Montenegro defende reforma nas urgências obstétricas e promete resposta no Barreiro

Reforma nas urgências gera polémica numa região com quase um milhão de habitantes

O primeiro-ministro defendeu no parlamento a criação de urgências regionais de obstetrícia como a única solução técnica para responder a partos iminentes, garantindo que o Hospital do Barreiro continuará a assegurar consultas e partos programados. A posição surge num contexto de forte contestação política e autárquica numa região onde vivem cerca de 900 mil pessoas.
Primeiro-ministro apoia decisão da ministra da Saúde no distrito 

O Hospital do Barreiro vai manter o acompanhamento de grávidas e a realização de partos programados, apesar da reorganização das urgências de ginecologia e obstetrícia. A garantia foi dada pelo primeiro-ministro durante o debate quinzenal no parlamento, onde respondeu às críticas da oposição sobre o encerramento das urgências obstétricas naquela unidade hospitalar.
Luís Montenegro assegurou que a reforma em curso não elimina o serviço de ginecologia e obstetrícia do hospital.
"O Hospital do Barreiro vai continuar a ter acompanhamento de consulta e de trabalhos de parto programados", afirmou.
O chefe do Governo explicou que o modelo de urgências regionais pretende resolver um problema recorrente no Serviço Nacional de Saúde: a incerteza dos utentes sobre qual hospital procurar em situações urgentes.
Segundo Montenegro, a reorganização permite compatibilizar os recursos humanos e técnicos disponíveis com as necessidades reais do sistema.
"Uma coisa é o acompanhamento, a consulta ou o parto programado. Outra coisa é a situação de urgência", frisou.
No plano político, o primeiro-ministro criticou a postura de alguns partidos da oposição, acusando-os de explorar o tema para obter ganhos políticos.
"Quem não tiver abertura para encarar uma medida destas verdadeiramente não quer resolver o problema", afirmou, acrescentando que o Governo procura colocar os interesses dos cidadãos em primeiro lugar nas áreas da saúde, justiça, educação, habitação, segurança e defesa.

Uma região em crescimento e com desafios na saúde
A polémica surge numa altura em que a Península de Setúbal enfrenta profundas transformações estruturais. Estão em preparação vários projetos de grande dimensão, entre os quais a Terceira Travessia do Tejo, a linha de alta velocidade ferroviária, o novo aeroporto e o projeto Parques Cidades do Tejo.
Estes investimentos são vistos como motores de desenvolvimento económico e competitividade para a região e para o país. Contudo, também levantam preocupações quanto à capacidade dos serviços públicos, particularmente na área da saúde.
A Comunidade Intermunicipal da Península de Setúbal alerta que a região apresenta fragilidades socioeconómicas significativas e regista o PIB per capita mais baixo do país, ao mesmo tempo que enfrenta um crescimento populacional contínuo.
"A saúde é um direito fundamental de todos e não pode ficar para trás num território que está a ser chamado a crescer e a transformar-se", refere a entidade.

Indicadores que preocupam autarcas e população
Os dados disponíveis reforçam as preocupações dos autarcas. A mortalidade infantil na Península de Setúbal é superior à média nacional e cerca de 40 por cento dos utentes continuam sem médico de família atribuído.
Nos últimos anos têm-se multiplicado relatos de partos realizados em ambulâncias, depois de grávidas terem sido encaminhadas para o Hospital Garcia de Orta ou para unidades da Grande Lisboa.
De acordo com a Comunidade Intermunicipal, estas situações provocam ansiedade nas gestantes e aumentam os riscos para mães e bebés, agravados pelo tempo de deslocação e pela possível sobrecarga dos meios de emergência.
Frederico Rosa, presidente da Câmara Municipal do Barreiro e da Comunidade Intermunicipal, deixou um aviso claro.
"Acho que vai-se instalar o caos e a probabilidade de haver mais profissionais a querer sair vai aumentar", afirmou.

População está contra o fecho das urgências obstétricas no Barreiro
Um serviço com mais de 16 mil partos em 10 anos
Entre 2014 e 2024 foram realizados mais de 16 mil partos no Hospital do Barreiro. Durante períodos de encerramentos rotativos de urgências, esta unidade terá sido, segundo dados disponíveis, a que registou menos falhas.
O serviço de ginecologia e obstetrícia do Hospital Nossa Senhora do Rosário tem sido considerado um pilar fundamental no acompanhamento das mulheres da região.
A eventual concentração de emergências obstétricas no Hospital Garcia de Orta, unidade de referência no sul do país para casos mais complexos, poderá aumentar a pressão sobre um serviço já altamente exigido.
Para a Comunidade Intermunicipal, é essencial preservar a capacidade de resposta daquele hospital para situações de maior risco e garantir uma reorganização baseada na proximidade, segurança e planeamento estratégico.
Existe ainda o receio de que o Hospital Nossa Senhora do Rosário possa perder a acreditação de idoneidade formativa, o que reduziria a capacidade de atrair e fixar profissionais de saúde.

Autarcas exigem respostas e reunião com o Governo
Perante este cenário, os autarcas da região pedem a suspensão da medida e exigem diálogo direto com o Governo.
Uma reunião com o Ministério da Saúde está marcada para dia 10, depois de vários adiamentos.
"O que nós queremos é que a Ministra baixe do seu gabinete e venha falar com as pessoas, com os autarcas. Representamos quase 900 mil pessoas nesta Península", afirmou Frederico Rosa.
Entre as questões levantadas estão a estratégia do Governo para acompanhar o crescimento populacional da região, o calendário para a construção do hospital do Seixal, o reforço dos cuidados de saúde primários e as medidas previstas para responder às futuras exigências em emergências médicas e saúde pública.

Agência de Notícias 
Fotografia: Design ADN 

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