EXCLUSIVO ADN | Pinhalnovense na Alemanha cria "Escudo Florestal" para prevenir incêndios

Aplicação permite consultar riscos, receber alertas e comunicar ocorrências com localização e fotografia

Há uma distância de centenas de quilómetros entre a Alemanha, onde Ricardo Ferreira vive e trabalha, e Pinhal Novo, a terra onde nasceu. Mas há uma coisa que, sobretudo no verão, continua a ligá-lo diariamente a Portugal: o fogo. As imagens dos incêndios, das populações ameaçadas, das casas em risco e dos Bombeiros na linha da frente foram-se tornando uma presença demasiado familiar. E, para quem está longe, existe também a sensação de pouco poder fazer. Foi dessa inquietação que nasceu o Escudo Florestal, um projeto criado por Ricardo Jorge Ferreira para aproximar tecnologia, prevenção e comunidade. Em entrevista exclusiva à ADN–Agência de Notícias, o pinhalnovense conta como nasceu a ideia, o que já permite fazer a aplicação e até onde quer levar um projeto que ainda está a dar os primeiros passos. "É difícil estar longe. Apesar de viver na Alemanha, Portugal continua a ser a minha casa e o Pinhal Novo continua a ser a minha terra".
O projeto prevê ainda uma componente de apoio aos Bombeiros

O projeto não nasceu de uma empresa, nem de uma grande equipa dedicada ao desenvolvimento de aplicações. Nasceu de uma preocupação pessoal que foi crescendo cada vez que Ricardo acompanhava à distância a época de incêndios em Portugal.
"Sempre que acontecem grandes incêndios em Portugal, acompanho as notícias e vejo o impacto que têm nas pessoas, nas famílias, nos animais, nas casas e também nos Bombeiros que estão na linha da frente".
Durante algum tempo, a preocupação ficou apenas pelo pensamento. Até que Ricardo percebeu que poderia tentar transformar essa inquietação numa ferramenta.
"O 'clique' foi perceber que eu passava muito tempo a pensar que era preciso fazer alguma coisa, mas apenas pensar não iria mudar nada. Então decidi tentar transformar essa preocupação numa solução".
Foi assim que começou a construir o Escudo Florestal. "Não tenho uma grande empresa por trás nem uma grande equipa. Sou uma pessoa que teve uma ideia, acreditou nela e decidiu tentar concretizá-la".
A aplicação reúne várias ferramentas num único espaço: permite consultar, através de um mapa em tempo real, focos de incêndio ativos e dados meteorológicos e de risco de incêndio; possibilita a qualquer cidadão reportar ocorrências, com fotografia e localização, e alertar residentes nas proximidades; disponibiliza ainda um canal para pedidos de ajuda em situações críticas e notificações de proximidade, que avisam o utilizador sempre que surge um risco na sua área.

Um mapa para saber o que está a acontecer
A aplicação foi pensada para reunir, num mesmo espaço, informação que pode ser importante antes e durante uma situação de risco.
Entre as principais funcionalidades está um mapa em tempo real, onde os utilizadores podem consultar focos de incêndio ativos e informação meteorológica e de risco de incêndio.
Mas Ricardo quis ir mais longe do que simplesmente disponibilizar informação. "Não quero que o cidadão seja apenas alguém que recebe informação. Quero que possa também participar na prevenção, comunicar uma situação que considere de risco e, quando necessário, ajudar outras pessoas".
É aí que entram os alertas comunitários. Qualquer cidadão pode reportar uma ocorrência através da aplicação, indicando a localização e podendo acrescentar uma fotografia. A informação pode depois chegar a residentes que estejam nas proximidades.
A aplicação inclui ainda notificações de proximidade, que permitem alertar o utilizador quando é identificado um risco na sua área.

Quando a comunidade também pode ser parte da resposta
A lógica do projeto assenta numa ideia simples: quem vive num território pode ser também uma fonte importante de informação sobre aquilo que está a acontecer nesse território.
Mas essa participação tem de ser feita com responsabilidade. "É importante distinguir entre um alerta feito por um cidadão e uma ocorrência oficialmente confirmada".
O Escudo Florestal prevê mecanismos de confirmação dos alertas comunitários e estabelece um período de validade para evitar que situações antigas ou não confirmadas permaneçam indefinidamente ativas.
"A intenção é evitar que informações antigas ou não confirmadas permaneçam indefinidamente visíveis e possam provocar alarmismo".
Ricardo sabe que, quando está em causa um incêndio ou outra situação de perigo, a rapidez é importante, mas a informação errada também pode ter consequências.
Por isso, deixa uma mensagem clara: "Perante uma situação de emergência ou perigo imediato, o 112 e os meios oficiais continuam a ser fundamentais. O Escudo Florestal não pretende substituir esses serviços".

Pedir ajuda também faz parte do projeto
Notificações de proximidade alertam os utilizadores para riscos 
Outra das funcionalidades passa pelos pedidos de ajuda. A aplicação permite sinalizar necessidades de apoio em situações críticas, criando um canal que pretende facilitar a comunicação entre quem precisa de ajuda e quem poderá estar em condições de a prestar.
É uma componente que reforça aquilo que Ricardo considera ser uma das principais características do projeto: a dimensão comunitária. "Aquilo que considero que diferencia o Escudo Florestal é precisamente essa componente comunitária".
A ideia não é criar mais uma plataforma onde as pessoas simplesmente recebem notificações. "Quero que possa também participar na prevenção e, quando necessário, ajudar outras pessoas".

Uma ferramenta complementar, não uma alternativa aos meios oficiais
Ricardo faz questão de sublinhar que o Escudo Florestal não pretende ocupar o espaço das entidades que já têm responsabilidades na proteção e socorro.
"O Escudo Florestal não foi criado para substituir a Proteção Civil, os Bombeiros, o 112 ou outras plataformas oficiais que já existem em Portugal".
A intenção é outra. "Quero que seja uma ferramenta complementar, principalmente na prevenção, na informação e na entreajuda entre a população".
É também por isso que o próximo passo passa por aproximar o projeto de quem conhece os incêndios e a prevenção no terreno.

"Não quero criar uma ferramenta sem ouvir quem está no terreno"
Nesta fase, o Escudo Florestal funciona de forma independente. Ainda não existem protocolos formais de comunicação ou integração direta com a Proteção Civil ou com corporações de Bombeiros. Ricardo quer, contudo, que isso possa mudar.
"Uma das coisas que estou agora a procurar fazer é precisamente estabelecer contactos com municípios, Proteção Civil e corporações de Bombeiros, apresentar o projeto, ouvir quem está no terreno e perceber de que forma a aplicação poderá ser realmente útil".
A preocupação é evitar que uma ferramenta tecnológica seja construída afastada da realidade de quem diariamente lida com as consequências dos incêndios. "Não quero criar uma ferramenta sem ouvir as pessoas que trabalham diariamente nesta área".

A prevenção começa antes de aparecer o fogo
O Escudo Florestal procura também atuar numa fase anterior à emergência. O projeto prevê funcionalidades relacionadas com a identificação de zonas que possam necessitar de limpeza florestal e pretende aproximar proprietários de empresas que prestam esse tipo de serviços.
A lógica é simples: se a prevenção começa antes do incêndio, também uma aplicação pode ajudar a identificar problemas antes de estes se transformarem numa emergência.
Mas Ricardo prefere avançar com cautela. "Não quero afirmar que o simples facto de uma empresa estar registada na aplicação significa que o Escudo Florestal garante que essa empresa é certificada ou que o serviço será de determinada qualidade".
A intenção é criar mecanismos que permitam verificar documentação e certificações. "Quero que a aplicação facilite a procura de empresas, mas também quero fazê-lo de forma responsável. Não quero dar às pessoas uma falsa sensação de segurança".

Uma parte dos donativos será entregue aos Bombeiros
O apoio aos Bombeiros é outra das vertentes do projeto. O modelo definido por Ricardo prevê que 80% dos donativos sejam destinados às corporações, ficando os restantes 20% para a manutenção e desenvolvimento da aplicação.
Os utilizadores poderão indicar a corporação que pretendem apoiar através de um sistema de votação.
"Se durante um mês forem angariados 100 euros, 80 euros serão destinados à corporação que tiver sido escolhida através da votação".
Também aqui a transparência é uma preocupação. "A minha intenção é fazer a entrega pessoalmente à corporação e depois publicar na aplicação informação sobre o resultado da angariação e a entrega".
E Ricardo não esconde que ainda há trabalho pela frente. "Não quero afirmar que já existe um sistema perfeito quando ainda estou a construí-lo".

Um projeto que nasceu no Pinhal Novo, mesmo estando longe
Apesar de viver na Alemanha, Ricardo não esqueceu o território onde cresceu. "O Pinhal Novo faz parte de quem eu sou".
A ligação ao território, explica, também ajudou a moldar a preocupação que esteve na origem do projeto. "É uma zona onde existe uma relação muito próxima entre população, campo, agricultura e espaços florestais. Acredito que essa realidade contribuiu bastante para a minha preocupação com a prevenção e com a entreajuda".
Por isso, o Escudo Florestal acaba por ser mais do que uma ideia tecnológica. "Nasceu também de uma ligação emocional ao território e às pessoas". 
É essa ligação que continua presente quando Ricardo pensa na utilidade que a aplicação pode ter. "Penso nas pessoas que vivem em zonas onde um incêndio pode chegar às suas casas, nos agricultores, nos idosos, nos animais e em todos aqueles que podem ser afetados".

Transformar a impotência em participação
Os cidadãos podem comunicar ocorrências através de localização
Talvez a frase que melhor explique o projeto seja precisamente aquela que liga o ponto de partida ao objetivo final.
Ricardo está longe de Portugal. Mas decidiu que estar longe não significava ficar de fora. "Quando acontecem incêndios, acompanho as notícias e as imagens e existe sempre uma sensação de impotência por estar longe e não poder estar fisicamente no terreno a ajudar".
Foi essa sensação que acabou por se transformar em ação. "Foi também uma das razões que me levou a criar o Escudo Florestal".
E acrescenta: "Pensei muitas vezes: se estou longe e não posso estar lá fisicamente, talvez possa tentar contribuir de outra forma".
É aí que encontra o sentido do projeto. "O meu objetivo é transformar essa distância numa forma diferente de participação e ajuda".

A aplicação já está disponível gratuitamente
O Escudo Florestal está agora a entrar numa nova fase. A aplicação foi aprovada e encontra-se disponível gratuitamente na Google Play Store, permitindo aos utilizadores aceder às funcionalidades de informação, alertas, notificações e pedidos de ajuda.
Para Ricardo, esta primeira etapa será também um período de aprendizagem. "Para mim, nesta primeira fase, é muito importante perceber se a aplicação é realmente útil para as pessoas e ir melhorando com base no feedback que receber".
O objetivo passa por consolidar o projeto em Portugal, estabelecer contactos com entidades e perceber como pode crescer.
Ricardo admite ainda a possibilidade de criar uma associação sem fins lucrativos dedicada à prevenção, à entreajuda e ao apoio das populações afetadas. E, mais tarde, se o projeto demonstrar que pode ser útil, chegar a outros países europeus.
"Sei que existe muito trabalho pela frente e que não será fácil. Mas acredito que, quando existe uma ideia em que realmente acreditamos, devemos pelo menos tentar concretizá-la".
Foi isso que Ricardo Ferreira decidiu fazer.
Enquanto trabalha na Alemanha, mantém os olhos postos em Portugal e no território onde cresceu. O Escudo Florestal é a forma que encontrou para transformar a distância em participação e a preocupação em ação. Numa época em que os incêndios voltam a colocar comunidades inteiras em alerta, a ideia de um pinhalnovense procura agora encontrar o seu lugar entre a tecnologia e a prevenção.

Paulo Jorge Oliveira 
Fotografia: Paulo Jorge Oliveira e Design ADN 


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