Protesto no Barreiro juntou centenas contra encerramento da obstetrícia

Região de Setúbal une-se em defesa das grávidas contra decisão do Governo. Autarcas vão bater à porta da ministra

A decisão do Governo de encerrar definitivamente a urgência de obstetrícia e ginecologia do Hospital Nossa Senhora do Rosário, no Barreiro, desencadeou uma reação imediata na Península de Setúbal: os nove autarcas da região vão deslocar-se esta segunda-feira, às 8h30, ao Ministério da Saúde para exigir uma reunião presencial com a ministra Ana Paula Martins. A iniciativa surge após um protesto que reuniu mais de 500 pessoas em frente à unidade hospitalar.
Centenas de pessoas concentradas junto ao hospital do Barreiro

A mobilização foi decidida no sábado, numa reunião extraordinária da Comunidade Intermunicipal da Península de Setúbal. O presidente da Câmara Municipal do Barreiro, Frederico Rosa, explicou que os autarcas estão determinados a ser ouvidos.
"A senhora ministra da Saúde há sete meses que não nos responde a ofícios. Marca reuniões, remarca e remarca. E vem dizer para o Parlamento que já falou e articulou connosco. Por isso, vamos todos, de viva-voz, dar a cara, olhos nos olhos, mostrar à senhora ministra que estes são os autarcas com os quais disse que falou, mas nunca falou. Se calhar nem nos conhece", afirmou.
O autarca considera que a expressiva participação no protesto de domingo reforça a legitimidade da contestação e demonstra a inquietação da população perante o encerramento do serviço.
 
Uma decisão que promete "mais caos" na região
Segundo Frederico Rosa, concentrar a urgência de obstetrícia no Hospital Garcia de Orta, em Almada, não resolve o problema estrutural da falta de profissionais e poderá agravar a pressão sobre várias unidades hospitalares da região, incluindo o Hospital do Barreiro, o Hospital de São Bernardo, em Setúbal, e o Hospital do Litoral Alentejano, em Santiago do Cacém.
"Não custa nada perceber que vamos ter cada vez mais partos em ambulâncias, em condições difíceis para grávidas e bebés. Vamos ter os nossos bombeiros comprometidos nestas viagens sem sentido. Não é isto que nós queremos", sublinhou. 
O presidente da autarquia lembra ainda que o hospital do Barreiro foi alvo de obras no valor de cerca de 2,1 milhões de euros, estando, no seu entender, devidamente equipado para manter o serviço em funcionamento.
Também Antonieta Fortunato, da Comissão de Utentes dos Serviços Públicos do Barreiro, rejeita o encerramento. "Nós não vamos permitir que este serviço encerre. A senhora ministra não pode decidir livremente, sem consultar autarcas, comissões de utentes e bombeiros. O hospital teve obras, está apetrechado, tem condições", declarou.
A representante acredita que a forte adesão popular poderá levar a ministra a reconsiderar. "O Hospital Garcia de Orta não tem condições, quer de meios humanos, quer de instalações, para receber todas estas grávidas", sustentou.

Médicos alertam: "Obstetras não vão aparecer miraculosamente"
Para André Gomes, presidente da Comissão Executiva da Federação Nacional dos Médicos, a concentração de centenas de pessoas é reveladora da dimensão do problema.
O dirigente sindical considera que a decisão é "profundamente injusta" para os utentes do Barreiro, de Alcochete, da Moita, da Península de Setúbal, de Vila Franca e de Loures, alertando que a estratégia poderá estender-se a outras especialidades.
"O que não é válido é pensar-se que, por concentrar tudo em Almada, vão florescer médicos nesses serviços. Não é por concentrarmos os serviços que os obstetras vão aparecer miraculosamente. Têm de ser tomadas medidas de reforço dos salários e das equipas para que estes serviços possam reabrir", defendeu.

Protesto junta forças políticas e comunidade
A manifestação contou com a presença de dirigentes, deputados e autarcas de vários partidos, entre os quais Paula Santos (PCP), Fabian Figueiredo (BE), André Pinotes Batista (PS) e Fernando Pinto, presidente da câmara de Alcochete. 
Também o vereador social-democrata, da câmara do Barreiro, José Paulo Rodrigues marcou presença e apelou a "mais sensibilidade" por parte do Governo.
"Se estamos aqui presentes é para manifestar o nosso ponto de vista e dizer que acreditamos que pode haver um bocadinho mais de sensibilidade e tentar outras soluções que permitam a continuação do serviço de proximidade à população do Barreiro, da Moita, do Montijo e de Alcochete", afirmou.
Entre os participantes estava ainda Mário Rodrigues, nascido há 12 anos no hospital do Barreiro, que sublinhou a importância simbólica da maternidade local. "É importante demonstrar revolta contra este encerramento. É inadmissível que no futuro as pessoas do Barreiro não possam nascer na sua cidade natal", disse o jovem aos microfones da SIC. 
Apesar de a ministra da Saúde alegar falta de condições para manter a urgência aberta, os autarcas insistem que a solução passa por reforçar meios e não por encerrar serviços. "Temos cada vez mais grávidas que não são vigiadas. É aqui que precisamos de respostas de saúde", concluiu Frederico Rosa.

Agência de Notícias 
Fotografia: Design ADN  

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