Câmara da Moita enfrenta caos no saneamento e acusa falta de transparência no setor ambiental
Descargas ilegais, águas contaminadas e tarifas em risco de disparar colocam a Moita no centro de uma crise ambiental e social que já dura há mais de uma década - com Alhos Vedros e Brejos da Moita a tornarem-se símbolo de um alegado "crime ambiental continuado", enquanto a autarquia exige transparência, justiça tarifária e intervenção urgente do Governo.![]() |
| População denuncia crise ambiental prolongada em Alhos Vedros |
A polémica em torno das descargas de águas residuais na Moita ganhou nova dimensão após uma reunião estratégica entre o município, o Conselho Metropolitano de Lisboa, o Secretário de Estado do Ambiente e a Agência Portuguesa do Ambiente. No centro do debate esteve não só o futuro da gestão de resíduos em Portugal, mas também a crescente revolta local face à degradação ambiental e ao possível aumento de custos para os munícipes.
O presidente da Câmara Municipal da Moita, Carlos Albino, assumiu uma posição firme, recusando que os encargos associados às tarifas da Simarsul e Amarsul sejam transferidos para as famílias. "O concelho da Moita não se cala nem vira a cara aos problemas. Continuaremos a defender a nossa população com coragem e a exigir o respeito que os nossos cidadãos merecem", afirmou.
A autarquia considera que a subida de tarifas poderá agravar ainda mais a situação social, pressionando orçamentos familiares já fragilizados e comprometendo o envolvimento da população nas metas ambientais, nomeadamente na reciclagem.
Paralelamente, o município anunciou uma reunião com a Simarsul agendada para 6 de Maio, com o objetivo de exigir soluções concretas e imediatas para os problemas no terreno.
Descargas e poluição geram revolta em Alhos Vedros
Enquanto decorrem reuniões institucionais, a realidade no terreno mantém-se crítica. Em Alhos Vedros, a Vala Real da Vinha das Pedras continua a receber descargas visíveis de águas residuais, carregadas de detritos, que seguem em direção ao rio Tejo. O mau cheiro tornou-se constante e os moradores descrevem a zona como um verdadeiro "esgoto a céu aberto".
Apesar de a Simarsul justificar os episódios com a entrada indevida de águas pluviais no sistema, a população rejeita explicações técnicas e fala em negligência prolongada.
A situação agravou-se nos primeiros meses de 2026, com novas denúncias e investigações a reforçarem a perceção de inação por parte das entidades responsáveis.
Impacto na saúde, agricultura e economia local
Os efeitos da poluição vão além do desconforto ambiental. Na Associação de Desportos Náuticos Amigos do Mar, os praticantes relatam receio ao entrar na água devido à possível presença de bactérias e substâncias desconhecidas.
Nos Brejos da Moita, o cenário é ainda mais preocupante. Agricultores denunciam a contaminação de solos e aquíferos, alegadamente provocada por descargas associadas ao ecoparque de Palmela, gerido pela Amarsul. "A água que entra queima a terra", relatam, apontando prejuízos diretos na produção agrícola.
Há ainda alertas para riscos no consumo de água, com poços contaminados por lixiviados a obrigarem ao recurso a água engarrafada, tanto para consumo humano como para proteger o gado.
Falta de coordenação e críticas à fiscalização
A crise expôs também falhas na articulação entre entidades. O Ministério Público investiga o caso sob segredo de justiça, enquanto a Agência Portuguesa do Ambiente já confirmou a existência de descargas ilegais.
A Câmara da Moita defende que o investimento na rede é responsabilidade da Simarsul, apesar de deter apenas uma participação minoritária. Já a empresa garante que o sistema está preparado, apontando falhas nas redes municipais.
Neste contexto, Carlos Albino deixou críticas à estrutura de fiscalização ambiental, defendendo maior independência: alertou para o facto de entidades fiscalizadas e fiscalizadoras dependerem da mesma tutela ministerial, o que considera comprometer a transparência.
Entretanto, forças políticas também entraram no debate, com o Bloco de Esquerda a exigir o "fim imediato das descargas" e o executivo socialista a "reconhecer problemas estruturais herdados do passado".
Autarquia promete pressão contínua
Perante o cenário, o município garante que irá intensificar a monitorização no terreno e manter pressão sobre o Governo e entidades gestoras. O objetivo, segundo a autarquia, é assegurar que os interesses da população da Moita são respeitados e que a crise ambiental deixa de ser ignorada.

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