Mais de 25 mil pessoas viveram três dias medievais no Castelo de Palmela

Três dias bastaram para transformar o Castelo num território de reis, povo, comércio, festa e medo

Durante três dias, o Castelo de Palmela deixou de ser apenas pedra, muralha e memória. Entre a família real e povo, cavaleiros e mercadores, empestados e médicos medievais, músicos e saltimbancos, a fortaleza voltou a encher-se de vida e mais de 25 mil pessoas atravessaram as suas portas para entrar numa história que começou em 1348. 
D. Afonso IV foi a figura central do enredo de 1348

Era uma Palmela de outros tempos. Uma Palmela onde El-Rei D. Afonso IV chegava acompanhado pela rainha D. Beatriz e pelo príncipe D. Pedro, onde os homens de armas treinavam junto às muralhas, os mercadores ocupavam as ruas e os artesãos trabalhavam diante de quem passava.
E havia também o medo. No bosque do Revelim Norte, "O Caminho da Peste" levou os visitantes para uma das faces mais duras da Idade Média. A doença, o isolamento, o medo e a exclusão ganharam forma numa encenação que rompeu com a imagem mais festiva dos reis e dos torneios e lembrou que a história também se fez de momentos em que sobreviver era, por si só, um desafio.
Foi assim, entre a celebração e a dureza de outros séculos, que decorreu a 13.ª edição da Feira Medieval de Palmela, entre 25 e 27 de Setembro.

Quando o Castelo voltou a ser de reis e povo
O enredo deste ano escolheu 1348 para levar Palmela para uma época em que a fortaleza tinha uma importância muito diferente da atual.
A visita de D. Afonso IV serviu de fio condutor a uma narrativa construída em torno da confirmação dos limites do concelho, da importância estratégica do Castelo e da ligação à Ordem Militar de Santiago da Espada, que manteve ali a sua sede durante cerca de quatro séculos.
Mas foram os Cortejos Históricos que deram corpo à história. A entrada régia trouxe o rei, a rainha e o príncipe herdeiro, nobres, cavaleiros e povo para dentro da mesma cena, enquanto o público deixava de ser apenas espectador para se tornar parte daquele movimento pelas ruas de Palmela.
Na abertura da Feira, Ana Teresa Vicente, presidente da Câmara Municipal de Palmela, lembrou precisamente a dimensão histórica do lugar, classificando o Castelo como, provavelmente, "um dos melhores do país" para receber uma iniciativa deste género.
A autarca sublinhou ainda que aquela fortaleza foi palco de acontecimentos de "grande importância", tendo desempenhado um papel estratégico na defesa da região e de Portugal.
Mas havia outra razão para regressar àquele passado. Para Ana Teresa Vicente, a Feira é um "momento de festa e celebração", mas também uma oportunidade para "viver a memória de Palmela" através de uma "aprendizagem viva sobre a história local".
E talvez seja essa mistura que explica a força do cenário: não era preciso imaginar um castelo medieval. Bastava olhar à volta.

Entre espadas, falcões e ofícios que ainda se podiam tocar
No Terreiro da Liça, os cavaleiros e homens de armas trouxeram o som dos treinos, dos torneios e das demonstrações militares. Na Igreja de Santa Maria, as aves de rapina recuperaram a imagem da falcoaria ligada à Ordem de Santiago.
Mais abaixo, a Feira era outra. Havia crianças junto aos jogos tradicionais e aos carrosséis medievais, animais da quinta, a forja viajante e o acampamento dos petizes. Havia artesãos a trabalhar diante do público e mercadores a ocupar a Feira Franca, entre produtos, sabores e conversas.
E havia música. Jograis, saltimbancos e músicos itinerantes atravessaram o recinto, enquanto a Igreja de Santiago recebia cantos corais, música erudita, danças medievais e marionetas.
Depois, no Revelim Sul, a viagem mudava novamente de território. O Espaço Árabe trouxe o souk para dentro da fortaleza e mostrou que a Idade Média também foi feita de encontros entre culturas, comércio e circulação de pessoas.
A Feira não contou, por isso, apenas uma história. Contou várias.
A do rei que chega, a do cavaleiro que combate, a do mercador que vende, a do artesão que trabalha, a da criança que brinca e a do povo que vive num tempo em que a peste podia transformar uma comunidade inteira.

Mais de 25 mil visitantes e uma Feira que começou a medir-se
O Caminho da Peste recriou histórias de medo e exclusão
A edição de 2026 trouxe ainda uma novidade menos visível, mas importante para o futuro do certame: pela primeira vez foi feita uma contagem de visitantes e foram aplicados inquéritos de satisfação durante o evento.
Mais de 25 mil pessoas passaram pela Feira Medieval de Palmela, permitindo à organização começar a ter dados concretos sobre a dimensão do público e sobre a forma como os visitantes viveram a experiência.
Neste trabalho participaram também alunos voluntários dos cursos de turismo do concelho de Palmela, envolvidos na recolha de informação e no acompanhamento da atividade turística.
Ao todo, a edição reuniu 36 companhias e grupos de animação, com mais de 200 artistas. A eles juntaram-se 137 voluntários ligados à programação e à figuração e mais 25 que acompanharam os cães presentes nos desfiles.
No fim, ficam os números. Mas ficam também as imagens. Um rei a entrar no Castelo. Cavaleiros junto às muralhas. Falcões sobre a multidão. Mercadores a chamar quem passa. Artesãos a trabalhar. Músicos a atravessar as ruas. E, no meio de tudo isto, a peste. Porque Palmela não voltou apenas à Idade Média para mostrar como se festejava.
Durante três dias, mostrou também como se vivia, como se lutava, como se comerciava, como se acreditava e como se tinha medo.
Foi essa mistura entre festa e memória que voltou a transformar o Castelo de Palmela num lugar onde a história deixou de estar apenas nas pedras e passou a caminhar pelas ruas.

Agência de Notícias 
Fotografia: Paulo Jorge Oliveira 

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