Quinta do Anjo vive rutura política um mês após mudança histórica

Presidente da junta corta pelouros a eleitos e gera crise interna dentro do Chega local 

A vitória histórica do Chega na Junta de Freguesia da Quinta do Anjo, em Outubro, pôs fim a décadas de governação da CDU. No entanto, pouco mais de um mês depois da tomada de posse, o executivo liderado por Nuno Carvalho enfrenta uma crise interna que expõe divergências profundas dentro do próprio partido. O presidente da junta decidiu retirar pelouros e competências a dois vogais eleitos pelo Chega, alegando um "desempenho aquém do esperado", uma decisão que está a gerar forte contestação política.

Conflito interno marca início do mandato do Chega na Quinta do Anjo


Pela primeira vez desde as primeiras autárquicas realizadas depois do 25 de Abril, o Chega conquistou a liderança da freguesia. No entanto, o novo executivo entrou rapidamente em turbulência e em troca de acusações entre eleitos do mesmo partido. 
A decisão ficou registada em dois editais publicados a 4 de Dezembro, disponíveis na página oficial da Junta de Freguesia da Quinta do Anjo. Nos documentos, o presidente Nuno Carvalho determina a retirada dos pelouros de Saúde, Educação, Desporto, Ambiente e Espaços Verdes à vogal Carla Serafim, bem como dos pelouros de Equipamento Público, Iluminação Pública e Mobilidade ao vogal Lourenço Ferreira. Ambos foram eleitos pelo Chega e a decisão produz efeitos a partir de 3 de Dezembro de 2025.
Nos despachos, o presidente justifica a medida com o que classifica como “desempenho abaixo do esperado”, apontando a ausência de análises, propostas ou contributos relevantes nas áreas atribuídas.
Presidente fala em expectativas defraudadas
Nuno Carvalho sustenta que os fundamentos da decisão estão claros nos despachos emitidos em Dezembro. Para o autarca, os dois vogais não corresponderam ao que era esperado no início do mandato. “Ficaram aquém da expectativa”, sublinha, garantindo que nunca pediu a renúncia dos mandatos.
O presidente da junta admite que a decisão exigiu uma reação firme. “Quando as pessoas não entendem que estão aquém das expectativas, ou por idade, ou por falta de experiência de vida, ou por ego, alguém tem de reagir”, afirma, citado pela Lusa.

Assembleia expõe fratura no executivo
A fratura interna tornou-se pública na primeira sessão ordinária da Assembleia de Freguesia da Quinta do Anjo, realizada a 29 de Dezembro. Em resposta a questões levantadas por Pedro Rocha, eleito pela CDU, Nuno Carvalho recorreu ao conceito de expectativa para enquadrar a sua posição. “Expectativa é quando precisamos de mais ou esperamos ter mais”.
Apesar disso, fez questão de ressalvar que ficar aquém da expectativa não significa, necessariamente, incompetência. Uma leitura que foi imediatamente contrariada pelo vogal Lourenço Ferreira. “Acaba por ser, sim, um atestado de incompetência”, afirmou, rejeitando a acusação de inação e garantindo que apresentou propostas.

Impacto político e solução prometida
O presidente da junta reconhece que a retirada de pelouros teve impacto político e gerou incómodo dentro do próprio Chega. Ainda assim, assegura que assumirá temporariamente as áreas retiradas aos dois vogais e que a situação será resolvida a curto prazo.
Está agendada para o próximo dia 22, às 21 horas, uma reunião extraordinária da Assembleia de Freguesia, na qual Nuno Carvalho espera ver aprovada uma renovação do executivo da Junta de Freguesia da Quinta do Anjo.
 
Vogal acusa presidente de faltar à verdade
Em comunicado enviado às redações, Lourenço Ferreira traça um retrato muito crítico da atuação do presidente. O vogal acusa a junta de ter ocultado deliberadamente os contactos dos jornalistas, impedindo o exercício do direito ao contraditório. “Este bloqueio revela uma postura antidemocrática de quem teme a verdade”.
O autarca garante que é falso que não tenha apresentado propostas e afirma que o próprio presidente admitiu que a ausência de contributos só ocorreu após 3 de Dezembro, data em que os pelouros foram retirados. “Ser autarca exige mais do que burocracia de gabinete; exige presença no terreno, contacto com as pessoas e coragem para escrutinar o executivo”.

Orçamento agrava o confronto político
O conflito adensou-se com a discussão do orçamento da junta. Lourenço Ferreira critica o pedido de uma autorização genérica de cerca de 500 mil euros, valor que corresponde a metade do orçamento da freguesia, classificando-o como um cheque em branco. Acrescenta que a retirada do orçamento por erros técnicos demonstra que a incompetência apontada aos vogais está, afinal, na presidência.
O vogal questiona ainda que penalização está prevista para um presidente experiente que apresenta um orçamento com erros, colocando em causa a autoridade política de Nuno Carvalho.

Juventude, experiência e acusações de autoritarismo
As referências feitas pelo presidente à idade e à falta de experiência de vida dos vogais foram também alvo de críticas. Para Lourenço Ferreira, essas declarações representam um ataque à juventude. “A competência na causa pública mede-se pelo trabalho, ética e respeito pelo eleitor, não pela data de nascimento”.
Na parte final do comunicado, o vogal classifica a retirada de pelouros apenas um mês após a posse como um ato de autoritarismo. Para Lourenço Ferreira, ficar aquém das expectativas do presidente significa apenas não concordar com todas as suas decisões. “Não fui eleito para servir o ego do presidente, fui eleito para servir a Quinta do Anjo. Continuarei a fazê-lo, com ou sem pelouros, fiscalizando cada cêntimo e cada decisão deste executivo”. 

Agência de Notícias 
Fotografia: Design ADN

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