Setúbal e Troia celebram tradição centenária com barcos engalanados e círio fluvial

Há cerca de 500 anos que a devoção a Nossa Senhora do Rosário vive ligada às águas do rio Sado

Uma das tradições marítimas mais antigas e bonitas da região regressa entre 15 e 17 de Agosto, com barcos engalanados, procissões, música e o tradicional círio fluvial entre Troia e Setúbal. Há tradições que resistem ao tempo porque fazem parte da memória de um povo. As Festas de Nossa Senhora do Rosário de Troia são uma delas. Há cerca de um século que as celebrações juntam a comunidade piscatória e centenas de pessoas das duas margens do Sado, numa manifestação de fé e identidade que tem no rio o seu grande palco.
Tradição junta todos os anos as comunidades das duas margens do Sado

Há tradições que não se limitam a acontecer. Vivem na memória de um povo. A Festa de Nossa Senhora do Rosário de Troia é uma delas: há séculos que a fé, o mar e o Sado juntam pescadores, famílias e comunidades das duas margens numa das celebrações mais bonitas da região.
Há um momento em que o Sado parece deixar de ser apenas rio.
Quando os barcos começam a aproximar-se, engalanados para a ocasião, quando a imagem de Nossa Senhora do Rosário de Troia é preparada para atravessar novamente as águas e quando, em Setúbal, centenas de pessoas aguardam na frente ribeirinha, percebe-se que há histórias que o tempo não conseguiu apagar. É assim há gerações.
Entre Troia e Setúbal, a devoção a Nossa Senhora do Rosário continua a ser celebrada através de uma tradição profundamente ligada à comunidade piscatória. Uma tradição feita de fé, de memória e de mar, mas também de reencontros: o reencontro de famílias, de pescadores, de antigos habitantes e de todos aqueles que reconhecem nesta festa uma parte da identidade das duas margens do Sado.
Entre 15 e 17 de Agosto, as Festas de Nossa Senhora do Rosário de Troia voltam a cumprir esse ritual. E o Sado volta a ser o caminho.

Uma festa que nasceu entre pescadores e atravessou séculos
Muito antes de os barcos engalanados cruzarem o rio perante o olhar de centenas de pessoas, já a imagem de Nossa Senhora do Rosário fazia parte da memória religiosa de Troia.
Os primeiros registos conhecidos desta devoção, na Caldeira de Troia, remontam a cerca de quinhentos anos. As festividades, tal como hoje são conhecidas, realizam-se anualmente há cerca de um século.
É uma história que se confunde com a própria vida das comunidades marítimas.
Conta a tradição que, durante uma violenta tempestade, um grupo de pescadores encontrou abrigo na Caldeira de Troia. Depois de conseguirem escapar à aflição do mar, terão encontrado nas margens uma imagem de madeira, que acreditaram ser proveniente de uma embarcação estrangeira.
Para aqueles homens, a descoberta não foi apenas um acaso. Acreditaram que tinham sido salvos pela imagem de Nossa Senhora. E dessa história nasceu uma devoção que passou de geração em geração, permanecendo ligada àqueles que todos os dias enfrentavam o rio e o mar.
É por isso que, ainda hoje, esta não é apenas uma festa religiosa. É também uma homenagem aos homens e mulheres do mar, aos que partiram e não regressaram, às famílias que ficaram e a uma comunidade que encontrou na fé uma forma de agradecer, recordar e continuar.

Antes dos barcos, há a memória e a oração
As celebrações começam antes dos grandes momentos públicos. Nos dias 13 e 14 de Agosto, a comunidade dá início ao programa religioso com um tríduo em honra de Nossa Senhora, na Igreja de São Sebastião.
É nesse espaço que começa a preparar-se espiritualmente uma festa que, poucos dias depois, levará a imagem para junto do rio e das pessoas que há gerações mantêm viva esta tradição.
As festividades são organizadas pela Comissão de Festas de Nossa Senhora de Troia, com o apoio da Câmara Municipal de Setúbal, da União das Freguesias de Setúbal e das juntas de freguesia de São Sebastião e do Sado.

Setúbal despede-se da Senhora antes da travessia para Troia
Na manhã de 15 de Agosto, a alvorada, às oito horas, anuncia o início de um dos dias mais importantes das festas.
Às 15 horas, a Igreja de São Sebastião recebe a missa de homenagem aos marítimos falecidos e aos seus familiares.
É uma celebração carregada de significado para uma comunidade cuja história está profundamente ligada às águas do Sado.
Às 16h15, a procissão parte em direção a Troia, acompanhada pela banda da Sociedade Musical Capricho Setubalense e pela Banda Musical Charanga do Ló, de Sarilhos Grandes.
A partir desse momento, a festa muda de margem.
Em Troia, às 21h30, realiza-se uma procissão de velas pela praia. Às 22 horas, João Carlos anima o baile e arraial, prolongando pela noite uma celebração que junta devoção e convívio popular.

Troia veste-se de festa e os barcos ganham novas cores
No dia 16 de Agosto, a alvorada volta a despertar a comunidade às oito horas. Às 10h30, realiza-se uma missa seguida de procissão pela praia, acompanhada pela Banda Musical Charanga do Ló.
Mas é durante a tarde que uma das imagens mais características desta tradição começa a ganhar forma. Às 16 horas há divertimentos na praia e, às 17 horas, chega o concurso de barcos engalanados.
As embarcações, cuidadosamente preparadas para a ocasião, transformam-se numa extensão da própria festa. O rio deixa de ser apenas o espaço que separa Troia de Setúbal e passa a ser parte integrante da celebração.
É também uma forma de homenagear uma relação antiga: a que existe entre estas comunidades e as águas que durante séculos lhes deram sustento, mas que também exigiram respeito, coragem e fé.
À noite, João Carlos regressa para novo baile e arraial, às 22 horas. À meia-noite, o céu sobre Troia ilumina-se com um espetáculo pirotécnico.

O momento em que as duas margens voltam a encontrar-se
É no último dia que a festa guarda o momento mais aguardado.
A 17 de Agosto, às 10 horas, realiza-se uma nova missa de homenagem aos marítimos falecidos e aos seus familiares.
Durante a manhã há divertimentos na praia, às 11 horas, seguindo-se, às 11h30, a entrega dos prémios dos barcos engalanados.
Depois, começa a aproximação ao momento maior. Às 17h15, a imagem de Nossa Senhora do Rosário de Troia inicia o seu regresso a Setúbal através do tradicional círio fluvial. E é aqui que toda a história parece caber num único momento.
Os barcos acompanham a imagem pelas águas do Sado. Nas margens, as pessoas aguardam. Em Setúbal, a frente ribeirinha começa a encher-se. São centenas de pessoas à espera da chegada.
Há quem conheça esta tradição desde criança. Há quem a tenha herdado dos pais e dos avós. Há quem volte todos os anos porque, para muitas famílias, este é um daqueles dias que fazem parte do calendário emocional da vida.
Quando a imagem chega a Setúbal, as duas margens que durante os dias anteriores estiveram ligadas pela festa reencontram-se junto ao rio.

Mais do que uma festa, uma memória que continua viva
Talvez seja essa a força das Festas de Nossa Senhora do Rosário de Troia. Num tempo em que tantas tradições desaparecem, esta continua a reunir pessoas em torno de uma história com séculos. Continua a levar barcos para o Sado. Continua a recordar os marítimos que partiram. Continua a juntar Troia e Setúbal.
E continua a cumprir, ano após ano, aquela antiga ligação entre um povo e a sua Senhora. Porque há lugares onde a história está escrita nos livros. E há outros onde ela continua a navegar.
No Sado, entre Troia e Setúbal, essa história faz-se de barcos, de fé, de memória e de pessoas. E todos os anos, quando Nossa Senhora do Rosário atravessa novamente o rio, as duas margens voltam a lembrar que, apesar da água que as separa, há tradições que nunca deixaram de as unir.

Agência de Notícias 
Fotografia: CM Setúbal 

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