Círio Marítimo regressa a Setúbal para preservar uma tradição com 134 anos

Fé e tradição unem comunidade piscatória nas festas de Nossa Senhora da Arrábida até 12 de Julho 

A comunidade piscatória de Setúbal voltou a reunir-se para celebrar Nossa Senhora da Arrábida, numa das mais emblemáticas manifestações religiosas do concelho. As festividades decorrem até 12 de Julho e incluem procissões marítimas, momentos religiosos, iniciativas culturais e convívios que mantêm viva uma tradição iniciada em 1892.
Procissão em honra de Nossa Senhora da Arrábida 

Durante nove dias, Setúbal revive uma das suas mais antigas tradições ligadas ao mar com a realização do Novo Círio de Nossa Senhora da Arrábida. A edição deste ano volta a mobilizar pescadores, famílias e população em geral, num programa que conjuga celebrações religiosas, cultura e convívio, culminando com o habitual cortejo marítimo entre a cidade e o Portinho da Arrábida.
A apresentação oficial das festividades decorreu a 2 de Julho, a bordo da embarcação de pesca "Cefalópode", responsável por transportar, nos últimos anos, a imagem da padroeira durante as procissões marítimas de ida e regresso.

Um património que atravessa gerações
Para Valter Canas, elemento da organização, o círio representa muito mais do que uma simples celebração religiosa.
"É uma manifestação religiosa, cultural e comunitária que ocorre em Setúbal desde 1892", afirmou, acrescentando que se trata de "um património vivo onde a espiritualidade se encontra com a cultura popular, onde o mar e a serra se unem numa só celebração".
Segundo o responsável, a iniciativa nasceu da devoção popular como forma de agradecimento e de cumprimento de promessas, mantendo-se até hoje graças ao empenho dos pescadores e da população local.

Fé que continua a marcar a comunidade
O pároco da Anunciada, padre Francisco Mendes, recordou que muitos dos círios portugueses surgiram em períodos particularmente difíceis da história.
"Sabemos que a maior parte dos círios nasceu por causa de um voto coletivo, numa aflição grande", explicou, referindo que epidemias, sismos, dificuldades na agricultura, problemas na pesca e períodos de fome estiveram na origem destas manifestações religiosas.
O sacerdote salientou ainda que estas celebrações continuam a ser momentos de ação de graças, mas também de renovação da esperança para quem enfrenta novas dificuldades.

Tradição adaptada aos tempos atuais
Também Rui Canas, diretor-geral da Setúbal Bay - Associação Baía de Setúbal, destacou a importância destas festividades para a identidade da cidade.
"A baía fica muito mais rica com estas festividades", afirmou, lembrando que o círio foi, durante décadas, a principal manifestação de fé ligada ao mar em Setúbal.
O responsável recordou que, após um período de menor expressão, foi possível recuperar o envolvimento da comunidade piscatória em 2015, defendendo agora que a tradição deve continuar a evoluir para acompanhar as transformações da sociedade.
"Se o mundo evolui e a situação é diferente, os acontecimentos também têm de acompanhar", sublinhou.

Comunidade reforça compromisso com a tradição
Cortejo marítimo une Setúbal ao Portinho da Arrábida
Em representação da Câmara Municipal de Setúbal, Alexandra Manata agradeceu o trabalho desenvolvido pela comissão organizadora e enalteceu a dedicação da comunidade piscatória.
A responsável revelou ainda que, após ouvir os pescadores, foi decidido recuperar a procissão da imagem pela Praia do Creiro, marcada para 11 de Julho, considerando que este momento permitirá aproximar ainda mais a população das celebrações.
Já Carlos Branco, da União das Freguesias de Setúbal, destacou o esforço realizado para manter viva esta tradição secular.
"A comunidade piscatória está mais reduzida, mas a fé está mais aumentada", afirmou, associando esse sentimento ao contexto internacional marcado por guerras e outras dificuldades.

Programa prolonga-se até 12 de Julho
As festividades arrancaram a 4 de Julho com a quarta edição do espetáculo "Fado em Oração", realizado na Igreja da Anunciada, onde Susana Martins interpretou temas dedicados às gentes do mar, acompanhada por Rui do Cabo, na guitarra portuguesa, e Albano Almeida, na viola de fado.
Nos dias 7 e 8 de Julho realiza-se a recitação do terço às 17h30. A 9 de Julho decorre um Terço Solene, às 20h45, junto ao Monumento ao Pescador, na Praia da Saúde, acompanhado pelos cânticos do tenor João Mendoza.
No dia 10 de Julho está agendada uma missa de sufrágio pelos membros falecidos da comissão de festas, na Igreja da Anunciada.
As celebrações atingem um dos momentos altos a 11 de Julho, com o círio marítimo até ao Portinho da Arrábida. Após a chegada realiza-se a procissão para a Praia do Creiro, seguida do tradicional almoço-convívio da comunidade piscatória.
O encerramento acontece a 12 de Julho, novamente com embarcações engalanadas a partir da Doca dos Pescadores. Depois da travessia marítima, os participantes seguem para o Convento da Arrábida, onde será celebrada missa às 11h30, seguida de procissão e almoço. O regresso a Setúbal está previsto para as 19 horas, terminando as festividades com nova procissão até à Igreja da Anunciada.

Agência de Notícias 
Fotografia: CM Setúbal 

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