A alma ribeirinha de Alcochete volta às ruas na Páscoa com uma tradição única no país

Entre gaitas, burros e promessas: Círio dos Marítimos regressa com cinco séculos de história que liga a vila à Atalaia 

Mais de 500 anos de história voltam a ganhar vida em Alcochete nesta Páscoa. Entre 4 e 7 de Abril, o Círio dos Marítimos regressa às ruas da vila ribeirinha para celebrar uma das tradições mais antigas e identitárias da região, dedicada a Nossa Senhora da Atalaia. O momento mais emblemático acontece no domingo e na segunda-feira de Páscoa, quando o histórico cortejo percorre Alcochete com mulheres solteiras e casadas montadas em burros, acompanhadas por carretas puxadas por bois, num desfile singular que atravessa a vila antes de seguir rumo ao santuário da Atalaia, recriando um ritual pascal que une fé, memória e orgulho comunitário.
Cortejo com mulheres montadas em burros anima ruas de Alcochete

Há tradições que definem um povo - e em Alcochete há uma que atravessa mais de 500 anos de história. A Páscoa em Alcochete não se vive apenas nas igrejas - sente-se nas ruas, nos sons e nos rituais que atravessam gerações. Todos os anos, por esta altura, o concelho revive o Círio dos Marítimos, uma das mais antigas tradições populares do distrito de Setúbal e um dos símbolos mais fortes da identidade local.
Com raízes que remontam a mais de cinco séculos, esta celebração nasceu de uma promessa feita por marítimos do rio Tejo a Nossa Senhora da Atalaia, padroeira dos homens do mar. Desde então, a tradição foi sendo preservada pelos barqueiros e pelas famílias da vila, passando de geração em geração através da memória e da vivência comunitária.
Durante quatro dias, Alcochete mergulha num ambiente onde a espiritualidade se cruza com a festa popular. Música, cortejos, rituais antigos e momentos de convívio fazem do Círio dos Marítimos um acontecimento que reúne moradores, visitantes e devotos.
A festa começa na noite de sábado de Aleluia com o som característico do “Chininá”, marcado pelas gaitas-de-foles e pelas caixas que anunciam o início das celebrações. A partir desse momento, a vila transforma-se num cenário onde tradição e emoção caminham lado a lado.

Cortejos únicos mantêm viva a tradição
Entre os momentos mais aguardados destacam-se os cortejos que percorrem as ruas típicas da vila no domingo e na segunda-feira de Páscoa. Mulheres casadas e solteiras participam montadas em burros, num desfile singular que constitui um dos rituais mais marcantes da festividade e um dos mais raros do país.
Este momento simbólico celebra não apenas a devoção religiosa, mas também o papel feminino na preservação da cultura e das tradições locais.
Na segunda-feira, a celebração ganha uma dimensão mais solene com a missa na Igreja de Nossa Senhora da Atalaia, seguida de procissão. Depois, acontece um dos momentos mais participados da festa: o tradicional leilão de fogaças e bandeiras.
Mais de 200 bandeiras com a imagem da santa são licitadas pelos participantes, mas é o Guião - a peça principal da festividade - que habitualmente atinge o valor mais elevado, num gesto que simboliza fé, devoção e compromisso com a continuidade da tradição.

Apoio municipal ajuda a preservar memória coletiva
Apesar da sua forte ligação à comunidade, a organização da festa enfrenta desafios ao longo do tempo. Por isso, o município de Alcochete decidiu reforçar o apoio à realização do Círio dos Marítimos.
A Câmara Municipal aprovou um conjunto de apoios que totalizam cerca de cinco mil euros para garantir a continuidade e dignidade da celebração. Entre as medidas está o fornecimento de fogo de estalaria no valor de cerca de 1.845 euros, a isenção do pagamento de taxas de licenciamento da festividade no valor de 1.024 euros e a redução de 50 por cento na taxa de utilização do Pavilhão Gimnodesportivo, correspondente a cerca de 1.522 euros.
O município também se associa à festa através de apoio logístico e da isenção de taxas relacionadas com a realização do evento.
O presidente da Câmara Municipal, Fernando Pinto, sublinha a importância desta tradição para a identidade da vila. "Há um superior interesse na preservação desta memória coletiva que é de todos e que deve chegar às gerações futuras", afirmou.
Mais do que uma celebração religiosa, o Círio dos Marítimos continua a afirmar-se como um verdadeiro símbolo da ligação entre Alcochete, o rio Tejo e as suas raízes marítimas.

Agência de Notícias 
Fotografia: Design ADN 

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