Geração ADN: três jovens de Pinhal Novo que querem fazer da música o seu caminho

Carolina, Joaquim e Maria Leonor cresceram na música e querem agora mais palcos na nossa terra 

Há sonhos que começam pequenos, num palco improvisado, numa sala de ensaios ou numa guitarra tocada pela primeira vez. Em Pinhal Novo, há uma geração a crescer com vontade de transformar esses sonhos em caminho. A Geração ADN estreia-se com Carolina Geraldo, Joaquim Adriano e Maria Leonor, três jovens que encontraram na música uma forma de se expressar, de crescer e de imaginar o futuro. Já passaram pela televisão e conheceram palcos maiores, mas há um lugar onde continuam a querer ser ouvidos: Pinhal Novo, a terra onde tudo começou e que ainda chamam de casa. É aqui que procuram oportunidades para continuar a fazer aquilo que amam e descobrir até onde os pode levar a música.
Carolina, Joaquim e Maria Leonor: três caminhos unidos pela música

Conheceram-se na Orquestra Nova de Guitarras, cresceram musicalmente no mesmo espaço e foram construindo percursos diferentes, cada um com a sua voz, a sua personalidade e a sua forma de sentir a música. Carolina e Maria Leonor chegaram ao The Voice. Carolina e Joaquim transformaram uma amizade numa parceria musical que os levou recentemente ao palco do Estrelas ao Sábado, na RTP. E, de vez em quando, os três encontram-se para fazer música. É raro. E talvez seja precisamente por isso que tem tanto significado.
Não são uma banda nem apresentam um projeto conjunto permanente. São três jovens músicos que partilham uma origem, uma escola, amizades e uma paixão que os aproximou desde cedo. Quando os caminhos se cruzam, porém, existe uma cumplicidade que se percebe sem precisar de ser explicada.
Aconteceu numa tarde de verão, na Lagoa da Palha. Os três juntos, fora dos grandes palcos, longe da televisão e sem a pressão de provar alguma coisa. Apenas a música, as vozes, a guitarra e a liberdade de experimentar.
É também por isso que esta história abre a Geração ADN, a nova rubrica da ADN-Agência de Notícias, criada no âmbito das comemorações dos 16 anos da ADN, que se assinalam a 28 de Outubro. Uma rubrica pensada para olhar para os jovens que estão a criar, a aprender, a arriscar e a construir os seus próprios caminhos. Jovens que não querem apenas aparecer. Querem ter espaço para fazer. E Carolina, Joaquim e Maria Leonor têm muito para fazer.

Carolina: quando o medo deixou de mandar
Carolina encontrou no palco uma forma de vencer o medo
Antes de aprender a gostar do palco, Carolina teve de aprender a enfrentá-lo. A música já estava presente desde criança e, aos 11 anos, entrou na Orquestra Nova de Guitarras. Vieram a guitarra, a guitarra elétrica, o canto, o coro e a formação musical. Queria aprender a tocar para poder acompanhar a própria voz, mas acabou por encontrar muito mais do que uma forma de se acompanhar.
Encontrou uma identidade. "Eu acho que, no fundo, a música sempre foi muito mais do que um passatempo", conta Carolina. Os pais dizem-lhe que começou a cantar antes de falar e ela descreve aquilo que sente como "um bichinho que cresce em nós e queremos sempre mais e mais".
Mesmo sabendo que o caminho não é simples. "É aquele desafio que precisamos de enfrentar, porque sem música não sou nada". Mas havia uma coisa que a música ainda não tinha conseguido vencer: o medo.
Carolina admite que tinha "muitos problemas de falta de confiança" e medo de se colocar em cima de um palco. Foi precisamente por isso que decidiu atirar-se ao The Voice. "Eu tive de me obrigar a estar ali em cima". Não chegou tão longe quanto queria. Mas talvez tenha conquistado naquele palco qualquer coisa mais importante do que uma passagem para a fase seguinte.
"O The Voice abriu-me essas portas". E abriu-lhe, sobretudo, uma porta para dentro dela própria.
"Para a passagem que eu tive antes do The Voice para hoje em dia, acho que cresci imenso como pessoa e como artista", explica. "Hoje em dia o que mais gosto de fazer é estar em cima de um palco, que antes é uma coisa que eu tinha pavor".
É difícil imaginar uma transformação mais clara. A rapariga que tinha medo do palco passou a querer mais palcos. E talvez seja por isso que Carolina não sonha apenas com grandes televisões ou grandes plateias. Sonha também com a possibilidade de fazer aquilo que gosta no lugar onde cresceu.
"Eu gostava tanto de cantar na nossa casa, porque é aqui que fazemos a nossa vida, foi aqui que eu cresci". E esse desejo não fica apenas pelo palco. Carolina quer continuar a crescer sem perder a ligação à terra que a viu começar. "Somos uma comunidade que todos conhecem, todos nos ajudam, somos um espaço pequeno em que nos apoiamos todos".
Mas há ainda portas que gostava de ver abrir. "Gostava que tivéssemos mais portas, que houvesse mais espaço". É aqui que o sonho de Carolina encontra Pinhal Novo: não apenas como o lugar onde começou, mas como o lugar onde gostava de continuar a ser ouvida. E como qualquer artista, o maior sonho é "podermos dizer que vivemos da música".  

Joaquim: entre a guitarra e o medo de não chegar
Joaquim procura na guitarra a história de cada canção
A história de Joaquim começou aos oito anos, quando descobriu na guitarra um instrumento que lhe parecia "muito bonito de se ouvir e de tocar". 
Em 2022 entrou para a Orquestra Nova de Guitarras. Era um objetivo que perseguia e que, quando finalmente aconteceu, ainda lhe pareceu maior do que esperava. "Eu fiquei muito feliz de ter conseguido entrar, uma conquista que eu não esperava sequer conseguir alcançar".
Foi também através da Orquestra que conheceu Carolina e Maria Leonor. A partir daí começaram a surgir os momentos musicais que hoje fazem parte da história dos três.
Mas Joaquim não vê a guitarra apenas como acompanhamento. Quando toca com Carolina, procura estar sincronizado com ela, perceber a música e fazer com que aquilo que está dentro de uma canção chegue ao público. "Eu procuro os dois. Eu procuro contar a história e tocar bem".
Porque, para ele, uma canção nunca é apenas uma sequência de acordes. "Eu acho que cada música tem uma história".
A parceria com Carolina nasceu quase de forma simples. Um dia, ela enviou-lhe uma mensagem a perguntar se queria acompanhá-la num concerto. Ele aceitou. "E foi aí que começou a nossa dupla".
Desde então, foram descobrindo uma linguagem própria. Ela canta. Ele toca. E os dois aprenderam a ouvir-se.
Mas há outro lado da vida de um jovem músico que Joaquim conhece bem: a dúvida. Não é necessariamente o medo do palco. É o medo de não ser suficientemente bom para aquele palco. "Eu acho que acreditar no próprio talento, às vezes, pode ser um bocado difícil".
Joaquim fala da exigência que cada jovem pode colocar sobre si próprio, da vontade de fazer tudo perfeito e de não cometer erros. "O facto de querermos sempre ter as coisas muito perfeitas e não dar erros muitas vezes faz com que tenhamos medo do verdadeiro talento que temos".
E esse medo pode custar caro. "Acaba por fazer com que nós nos afastemos de certas oportunidades e de certos sonhos pelo medo".
Talvez por ter percebido isso, quando pensa nos jovens músicos de Pinhal Novo, Joaquim não pede logo grandes festivais ou grandes palcos. Pede uma primeira oportunidade. cfGostava que existisse "algum evento ou algum acolhimento para músicos iniciantes", um espaço onde quem ainda não tem coragem pudesse experimentar, errar, aprender e perceber se aquele é realmente o caminho.
Um palco pequeno antes do palco maior. "É normal ter medo, mas para não deixar o medo influenciar nas oportunidades e mostrar o talento que eles verdadeiramente têm". No fundo, Joaquim está a falar de outros jovens, mas também está a falar de si próprio.

Maria Leonor: aquilo que se sente quando se canta
Maria Leonor quer que a música chegue a quem a ouve
Maria Leonor chega à música por outro caminho. Não fala de uma decisão concreta, nem de um momento em que tenha escolhido ser artista. Fala de algo que já estava lá.
"Eu acho que a música, de certa forma, já nasceu comigo. Eu sempre tive um gosto muito grande pela música", disse a sorrir. 
Desde pequena gostava de ouvir música e cantar. Por volta dos 10 ou 11 anos chegou à Orquestra Nova de Guitarras, primeiro através da guitarra e depois do canto. A Orquestra não criou esse gosto. Ajudou-a a aprofundá-lo. "Não só a orquestra em si, mas também a escola contribuiu muito para eu aprofundar esse gosto e evoluir naquilo que conheço tanto sobre canto como sobre guitarra e música no geral".
Depois veio o The Voice. E, com ele, outra dimensão de vulnerabilidade. "Estar em cima de um palco já é muito vulnerável", explica. "Estar em cima de um palco onde não só as pessoas estão a ver, mas também num evento que está a ser televisionado para sabe-se lá quantas pessoas em casa, e não só em Portugal, como também fora de Portugal, é ainda mais vulnerável e ainda mais intimidante".
A memória que guarda é a das cadeiras a virar na prova cega e, sobretudo, da reação de quem estava a vê-la. "Foi muito bonito ver a emoção deles e foi uma coisa bonita de experienciar".
O percurso terminou nas batalhas. Ficou o desejo de ter ido mais longe, mas Maria Leonor não olha para aquele "não" como uma porta fechada. "Apesar de termos levado um não, não foi a primeira vez, nem será a última". 
Para ela, continuar também é saber ficar com aquilo que se aprendeu. "Saímos de lá a conhecer mais coisas, a conhecermos mais sobre nós, a conhecermos mais sobre a outra". Aqui fala de Carolina, porque atuaram juntas, porque viveram juntas a mesma experiência.  
Talvez seja essa consciência que explica a forma como olha para o palco. Para Maria Leonor, cantar não é apenas cantar bem. É conseguir transmitir. "Quero que sintam o que aquilo que eu esteja a cantar, aquilo que eu esteja a tocar, nos transmita".
E, se conseguir acrescentar aquilo que ela própria sentiu, então a música ganha outra dimensão. "Se eu consigo transmitir ou partilhar a perspetiva que aquilo que eu estou a tocar ou a cantar me traz, acho que é muito bom". É também por isso que estar acompanhada importa.
Quando canta com Carolina ou com Joaquim, sabe que há alguém conhecido ao lado. "Em conjunto, para mim, e sei que para a Carolina também, é tranquilizante". Porque fazer música juntos aproxima as pessoas de uma maneira que nem sempre se consegue explicar. "Fazer música juntos traz uma proximidade diferente às pessoas", sublinha. 

Três pessoas, três percursos, uma história comum
Carolina, Joaquim e Maria Leonor não são um trio permanente. Não vivem da mesma música, não dividem todos os palcos e cada um está a construir a sua própria identidade. Mas existe uma história comum. Começou na Orquestra Nova de Guitarras e cresceu através de ensaios, concertos, conversas e momentos partilhados.
Carolina diz que adora fazer música com os dois, mas reconhece uma ligação particularmente forte quando toca com Joaquim. "Quando fazemos música e quando partilhamos um palco, e quando partilhamos tudo o que sentimos na música, eu acho que temos outro tipo de ligação, que não é explicável".
Maria Leonor sente algo semelhante quando está acompanhada. A vulnerabilidade continua lá, mas já não é enfrentada sozinha. E Joaquim, do outro lado da guitarra, procura precisamente aquilo que une todos os músicos quando uma canção começa: escutar, acompanhar e contar a história.
Foi assim que os três chegaram a uma tarde de verão na Lagoa da Palha, onde se juntaram para fazer música. Um daqueles momentos que não acontecem todos os dias, mas que ficam. Porque há encontros que não precisam de se repetir muitas vezes para terem significado.

Pinhal Novo: a terra onde querem ser ouvidos
Há talento que só precisa de uma oportunidade para ser ouvido
Existe uma pergunta que atravessa os três percursos: depois de televisão, de palcos e de experiências fora, onde querem continuar?
A resposta está perto. Carolina gostava de cantar mais vezes onde cresceu. "Eu gostava tanto de cantar na nossa casa, porque é aqui que fazemos a nossa vida, foi aqui que eu cresci". 
Não fala apenas de concertos. Fala de pertença. Pinhal Novo é o lugar onde aprenderam, onde foram apoiados, onde se conheceram e onde começaram a perceber que talvez a música pudesse ser mais do que um sonho. 
Carolina reconhece essa proximidade. "Somos uma comunidade que todos conhecem, todos nos ajudam, somos um espaço pequeno em que nos apoiamos todos". Mas também sente que ainda falta espaço. "Gostava que tivéssemos mais portas, que houvesse mais espaço".
Joaquim pensa nessas portas de outra forma: quer que existam para quem ainda nem sequer teve coragem de bater.
Maria Leonor deixa uma mensagem que podia ser a primeira regra desta nova geração de artistas.
Se houver medo, tenta-se na mesma. "Não há mal nenhum em errar".
Porque, diz ela, "alguma coisa advém sempre de tentarmos. Seja boa, seja má, mas é sempre uma oportunidade para aprender, para refletir".
E talvez seja essa a melhor forma de começar a Geração ADN. Dar espaço a quem está a começar. Criar oportunidades para quem ainda está a descobrir o seu caminho. E estar perto de jovens que têm talento, vontade e sonhos, mas que muitas vezes só precisam de uma oportunidade para mostrar até onde podem chegar. Porque um palco pode não mudar uma vida. Mas pode ser o lugar onde alguém começa a acreditar que é passível. 
Carolina quer viver da música. Joaquim quer continuar a tocar e abrir portas para quem começa. Maria Leonor quer que aquilo que sente consiga chegar a quem a escuta. E os três querem continuar a fazer aquilo que os juntou pela primeira vez. Música.
No lugar onde tudo começou, Joaquim resume esse sentimento numa frase simples: "Ser jovem e fazer música para o Pinhal Novo é mágico". 
Mas aquilo que mais desejam não está necessariamente do outro lado do país. Está aqui. Carolina diz que gostaria de cantar “na nossa casa”. E acrescenta: "Mesmo eu, quando vou cantar, é tudo fora daqui e eu gostava tanto de cantar na nossa casa, porque é aqui que fazemos a nossa vida, foi aqui que eu cresci". 
Fica, por isso, uma pergunta para quem organiza eventos em Pinhal Novo: se Carolina, Joaquim e Maria Leonor já demonstraram o que conseguem fazer, porque não há mais oportunidades para que jovens como eles possam subir aos palcos da terra onde cresceram?
Carolina e Maria Leonor já passaram pela televisão. Carolina e Joaquim voltaram recentemente a um palco televisivo, no Estrelas ao Sábado, na RTP. Mas aquilo que mais desejam não está necessariamente do outro lado do país. Está aqui.
Porque Carolina, Joaquim e Maria Leonor já sabem subir ao palco. Agora querem saber até onde podem chegar a partir de casa.

Paulo Jorge Oliveira 
Fotografia: Paulo Jorge Oliveira e Carolina Geraldo 


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