“Já fui a casa, já voltei e não fui chamada”: caos nas urgências do Barreiro

Utentes relatam esperas de até 24 horas no Barreiro. Garcia de Orta também enfrenta longas demoras

Uma pulseira amarela deveria significar que um doente seria observado por um médico no máximo em 60 minutos. No Hospital Nossa Senhora do Rosário, no Barreiro, houve quem esperasse 12 horas, 18 e até 24 horas. No Hospital Garcia de Orta, em Almada, a espera chegou às 11 horas, num fim de semana marcado por fortes constrangimentos nas urgências da Península de Setúbal.
Utentes relatam esperas de muitas horas para serem observados 

"Já fui para casa, já voltei e não fui chamada". O desabafo é de Ana Freitas, que esteve nas urgências do Barreiro desde domingo à tarde e descreveu à SIC um cenário particularmente difícil, sobretudo entre os idosos. O relato expõe a dimensão da pressão que voltou a atingir os serviços de urgência da Península de Setúbal.
E o problema não ficou pelo Barreiro. Na manhã desta segunda-feira, o Hospital Garcia de Orta, em Almada, registava cerca de 11 horas de espera para doentes urgentes. No Barreiro, o tempo chegava às 16 horas.

A espera que se prolonga por um dia inteiro
Durante o fim de semana, o Hospital do Barreiro chegou a apresentar tempos médios superiores a 18 horas. Entre quem aguardava estava uma utente que descreveu uma realidade em que muitos doentes permaneciam durante horas depois da triagem.
"Só chamam para a triagem e fica à espera, sem resposta. São todas pulseiras amarelas, há poucas verdes. Ficam mais de 12 horas à espera", relatou.
Ana Freitas fala também de idosos que permaneceram durante largas horas no hospital.
"Muitas pessoas à espera. Idosos principalmente a esperar mais de 12 horas, até 24 horas. Há muita gente que desiste. Eu já fui para casa, já voltei e não fui chamada".
Entre os casos relatados está ainda o de um homem que chegou ao hospital de ambulância depois de sofrer uma hemorragia.
António Cruz contou à SIC que o seu vizinho foi transportado durante a madrugada.
"Veio de ambulância às quatro da manhã para o hospital. Esteve aqui o dia inteiro até às nove da noite".

Quando esperar deixa de ser uma exceção
Os relatos surgem num período em que os serviços de urgência voltam a enfrentar dificuldades de resposta, numa altura marcada pelas férias de profissionais de saúde.
A situação na Península de Setúbal tem vindo a agravar-se desde quinta-feira, com os hospitais do Barreiro e de Almada entre os mais pressionados.
Na manhã desta segunda-feira, o cenário apresentava alguma melhoria no Barreiro. Por volta das nove horas, o tempo médio até à primeira observação tinha descido para menos de três horas. Ainda assim, continuava muito acima do tempo previsto para um doente urgente.
A contratação de médicos tarefeiros tem procurado reforçar a resposta durante períodos de maior pressão, mas não tem sido suficiente para eliminar um problema que se repete e que tende a agravar-se durante o verão.

Barreiro e Almada sob pressão
No Hospital Nossa Senhora do Rosário, a espera para um doente urgente chegou às 16 horas. No Hospital Garcia de Orta, em Almada, rondava as 11 horas.
A diferença entre os tempos registados e os tempos recomendados revela a dimensão da pressão sobre os dois serviços de urgência.
No Barreiro, os números chegaram a significar praticamente um dia inteiro de espera para alguns dos doentes que procuraram o hospital durante o fim de semana.

Hospital confirma tempos, mas não esclarece a situação
Perante os relatos de doentes que aguardavam há mais de um dia, a SIC contactou o Hospital do Barreiro. A unidade não prestou outros esclarecimentos, tendo apenas confirmado que os tempos médios apresentados no seu site estavam corretos.
Os valores permitem acompanhar a evolução da pressão sobre o serviço, mas não esclarecem as razões que levaram a tempos de espera tão prolongados.

"Alguma coisa tem de ser feita"
Entre os doentes que passaram horas à espera está também quem compreende a pressão provocada pelo período de férias, mas considera que a situação exige uma resposta.
"É altura de férias, percebo perfeitamente, mas alguma coisa tem de ser feita", afirmou um dos utentes.
A ministra da Saúde reconheceu, na passada sexta-feira, que continuam a existir momentos de procura elevada que provocam demoras excessivas, embora tenha defendido que os tempos de espera nas urgências estão "significativamente melhores" do que há dois anos.
A governante recusou, contudo, considerar aceitáveis esperas de várias horas, sobretudo quando estão em causa doentes classificados como urgentes.
Na Península de Setúbal, os números deste fim de semana voltam a colocar essa questão no centro das preocupações. Porque quando uma pessoa chega às urgências com uma pulseira amarela, a espera prevista mede-se em minutos. No Barreiro, este fim de semana, houve quem a medisse em 24 horas.
E perante a pressão que continua a atingir os hospitais da região, fica uma questão inevitável: o que acontecerá se o cenário se repetir no próximo fim de semana?

Agência de Notícias 
Fotografia: Design ADN



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