Durante três dias, reis, cavaleiros, mercadores e povoadores voltam a caminhar pelas ruas da vila com a Peste à espreita
Imagine chegar a Palmela e, por alguns instantes, já não reconhecer o tempo em que vive. As gaitas ouvem-se ao longe, os cascos dos cavalos batem na pedra, uma forja lança faíscas junto às muralhas e, entre a multidão, passam reis, cavaleiros, camponeses e mercadores. Mas basta seguir para o bosque do castelo para a festa ganhar outro rosto: há pessoas marcadas pela peste, famílias prestes a partir para o desconhecido e histórias de sobrevivência que lembram que a Idade Média também foi feita de medo. É esta Palmela, entre a celebração e a dureza da vida, que regressa entre 25 e 27 de Setembro, quando o Castelo e o Centro Histórico recuam até 1348, numa edição da Feira Medieval de Palmela que promete transformar a vila num verdadeiro cenário vivo do passado.
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| 1348 volta a caminhar pelas ruas de Palmela |
Há um momento em que Palmela deixa de parecer Palmela. É quando as gaitas começam a ouvir-se pelas ruas, quando o metal bate na forja, os cavalos entram na liça, as bandeiras sobem junto às muralhas e o cheiro das tabernas se mistura com o fumo dos fogos. Durante três dias, entre 25 e 27 de Setembro, a vila recua até 1348 e transforma-se num dos grandes palcos de recriação histórica da região.
A Feira Medieval de Palmela 2026 não quer apenas vestir a vila de época. Quer contar uma história. E essa história tem reis e cavaleiros, corte e batalhas, falcões e artesãos, música e fogo, mas também tem fome, medo, doença, despedidas e famílias que partem para um território desconhecido.
É precisamente essa mistura que torna esta edição particularmente rica: no alto do Castelo está a festa; nas ruas está a vida; e, entre as árvores da encosta, esconde-se uma das experiências mais sombrias da feira.
O lugar onde a festa acaba e começa o medo
No Revelim Norte, junto à zona do bosque, o visitante encontra uma Palmela medieval muito diferente daquela que aparece entre as canecas, as gaitas e os cortejos.
Ali está "O Caminho da Peste", uma criação da TentArt e Comunidade que mergulha no ano de 1348, quando a Peste Negra atingia a Europa.
O público entra num percurso cénico povoado por empestados, marginalizados e pessoas afastadas da sociedade. Corpos marcados pela doença, roupas gastas, desespero e medo constroem uma narrativa que não procura apenas impressionar, mas mostrar a extrema fragilidade da vida na Idade Média.
É uma experiência feita de sombras e silêncio, de proximidade e desconforto, que contrasta deliberadamente com a exuberância da feira.
E talvez seja precisamente aí que reside a sua força. Porque a Idade Média não foi apenas feita de reis, banquetes e vitórias. Foi também uma época em que uma doença podia mudar o destino de uma comunidade e em que a fronteira entre a vida e a morte era brutalmente próxima.
O regresso da TentArt e Comunidade recupera, assim, uma dimensão cénica que marcou edições anteriores da Feira Medieval de Palmela e que em 2025 esteve ausente.
No Revelim Norte, junto à zona do bosque, o visitante encontra uma Palmela medieval muito diferente daquela que aparece entre as canecas, as gaitas e os cortejos.
Ali está "O Caminho da Peste", uma criação da TentArt e Comunidade que mergulha no ano de 1348, quando a Peste Negra atingia a Europa.
O público entra num percurso cénico povoado por empestados, marginalizados e pessoas afastadas da sociedade. Corpos marcados pela doença, roupas gastas, desespero e medo constroem uma narrativa que não procura apenas impressionar, mas mostrar a extrema fragilidade da vida na Idade Média.
É uma experiência feita de sombras e silêncio, de proximidade e desconforto, que contrasta deliberadamente com a exuberância da feira.
E talvez seja precisamente aí que reside a sua força. Porque a Idade Média não foi apenas feita de reis, banquetes e vitórias. Foi também uma época em que uma doença podia mudar o destino de uma comunidade e em que a fronteira entre a vida e a morte era brutalmente próxima.
O regresso da TentArt e Comunidade recupera, assim, uma dimensão cénica que marcou edições anteriores da Feira Medieval de Palmela e que em 2025 esteve ausente.
Antes de partirem, os povoadores esperam em Palmela
Ainda no Revelim Norte, - mas já nas muralhas do Castelo - outra história chama o visitante para dentro da época. É a história dos Povoadores da Marateca.
Estamos em 1348. Famílias de camponeses, pastores e trabalhadores livres encontram-se em Palmela antes de partirem para desbravar e ocupar as terras da Marateca. Não são guerreiros. Não carregam armaduras nem procuram glória nos campos de batalha.
Têm consigo os seus poucos bens, organizam a partida e preparam-se para uma vida difícil num território que ainda está por conquistar através do trabalho. A promessa é simples e enorme ao mesmo tempo: terra, sustento e futuro.
A recriação coloca o público precisamente nesse instante de espera e decisão, dando corpo às famílias que se preparam para deixar para trás aquilo que conhecem.
Ao cenário juntam-se a Forja Viajante de Dirk Hares, o Acampamento dos Petizes, dinamizado pela Quimera, e os Animais da Quinta Silfrohn. É uma das zonas onde a feira ganha uma dimensão particularmente humana: antes dos grandes feitos e das histórias contadas pelos livros, havia pessoas a tentar construir uma vida.
Ainda no Revelim Norte, - mas já nas muralhas do Castelo - outra história chama o visitante para dentro da época. É a história dos Povoadores da Marateca.
Estamos em 1348. Famílias de camponeses, pastores e trabalhadores livres encontram-se em Palmela antes de partirem para desbravar e ocupar as terras da Marateca. Não são guerreiros. Não carregam armaduras nem procuram glória nos campos de batalha.
Têm consigo os seus poucos bens, organizam a partida e preparam-se para uma vida difícil num território que ainda está por conquistar através do trabalho. A promessa é simples e enorme ao mesmo tempo: terra, sustento e futuro.
A recriação coloca o público precisamente nesse instante de espera e decisão, dando corpo às famílias que se preparam para deixar para trás aquilo que conhecem.
Ao cenário juntam-se a Forja Viajante de Dirk Hares, o Acampamento dos Petizes, dinamizado pela Quimera, e os Animais da Quinta Silfrohn. É uma das zonas onde a feira ganha uma dimensão particularmente humana: antes dos grandes feitos e das histórias contadas pelos livros, havia pessoas a tentar construir uma vida.
Na Liça, o som muda: é o aço que fala
Mas basta subir até ao Terreiro da Liça para a atmosfera mudar completamente. Aqui não há tempo para contemplações. Há cavalos, armas, escudos e o impacto seco do aço.
A Espada Lusitana, o Agape e os Cavaleiros de Ribadouro levam à arena combates a pé e a cavalo, recriando a dimensão militar de uma época em que a força das armas fazia parte da vida e do poder.
No sábado, às 21 horas, a Liça recebe a evocação da Batalha do Salado, numa grande encenação marcada pelas justas e pelo confronto entre combatentes.
No domingo, às 19 horas, a narrativa muda de tom. O torneio mergulha na história trágica de Pedro e Inês, levando para a arena uma das histórias de amor mais conhecidas da História de Portugal.
São dois momentos diferentes, duas narrativas e duas formas de olhar para a Idade Média através do espetáculo.
Mas basta subir até ao Terreiro da Liça para a atmosfera mudar completamente. Aqui não há tempo para contemplações. Há cavalos, armas, escudos e o impacto seco do aço.
A Espada Lusitana, o Agape e os Cavaleiros de Ribadouro levam à arena combates a pé e a cavalo, recriando a dimensão militar de uma época em que a força das armas fazia parte da vida e do poder.
No sábado, às 21 horas, a Liça recebe a evocação da Batalha do Salado, numa grande encenação marcada pelas justas e pelo confronto entre combatentes.
No domingo, às 19 horas, a narrativa muda de tom. O torneio mergulha na história trágica de Pedro e Inês, levando para a arena uma das histórias de amor mais conhecidas da História de Portugal.
São dois momentos diferentes, duas narrativas e duas formas de olhar para a Idade Média através do espetáculo.
E depois há um rei a atravessar as ruas de Palmela
No sábado, às 16h30, a própria vila muda de escala. O Cortejo Régio parte do Mercado Municipal em direção ao Castelo e leva consigo D. Afonso IV, a rainha D. Beatriz e o príncipe herdeiro D. Pedro. É o momento em que a corte sai do espaço fechado do poder e ocupa as ruas.
Trajes, personagens, música e movimento transformam o Centro Histórico num corredor de passagem para uma comitiva que pretende devolver à vila a imagem de uma Palmela senhorial, ligada à presença da Ordem de Santiago e à corte régia. O povo, a plebe e os doentes também entram no desfile que repete à mesma hora no domingo.
E quando o cortejo passar, vale a pena olhar para cima.
No sábado, às 16h30, a própria vila muda de escala. O Cortejo Régio parte do Mercado Municipal em direção ao Castelo e leva consigo D. Afonso IV, a rainha D. Beatriz e o príncipe herdeiro D. Pedro. É o momento em que a corte sai do espaço fechado do poder e ocupa as ruas.
Trajes, personagens, música e movimento transformam o Centro Histórico num corredor de passagem para uma comitiva que pretende devolver à vila a imagem de uma Palmela senhorial, ligada à presença da Ordem de Santiago e à corte régia. O povo, a plebe e os doentes também entram no desfile que repete à mesma hora no domingo.
E quando o cortejo passar, vale a pena olhar para cima.
Os falcões também fazem parte da corte
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| O Caminho da Peste leva a outra face da Idade Média |
É daqueles momentos em que basta levantar os olhos para perceber que a recriação histórica não está apenas no chão.
Palmela vai ouvir-se antes de se ver
Mas uma feira medieval não se constrói apenas com grandes encenações. Constrói-se com som. E em Palmela haverá muito.
Os Bardoada – Gaiteiros Bardoada, os Cornalusa e a Lôa Trovadoresca vão levar gaitas, percussão e música pelas ruas, criando uma banda sonora que atravessa o Centro Histórico e dá movimento à multidão.
A animação itinerante é, aliás, uma das forças da feira: o visitante não precisa de procurar sempre um palco. A qualquer momento, uma personagem, um músico, um jogral ou um grupo pode aparecer diante de si.
Durante a noite, s jograis e bufões da Malatitsch entram em cena e os espetáculos de fogo do Ember, pelos Anymamundey, levam para as ruas o lado mais visual, surpreendente e perigoso da festa.
Três dias para atravessar o tempo
Entre o Castelo, a Liça, as ruas do Centro Histórico e o bosque do Revelim Norte, Palmela prepara uma viagem a 1348 onde a festa e a memória caminham lado a lado.
Durante três dias, a vila vai mudar de rosto. E quando as gaitas ecoarem pelas pedras, os cavalos atravessarem a Liça e as sombras do bosque começarem a contar as suas histórias, talvez seja possível esquecer, por algumas horas, o tempo em que vivemos.
Porque há lugares onde a História se lê. Em Palmela, durante este fim de semana, a História vai sair dos livros e caminhar pelas ruas.
O programa completo da Feira Medieval de Palmela 2026 pode ser consultado no site da Câmara Municipal de Palmela, onde estão reunidos todos os horários e momentos da edição deste ano.
Para viver a feira durante um dia, o bilhete custa cinco euros. Quem quiser mergulhar na história durante os três dias pode optar pelo passe geral, com um custo de 10 euros. Os bilhetes estão disponíveis online.
Mas uma feira medieval não se constrói apenas com grandes encenações. Constrói-se com som. E em Palmela haverá muito.
Os Bardoada – Gaiteiros Bardoada, os Cornalusa e a Lôa Trovadoresca vão levar gaitas, percussão e música pelas ruas, criando uma banda sonora que atravessa o Centro Histórico e dá movimento à multidão.
A animação itinerante é, aliás, uma das forças da feira: o visitante não precisa de procurar sempre um palco. A qualquer momento, uma personagem, um músico, um jogral ou um grupo pode aparecer diante de si.
Durante a noite, s jograis e bufões da Malatitsch entram em cena e os espetáculos de fogo do Ember, pelos Anymamundey, levam para as ruas o lado mais visual, surpreendente e perigoso da festa.
Três dias para atravessar o tempo
Entre o Castelo, a Liça, as ruas do Centro Histórico e o bosque do Revelim Norte, Palmela prepara uma viagem a 1348 onde a festa e a memória caminham lado a lado.
Durante três dias, a vila vai mudar de rosto. E quando as gaitas ecoarem pelas pedras, os cavalos atravessarem a Liça e as sombras do bosque começarem a contar as suas histórias, talvez seja possível esquecer, por algumas horas, o tempo em que vivemos.
Porque há lugares onde a História se lê. Em Palmela, durante este fim de semana, a História vai sair dos livros e caminhar pelas ruas.
O programa completo da Feira Medieval de Palmela 2026 pode ser consultado no site da Câmara Municipal de Palmela, onde estão reunidos todos os horários e momentos da edição deste ano.
Para viver a feira durante um dia, o bilhete custa cinco euros. Quem quiser mergulhar na história durante os três dias pode optar pelo passe geral, com um custo de 10 euros. Os bilhetes estão disponíveis online.


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