Seguro vence em Setúbal e leva Ventura para uma segunda volta histórica

O sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa só ficará decidido no dia 8 de Fevereiro. Seguro ou Ventura, um deles será 

António José Seguro venceu a primeira volta das eleições presidenciais no país e confirmou a liderança no distrito de Setúbal, assegurando a passagem à segunda volta, onde disputará a Presidência da República com André Ventura a 8 de Fevereiro. O resultado abre um capítulo histórico na democracia portuguesa: desde 1986 que os portugueses não eram chamados novamente às urnas para escolher o Presidente, num confronto que então opôs Mário Soares a Freitas do Amaral, com vitória do candidato socialista. Quase quatro décadas depois, o país regressa a um cenário de decisão a duas vozes, num contexto político profundamente diferente e marcado por uma recomposição evidente do mapa eleitoral, particularmente em Setúbal, um dos territórios mais emblemáticos da esquerda portuguesa, hoje atravessado por sinais claros de polarização, desgaste das forças tradicionais e emergência de novas dinâmicas políticas.
Seguro ou Ventura? Portugueses escolhem Presidente a 8 de Fevereiro 

Os resultados apurados este domingo no distrito de Setúbal, com as 60 freguesias contabilizadas, revelam uma participação de 61,88%, correspondente a 467.719 votantes. O cenário regional acompanha de perto o quadro nacional no que diz respeito aos dois candidatos mais votados, embora ambos tenham registado percentagens ligeiramente superiores no distrito.
António José Seguro foi o candidato mais votado, alcançando 32,24% dos votos, o equivalente a 147.961 eleitores. André Ventura surgiu logo a seguir, com 24,84%, somando 113.990 votos. A diferença entre ambos ficou nos 33.971 votos, um fosso relevante, mas longe de ser tranquilizador para o candidato apoiado pelo PS e pelo centro-esquerda.
Seguro venceu na maioria dos concelhos do distrito, mas muitas dessas vitórias foram obtidas por margens muito reduzidas. Sesimbra e Palmela ilustram bem essa realidade, com resultados decididos voto a voto, sinal de uma base eleitoral fiel, mas menos mobilizada do que em ciclos eleitorais anteriores.

Ventura quebra tabu e cresce a sul do Tejo
Se há um vencedor simbólico da noite em Setúbal, esse é André Ventura. O líder da extrema-direita conseguiu afirmar-se num território tradicionalmente hostil ao seu discurso e quebrou um tabu histórico ao vencer no concelho do Montijo, o único dos 13 concelhos do distrito onde ficou em primeiro lugar.
Este resultado confirma a consolidação do eleitorado de Ventura em zonas urbanas e suburbanas marcadas por dificuldades no acesso à habitação, pressão social e um sentimento persistente de afastamento em relação ao poder central. Mesmo nos concelhos onde não venceu, as derrotas foram curtas, demonstrando uma implantação territorial que já não pode ser desvalorizada.

Cotrim de Figueiredo surpreende e sobe no distrito
Outro dado relevante da noite eleitoral foi a prestação de João Cotrim de Figueiredo. O candidato liberal alcançou 14,00% dos votos, correspondentes a 64.258 eleitores, superando expectativas num distrito pouco recetivo ao liberalismo económico.
Cotrim de Figueiredo ficou a apenas 1.554 votos de Henrique Gouveia e Melo, evidenciando o crescimento de um eleitorado urbano, jovem e economicamente ativo. Trata-se de uma ascensão discreta, mas consistente, que poderá ter efeitos a médio prazo no panorama político regional.

Marques Mendes afunda-se no distrito e no país 
Em sentido oposto esteve Luís Marques Mendes. Apoiado pelo PSD e pelo CDS-PP, o candidato não foi além de 6,31%, reunindo 28.937 votos. Ficou a mais de 34 mil votos de Cotrim de Figueiredo e a quase 85 mil de Seguro, um resultado que evidencia a crise de identidade da direita tradicional em Setúbal e representa um sério aviso para os partidos que suportam o atual Governo.
A hierarquia dos cinco primeiros classificados no distrito reproduziu, assim, a ordem nacional, com Seguro, Ventura, Cotrim de Figueiredo, Gouveia e Melo e Marques Mendes.

A esquerda histórica em queda acentuada
Os resultados confirmam um declínio estrutural da esquerda à esquerda do PS. António Filipe obteve apenas 3,90%, correspondentes a 17.895 votos, um resultado particularmente duro num distrito que foi durante décadas um dos principais bastiões do PCP.
Catarina Martins ficou ainda mais atrás, com 2,52% e 11.557 votos, enquanto Jorge Pinto não foi além de 0,69%, somando 3.156 votos. Em conjunto, estes números revelam uma esquerda fragmentada e incapaz de disputar o eleitorado popular, hoje dividido entre a abstenção e o voto de protesto.

O voto irreverente de Manuel João Vieira
Num cenário político marcado pela tensão e pela polarização, Manuel João Vieira destacou-se como uma nota de irreverência. Com 1,60% e 7.344 votos, [o melhor resultado no país], o candidato conseguiu superar várias figuras do campo político tradicional, refletindo um voto de protesto cultural e de cansaço face à linguagem institucional da política.

Um distrito em plena transição
A segunda volta das eleições presidenciais, marcada para 8 de Fevereiro, entre António José Seguro e André Ventura, será mais do que uma escolha entre dois candidatos. Em Setúbal, representa um teste decisivo ao rumo político de uma das regiões mais simbólicas do país, num confronto direto entre a promessa de estabilidade e a força do voto de protesto.

Participação moderada e sinais de alerta
A taxa de participação fixou-se nos 61,88%, com 467.719 votantes num universo de 755.843 inscritos. É um valor razoável, mas deixa ainda um espaço significativo de abstenção que pode ser determinante na segunda volta. Num confronto direto entre António José Seguro e André Ventura, a mobilização - ou desmobilização - destes eleitores será crucial.

Agência de Notícias 
Fotografia: Design ADN

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