Ministra admite preocupações, mas decisão sobre urgência do Barreiro está tomada

Governo não recua na reorganização das urgências obstétricas apesar da pressão dos autarcas

A urgência de obstetrícia do Hospital do Barreiro vai encerrar e a decisão não vai ser revertida para já. A ministra da Saúde reconhece que a falta de obstetras, ginecologistas e enfermeiros especialistas está na origem da medida e admite que o cenário poderá ser reavaliado no futuro, caso os recursos humanos melhorem. Apesar da contestação dos autarcas da Península de Setúbal - com quem não falou antes de anunciar a decisão - Ana Paula Martins vai reunir com os nove presidentes de câmara da região a 10 de Março. Mas o encerramento da urgência obstétrica do Hospital Nossa Senhora do Rosário, com concentração do atendimento no Hospital Garcia de Orta, já está decidido.
Governo mantém decisão de fechar urgência obstétrica do Barreiro

O anúncio do encerramento da urgência de obstetrícia e ginecologia do hospital do Barreiro gerou forte contestação entre os municípios da Península de Setúbal.
Os autarcas do Barreiro, Moita, Montijo, Alcochete, Seixal, Almada, Palmela, Sesimbra e Setúbal entregaram na segunda-feira uma carta no Ministério da Saúde a manifestar oposição à medida. O documento expressa preocupação com o impacto da reorganização na resposta materno-infantil na região.
A mudança surge no contexto da criação de uma nova urgência regional de obstetrícia para a Península de Setúbal, cuja entrada em funcionamento está prevista para Março.

Escassez de profissionais na origem da decisão
A ministra da Saúde explicou que a reorganização foi motivada sobretudo pela falta de profissionais especializados no Serviço Nacional de Saúde.
Segundo Ana Paula Martins, a escassez de obstetras, ginecologistas e enfermeiros especialistas em saúde materna e obstétrica dificulta a manutenção de todas as urgências abertas com equipas completas.
“Se tivéssemos obstetras e enfermeiros suficientes para manter todas as portas abertas, tê-las-íamos abertas”, afirmou.
A governante recorda que o SNS continua a assegurar mais de 165 serviços de urgência em funcionamento em todo o país.
Nos últimos anos foi tentado um modelo de rotatividade entre equipas médicas, mas a dificuldade em garantir escalas completas, aliada à elevada carga de trabalho, contribuiu para a saída de profissionais do sistema público de saúde. A ministra acrescenta que as novas gerações procuram maior equilíbrio entre vida profissional e pessoal, o que também influencia a disponibilidade para trabalho contínuo em urgência.

Reunião com autarcas marcada para 10 de Março
Apesar das críticas de falta de diálogo, a ministra garante que valoriza o contacto com os autarcas, mas defende que esse diálogo deve ocorrer depois de existir um modelo estruturado com os profissionais de saúde.
Por esse motivo, foi marcada uma reunião para 10 de Março com os nove presidentes de câmara da Península de Setúbal, inicialmente prevista apenas com alguns autarcas, mas entretanto alargada a toda a comunidade intermunicipal.
O encontro acontece depois de a decisão já ter sido anunciada, o que levanta dúvidas entre os responsáveis locais sobre o verdadeiro impacto da reunião.

Governo garante que maternidades não vão fechar
Ana Paula Martins sublinha que a reorganização diz respeito apenas às urgências de obstetrícia e ginecologia.
Segundo a governante, não está previsto o encerramento de maternidades nem dos serviços de obstetrícia hospitalares. As unidades continuarão a realizar consultas, ecografias e partos programados.
O objetivo da concentração das urgências, afirma, é garantir maior segurança clínica para mães e bebés e assegurar equipas completas e previsibilidade no atendimento.
A ministra admite, no entanto, que estas são as primeiras medidas e que o modelo poderá ser reavaliado no futuro, caso a situação de recursos humanos venha a melhorar.

Almada teme pressão sobre o hospital Garcia de Orta
Entre as críticas à reorganização está a presidente da Câmara de Almada, Inês de Medeiros.
A autarca alerta para o risco de uma pressão acrescida sobre o Hospital Garcia de Orta, que passará a concentrar as urgências obstétricas da região.
Segundo Inês de Medeiros, a unidade hospitalar já enfrenta dificuldades devido à falta de profissionais e poderá ter dificuldades em responder a um aumento significativo de partos e atendimentos urgentes.
A responsável defende que a reorganização da obstetrícia deve integrar uma estratégia mais ampla e coordenada, que assegure proximidade e segurança para mães e recém-nascidos.
Lembra ainda que a obstetrícia exige equipas altamente diferenciadas, meios adequados e capacidade de resposta imediata, pelo que decisões isoladas podem comprometer a qualidade da resposta materno-infantil.

Decisão política assumida
No final, a ministra da Saúde afirma compreender a inquietação dos autarcas, lembrando que são os responsáveis políticos mais próximos das populações e que têm “enormes responsabilidades na garantia de que as suas comunidades são bem servidas”.
Ainda assim, Ana Paula Martins deixa claro que o Governo não vai recuar nas reformas que considera necessárias no Serviço Nacional de Saúde.
A governante critica aquilo que considera ser uma contradição no debate público. “Somos acusados de não fazer reformas, ou de fazer reformas tímidas, e quando fazemos reformas para servir melhor as pessoas, de forma transparente, estudada por peritos e baseada na evidência, dizem-nos que afinal essas reformas não podem ser”, afirmou.
Uma resposta dura às críticas políticas e autárquicas e um sinal claro de que, apesar da contestação, a decisão sobre o encerramento da urgência obstétrica do Barreiro está tomada.

Agência de Notícias 
Fotografia: Design ADN  

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