Decisão judicial antiga volta ao centro da disputa por cinco praias da Arrábida

Processo dos donos da Comenda reacende debate sobre privatização de praias em Setúbal

Uma decisão do Tribunal de Setúbal que reconheceu como privada a Praia de Alpertuche - no Portinho da Arrábida - voltou a ganhar destaque no debate sobre a tentativa de apropriação de cinco praias da Arrábida, um processo distinto que envolve os proprietários da Herdade da Comenda e está a gerar forte contestação em Setúbal. Mas há esperança: tanto o Ministério Público como a Agência Portuguesa do Ambiente rejeitam a pretensão dos proprietários da Comenda. 
Donos da Comenda querem impedir o acesso às praias da Arrábida 

A controvérsia em torno do acesso público ao litoral da Arrábida ganhou novo fôlego após os proprietários da Herdade da Comenda recorrerem aos tribunais para reivindicar a titularidade das praias da Rasca, Comenda, Rainha, Maria Esguelha e Albarquel.
Embora o processo atualmente em discussão seja independente, uma sentença proferida pelo Tribunal de Setúbal em 2017 está a ser apontada como um possível precedente jurídico. Nesse caso, o tribunal reconheceu como propriedade privada os terrenos da Praia de Alpertuche, uma área que não pertence à Herdade da Comenda nem está relacionada com os atuais proprietários da herdade.
A decisão judicial concluiu que uma propriedade com cerca de 27 hectares, que se inicia na Praia de Alpertuche e se prolonga para o interior do Parque Natural da Arrábida, tinha sido adquirida por particulares antes de 1864. O tribunal considerou que, nessa época, não existia legislação que atribuísse domínio público às margens marítimas, razão pela qual os terrenos foram considerados parte integrante da propriedade privada.
Na sentença, o Estado foi condenado a reconhecer que a zona situada entre as margens do mar e o interior da Praia de Alpertuche não integra o domínio público hídrico.

Debate sobre acesso ao litoral
O Bloco de Esquerda considera que a ação judicial relacionada com a Herdade da Comenda representa um risco para o acesso público às praias da Arrábida e pode abrir caminho a situações semelhantes noutras zonas costeiras.
A questão esteve em análise numa conversa pública promovida pelo partido no passado domingo, dedicada à tentativa de inclusão das cinco praias nos limites da propriedade da Comenda.
Em declarações à ADN -Agência de Notícias, Jaime Pinho, dirigente do Bloco de Esquerda, afirmou que os proprietários da herdade procuram, através dos tribunais, obter "de facto a propriedade das praias".

Críticas à possibilidade de praias privadas
Jaime Pinho considera que a discussão ultrapassa a simples definição de limites territoriais e envolve uma questão de interesse coletivo.
"Ao suscitar artificialmente e de maneira insidiosa a possibilidade teórica de existirem praias privadas em Portugal, a família Mirpuri quis dar o seu contributo para o clima favorável que se tem procurado criar, mundialmente, no sentido de que a subtração de locais de incomensurável valor ecológico, ambiental e paisagístico da esfera pública para a esfera privada possa ser encarada como normal e inevitável pela opinião pública", afirmou.
O dirigente acrescentou que existe uma tentativa de normalizar a apropriação de espaços com elevado valor ambiental e social.
"A ambição não é apenas delimitar, isolar e cercar este género de territórios, para que o livre-acesso e usufruto histórico em liberdade das populações deixe de ser possível. Nem sequer apenas transformar artificialmente esses territórios em produtos imobiliários exclusivos e transaccionáveis, independentemente da sua inestimável valia ecológica e das suas íntimas relações e usos históricos e sociológicos com as comunidades onde se inserem. A intenção é que as pessoas se habituem a essa ideia e que passem a aceitá-la", declarou.


Ministério Público e APA contra pretensão da Comenda
Em Maio, a concelhia de Setúbal do Bloco de Esquerda já tinha criticado o processo judicial relacionado com a Herdade da Comenda, acusando os proprietários de pretenderem alterar os limites da propriedade para incluir os areais das cinco praias até à linha de água.
O partido acusou igualmente a empresa Seven Properties, proprietária da Herdade da Comenda, de procurar privatizar praias públicas em benefício de "meia dúzia de milionários".
Segundo o jornal Público, tanto o Ministério Público como a Agência Portuguesa do Ambiente rejeitam a pretensão dos proprietários da Herdade da Comenda de obter a titularidade das praias em causa.
Modelo de acessos também gera críticas
Jaime Pinho criticou ainda o modelo de acessos à Arrábida aprovado pela Câmara Municipal de Setúbal para 2026.
Segundo o dirigente bloquista, as restrições à circulação automóvel favorecem os interesses da Herdade da Comenda e dificultam o acesso da população ao Parque de Merendas da Comenda e às praias daquela zona da Serra da Arrábida.
A discussão sobre a propriedade das praias e sobre os acessos ao litoral continua, assim, a alimentar um dos debates mais sensíveis da região de Setúbal, onde se cruzam interesses ambientais, patrimoniais, jurídicos e de utilização pública de um território considerado único em Portugal.

Agência de Notícias 
Fotografia: Design ADN 

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