Barreiro prepara 10 dias de festa com entrada livre, música e procissão no Tejo

De 14 a 23 de Agosto, a cidade transforma a frente ribeirinha num enorme palco de festa

Há festas populares que se visitam. E depois há festas que se vivem. No Barreiro, quando chegam as Festas, a cidade muda de pele, as noites tornam-se mais longas, o Tejo ganha outro brilho e milhares de pessoas reencontram-se entre música, petiscos, tradição, gargalhadas e memórias que passam de geração em geração. De 14 a 23 de Agosto, o Barreiro volta a celebrar uma das maiores e mais marcantes festas populares da Península de Setúbal, com entrada livre e 10 dias em que há sempre uma razão para ficar mais um pouco.
A música prolonga-se pela noite nos vários espaços das Festas

É quando Agosto se instala, quando o calor começa a perder força ao fim da tarde e as primeiras pessoas descem em direção à zona ribeirinha, sabendo que naquela noite não vão simplesmente assistir a um concerto, comer uma bifana ou uma coininha [uma das sete maravilhas da nova gastronomia] ou dar uma volta pelo recinto. Vão encontrar alguém que não veem há meses, vão ouvir uma música que lhes traz uma memória antiga, vão sentar-se numa tasquinha, vão deixar os filhos andar nos divertimentos, vão ficar mais meia hora depois do concerto e, provavelmente, acabarão por ficar mais duas.
É assim que se fazem as grandes festas. Não apenas com palcos e artistas, mas com pessoas.
E as Festas do Barreiro têm essa capacidade rara de transformar dez dias num grande encontro coletivo, onde cabem os que cresceram na cidade, os que chegaram entretanto, os que regressam todos os anos e aqueles que simplesmente descobriram que, quando o Tejo está ali tão perto e a noite convida a ficar, não há grande pressa para ir embora.
Entre 14 e 23 de Agosto, o Barreiro volta a abrir as portas da sua grande festa de verão.

Quando a cidade inteira começa a caminhar para o rio
As Festas não começam quando o primeiro cantor pega no microfone. Começam muito antes. Começam nas ruas, nas associações, nas coletividades, nos preparativos das tasquinhas, nos comerciantes que montam os seus espaços, nos artesãos que organizam as bancas e nas famílias que já sabem que, durante dez dias, haverá sempre uma noite para sair de casa.
E começam oficialmente pelas ruas na sexta-feira, 14 de Agosto, com o tradicional Desfile do Movimento Associativo.
Às 19 horas, clubes, coletividades e associações concentram-se junto aos Paços do Concelho, na Rua Miguel Bombarda, e percorrem depois a Avenida Alfredo da Silva e a Rua Miguel Pais até ao recinto.
É um daqueles momentos em que o Barreiro se reconhece a si próprio.
Porque se há coisa que define esta cidade é a força das suas associações, dos seus clubes, das coletividades e das pessoas que, muitas vezes longe dos holofotes, mantêm viva uma parte essencial da identidade barreirense.
Às 19h30, a festa abre oficialmente. E, pouco depois, começa a música.

10 noites para cantar, dançar e recordar
Às 22 horas, o Palco das Marés, instalado diante da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, recebe o primeiro grande concerto.
Julinho KSD dá o pontapé de saída a 10 noites em que o cartaz percorre diferentes estilos, diferentes gerações e diferentes maneiras de viver a música.
No dia 15, a noite é dedicada ao Funk. A 16, Satiro sobe ao palco. A 17, chega Irina Barros. No dia 18, os Bandidos do Cante levam ao Barreiro uma sonoridade que carrega consigo a força da música tradicional alentejana, num dos cruzamentos mais interessantes deste cartaz.
E depois chega Toy, no dia 19. Há músicas que não precisam de apresentação porque já fazem parte da memória coletiva de várias gerações, e a noite de Toy promete precisamente esse reencontro entre o palco e um público que conhece as canções, sabe as letras e não precisa de convite para cantar.
A 20 de Agosto, Badoxa assume o palco. No dia 21, é a vez de Maninho. E depois chega uma das noites que promete transformar o recinto numa verdadeira viagem no tempo. A noite em que o Barreiro viaja para os anos 80 e 90. 
No dia 22 de Agosto, a Festa M80 traz ao Barreiro Nelson Miguel, Jay Lion e Francisco Gil, numa noite pensada para quem cresceu ao som dos grandes êxitos das décadas de 80 e 90, mas também para quem descobriu essas músicas muitos anos depois.
DJ, vídeo, dança e interação com o público juntam-se numa noite em que a nostalgia deixa de ser apenas memória e passa a ser uma enorme pista de dança.
E, quando já parecer que não pode haver mais festa, ainda falta a despedida. A 23 de Agosto, Bárbara Bandeira encerra o cartaz dos grandes concertos.
Depois, o céu sobre o Tejo deverá iluminar-se com o fogo de artifício que tradicionalmente marca o encerramento das Festas. Mas no Barreiro há uma regra não escrita: quando acaba um concerto, a noite não acaba necessariamente.

Porque no Barreiro a noite não termina quando acaba o concerto
É precisamente aqui que se percebe a dimensão das Festas. Enquanto milhares de pessoas deixam o Palco das Marés, outras começam a deslocar-se para junto da Piscina Municipal, onde o Spot da Juventude prolonga a noite com uma programação alternativa, construída pelas associações ADAO, Gasoline, Hey, Pachuco! e OUT.RA, com o apoio da Câmara Municipal.
Concertos e DJ sets ocupam este espaço, dando palco a projetos e artistas que encontram ali uma liberdade diferente daquela que existe no palco principal.
E há ainda o Palco dos Bares, junto à Igreja de Nossa Senhora do Rosário, onde os DJs continuam a música depois dos grandes concertos e onde a noite pode seguir até às três da manhã.
É por isso que, durante as Festas, o relógio parece funcionar de outra maneira. Há quem chegue ao fim da tarde. Há quem apareça para jantar. Há quem vá apenas ao concerto. E há quem diga que vai embora cedo e seja encontrado ainda no recinto horas depois.

O Tejo, a mesa e os sabores de uma cidade em festa
Mas nem tudo acontece ao som da música. Há um outro lado das Festas que começa quando o cheiro da comida se espalha pelo recinto e as pessoas começam a procurar uma mesa onde possam sentar-se sem pressa.
As tasquinhas funcionam diariamente entre as 19 horas e as duas da manhã, oferecendo os sabores que fazem parte das festas populares e daquele ritual tão português de comer, conversar, beber qualquer coisa e deixar a noite acontecer. No dia 22, sábado, o horário prolonga-se até às três da manhã.
Ao lado, os feirantes, o artesanato e os divertimentos acrescentam à festa aquela dimensão popular que não precisa de grandes explicações.
Há crianças a correr. Há famílias a escolher onde jantar. Há amigos que param junto a uma banca. Há quem procure uma lembrança. Há quem simplesmente caminhe pelo recinto sem destino, porque também isso faz parte da experiência. 
As Festas do Barreiro são igualmente uma montra para o comércio, para os negócios, para o artesanato e para o tecido associativo local, criando durante 10 dias uma espécie de pequena cidade económica e cultural dentro da própria cidade. É este o espírito da Barrind. 

Há um lugar para começar a noite devagar
E talvez seja por isso que o Moinho Lounge tenha uma identidade tão própria.
No Moinho de Maré Pequeno - Centro Interpretativo, entre as 18 e as 22 horas, há espaço para quem prefere começar a noite de outra maneira.
O rio está ali. O fim de tarde também. E durante algumas horas existe uma espécie de intervalo entre o Barreiro que ainda trabalha e o Barreiro que já está pronto para a festa.
É o momento de sentar, conversar, beber qualquer coisa e olhar o movimento crescer à distância. Depois das 22 horas, quando começam os grandes concertos, o Moinho Lounge encerra. E a noite ganha outro ritmo.

Mas há um dia em que o Barreiro abranda para olhar o Tejo
As Festas juntam tradição, gastronomia e animação junto ao Tejo
No meio de 10 dias de música, divertimentos e noites longas, existe um momento em que a festa assume uma dimensão diferente.
É 15 de Agosto, dia da tradicional celebração em honra de Nossa Senhora do Rosário. Às 11h30, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário recebe a missa solene. Depois, pouco a pouco, a celebração aproxima-se do rio.
A partir das 13h30, começa o embarque do público no Pontão do Terminal Rodo-Ferro-Fluvial do Barreiro para aquela que é uma das imagens mais marcantes das Festas: a procissão marítima. Às 14h30, as imagens de Nossa Senhora do Rosário e de São Pedro embarcam. Às 15 horas, as embarcações partem. E o Tejo transforma-se, por algumas horas, num lugar de fé.
A procissão passa pela zona da Polis e Terminal, pela Praia de Alburrica, pela Praia do Bico do Mexilhoeiro, pela Praia Norte e pela Avenida Bento Gonçalves, até chegar à zona do Clube de Vela, onde será realizada a bênção.
É uma imagem que vale mais do que muitas palavras: as embarcações no Tejo, as imagens religiosas a bordo e, em terra, pessoas a acompanhar o percurso, numa tradição que liga a cidade à água e à sua própria história.
O regresso está previsto para cerca das 17 horas, junto ao Pontão/Doca dos Pescadores. A participação nas embarcações é gratuita, mediante inscrição.

E depois o Barreiro volta a caminhar pelas suas ruas
Às 18 horas, a procissão terrestre sai da Igreja de Nossa Senhora do Rosário.
Percorre a Rua Conselheiro Joaquim António d’Aguiar, a Praça Gago Coutinho e Sacadura Cabral, a Travessa da Praia, a Avenida Bento Gonçalves, o Largo de Santa Cruz, a Rua Serpa Pinto, a Avenida Alfredo da Silva e a Rua Miguel Pais, antes de regressar à igreja.
Durante as Festas, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário permanece aberta diariamente, entre as 18 horas e a meia-noite.
Porque a festa pode ter música, luzes e milhares de pessoas, mas também precisa de silêncio, memória e fé.

10 dias que dizem muito sobre o Barreiro
No fundo, talvez seja impossível explicar as Festas do Barreiro apenas através de um programa.
Porque o programa diz quem canta, a que horas começa o concerto, quando abrem as tasquinhas ou por onde passa a procissão.
Mas não consegue explicar o que acontece quando uma família se reencontra no recinto depois de meses sem se ver, quando alguém ouve uma música e imediatamente regressa a outra época da sua vida, quando uma criança olha para os divertimentos com a mesma ansiedade com que os pais os olhavam há décadas ou quando uma cidade inteira se reúne junto ao Tejo para celebrar aquilo que é seu.
As Festas são isso. São música e são memória. São juventude e são tradição. São o cheiro da comida ao cair da noite, o som que vem dos palcos, as conversas demoradas nas mesas, o movimento das ruas, os barcos no Tejo e as luzes que, durante 10 dias, fazem o Barreiro parecer ainda maior.
São os que vêm pela música e acabam por descobrir a cidade. São os que vêm pela tradição e ficam para o concerto. São os que vão apenas dar uma volta e acabam por ficar até de madrugada. E talvez seja precisamente aí que está a alma desta festa.
As Festas do Barreiro não acontecem simplesmente no Barreiro. Acontecem com o Barreiro. Entre 14 e 23 de Agosto, a cidade volta a abrir-se ao Tejo, à música, à tradição, à gastronomia, ao associativismo e a todos aqueles que sabem que há noites de verão que não devem ser apressadas. Porque há lugares onde uma festa é apenas uma festa. E há cidades onde a festa é a própria cidade.

Paulo Jorge Oliveira 
Fotografia: Paulo Jorge Oliveira 

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