Palmela tem centros de saúde renovados, mas continua à espera de médicos

Exclusivo ADN | Presidente da Câmara aponta a falta de médicos como o maior problema da Saúde no concelho 

Mais de 33 mil utentes do concelho de Palmela continuam sem médico de família, apesar dos investimentos realizados na melhoria das unidades de saúde. Em entrevista exclusiva à ADN-Agência de Notícias, a presidente da Câmara Municipal, Ana Teresa Vicente, defende que o maior problema da Saúde continua a ser a falta de profissionais, admite criar incentivos para atrair médicos e acusa o Estado de transferir responsabilidades sem garantir os meios necessários para lhes dar resposta.
A falta de médicos é um dos problemas principais do concelho

Apesar das obras realizadas e das novas unidades de saúde prestes a entrar em funcionamento, Ana Teresa Vicente considera que o principal problema da Saúde em Palmela continua longe de estar resolvido. Para a presidente da Câmara Municipal, o investimento nas infraestruturas só produzirá os resultados esperados quando o Serviço Nacional de Saúde conseguir reforçar as equipas médicas e técnicas que servem a população do concelho.
Em entrevista exclusiva à ADN-Agência de Notícias, a autarca reconhece que o Município tem assumido um papel cada vez mais ativo na melhoria das condições físicas das unidades de saúde, mas considera que a transferência de competências para as autarquias continua a revelar profundas fragilidades. Por isso, admite criar incentivos para atrair médicos para Palmela, mas rejeita que os municípios acabem por substituir o Estado em responsabilidades que continuam a pertencer ao Ministério da Saúde.

Centros de saúde renovados continuam à espera de médicos
Nos últimos anos, a Câmara Municipal de Palmela tem reforçado o investimento na melhoria das infraestruturas de saúde em várias freguesias do concelho. A nova Unidade de Saúde de Quinta do Anjo aproxima-se da conclusão, as antigas instalações da Marateca foram reabilitadas através da Operação Integrada Local e a Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados de Pinhal Novo continua a beneficiar de obras de requalificação destinadas a melhorar a eficiência energética, o conforto e as condições de funcionamento.
Apesar deste esforço, Ana Teresa Vicente considera que o principal desafio permanece por resolver.
"O verdadeiro problema continua a ser a falta de médicos. É o maior problema que temos na área da Saúde, mas também faltam enfermeiros, fisioterapeutas e terapeutas de outras áreas", afirma.
A realidade confirma essa preocupação. Segundo dados divulgados pela Unidade Local de Saúde da Arrábida, em Maio, 33.430 utentes do concelho de Palmela continuam sem médico de família atribuído, uma situação que continua a dificultar o acesso aos cuidados de saúde primários.
A presidente da Câmara acredita que a conclusão da nova Unidade de Saúde de Quinta do Anjo poderá representar um passo importante para melhorar a resposta à população, desde que seja acompanhada pelo reforço das equipas clínicas.
"Estamos a aguardar com muita expectativa a conclusão da Unidade de Saúde de Quinta do Anjo. Esperamos ver lá colocados os profissionais que fazem falta, porque só assim será possível responder às necessidades da população".
Na Marateca, a expectativa é semelhante. Depois da reabilitação das antigas instalações de saúde, a autarquia aguarda agora que sejam colocados mais profissionais para garantir uma resposta adequada aos utentes.
"Reabilitámos aquelas instalações e agora queremos vê-las ocupadas com profissionais. Neste momento continuamos a precisar de mais médicos, mas também de mais enfermeiros".
Para Ana Teresa Vicente, o investimento realizado pelo Município demonstra que as autarquias estão disponíveis para melhorar as condições das unidades de saúde. Contudo, sublinha que nenhuma obra conseguirá, por si só, resolver as dificuldades sentidas pela população.
"Podemos requalificar centros de saúde, criar melhores condições de trabalho e investir nos equipamentos, mas sem profissionais será sempre difícil dar às pessoas a resposta que elas precisam".
 
Câmara assume encargos que considera serem do Estado
Ana Teresa Vicente visitou obras do centro de saúde de Quinta do Anjo
A descentralização de competências trouxe novas responsabilidades para os municípios, mas, segundo Ana Teresa Vicente, nem sempre foi acompanhada pelos meios financeiros necessários para garantir uma resposta adequada.
Embora a avaliação do impacto financeiro ainda esteja em curso, a presidente da Câmara aponta vários exemplos de despesas que passaram a ser suportadas pelo Município e que, na sua perspetiva, continuam a ser da responsabilidade do Ministério da Saúde.
Um dos exemplos mais evidentes é a substituição e instalação de equipamentos de ar condicionado nas unidades de saúde do concelho.
"Houve equipamentos que avariaram há muitos anos e nunca mais foram substituídos. Os poucos aparelhos de ar condicionado que hoje existem foram colocados pela Câmara Municipal".
Segundo explica, estas intervenções não estavam contempladas nas verbas transferidas para as autarquias, obrigando o Município a recorrer ao seu orçamento para melhorar as condições de trabalho dos profissionais e o conforto dos utentes.
"Quando os cidadãos entram num centro de saúde, esperam que a Câmara dê resposta aos problemas. E nós procuramos fazê-lo, mas isso não significa que essas responsabilidades deixem de ser do Estado".
A autarca defende que a colaboração entre os municípios e o Serviço Nacional de Saúde é essencial, mas considera que o processo de descentralização continuará incompleto enquanto o financiamento e os recursos humanos não acompanharem as competências transferidas para as autarquias.

Palmela admite incentivos para atrair médicos
Perante a dificuldade em fixar profissionais de saúde, a Câmara Municipal admite avançar com medidas que tornem Palmela mais atrativa para médicos que escolham exercer no concelho, sobretudo nas freguesias mais rurais.
Ana Teresa Vicente revela que essa decisão já foi assumida pelo executivo e que está a ser preparado um conjunto de incentivos destinados a facilitar a instalação de profissionais, nomeadamente através de apoios relacionados com a habitação.
"Admitimos claramente apoiar a fixação de médicos. Já tomámos essa decisão e queremos criar incentivos, nomeadamente ao nível da habitação, para facilitar a instalação destes profissionais no concelho, sobretudo nas freguesias rurais".
Apesar dessa abertura, a autarca estabelece um limite claro: a Câmara Municipal não irá assumir encargos salariais que considera continuarem a ser da responsabilidade do Estado.
"Não o faremos do ponto de vista salarial. Há municípios que optaram por esse caminho, mas entendemos que essa continua a ser uma responsabilidade do Ministério da Saúde".
Para Ana Teresa Vicente, um apoio direto aos salários criaria desigualdades relativamente a outros profissionais que também desempenham funções essenciais no concelho.
"Temos professores deslocados e outros trabalhadores que enfrentam dificuldades semelhantes. Não faria sentido criar esse tipo de diferenciação. O que podemos fazer é criar melhores condições para que os médicos escolham fixar-se em Palmela".
A presidente da Câmara acredita que estas medidas poderão tornar o concelho mais competitivo na captação de profissionais, sem desvirtuar aquilo que considera ser o papel das autarquias.

Obras feitas. Agora faltam médicos
Centro de Saúde do Pinhal Novo vai sofrer requalificação 
Para Ana Teresa Vicente, os investimentos realizados na saúde representam um compromisso claro da Câmara Municipal com a melhoria dos cuidados prestados à população. Contudo, insiste que esse esforço só produzirá resultados quando as unidades de saúde dispuserem dos recursos humanos necessários para responder às necessidades dos utentes.
As intervenções realizadas na Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados de Pinhal Novo, a nova Unidade de Saúde de Quinta do Anjo e a reabilitação das instalações da Marateca refletem uma estratégia de reforço das infraestruturas de saúde em todo o concelho. No entanto, a autarca considera que o sucesso desses investimentos dependerá sempre da capacidade do Serviço Nacional de Saúde em colocar médicos, enfermeiros e outros profissionais nas unidades já existentes.
Enquanto aguarda esse reforço, o Município garante que continuará a investir na melhoria das condições das unidades de saúde e disponível para criar mecanismos que incentivem a fixação de médicos em Palmela.
Mas Ana Teresa Vicente deixa um aviso claro: a descentralização de competências só fará sentido se for acompanhada pelos recursos financeiros e humanos necessários.
"Podemos ajudar, criar melhores condições e apoiar a fixação de profissionais. Mas não podemos substituir o Estado. Enquanto milhares de palmelenses continuarem sem médico de família, continuará a existir um problema que nenhuma inauguração conseguirá resolver", conclui a presidente da Câmara de Palmela. 

Paulo Jorge Oliveira 
Fotografia: Paulo Jorge Oliveira e CM Palmela 


Comentários