a este projeto para que a Festa das Vindimas não se perca efetivamente, porque é uma festa que é única”, afirma.
E é nesse momento que regressamos ao princípio de tudo. À uva. Ao vinho. À terra. À Rainha. À Pisa. Ao Mosto. Ao Cortejo. À música. Às pessoas.
A tudo aquilo que, ao longo de 63 anos, transformou uma ideia sonhada por alguns homens numa das mais fortes expressões da identidade de Palmela.
André Ribeiro deixa isso claro na frase que encerra esta conversa com a ADN–Agência de Notícias: “A Festa das Vindimas de Palmela foi a primeira Festa das Vindimas em Portugal e tem esta essência que marca tão forte as festividades, a Pisa da Uva, a Bênção do Mosto, o Cortejo das Vindimas, a eleição da Rainha, a inauguração. Isto é único e é nosso”.
E talvez seja precisamente essa a melhor definição para uma festa que, durante seis dias, de 3 a 8 de Setembro, volta a transformar Palmela num lugar onde a tradição não é apenas recordada. É vivida.
É partilhada. E vai ser sentida por todos. 

Paulo Jorge Oliveira 
Fotografia: Paulo Jorge Oliveira e CM Palmela 

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