Mulher morre depois de esperar mais de 40 minutos por assistência na Quinta do Conde

Emergência atrasada expõe falhas no INEM na margem sul. A ambulância veio de Carcavelos, no distrito de Lisboa

Uma mulher de 73 anos morreu esta quarta-feira, na Quinta do Conde, concelho de Sesimbra, após aguardar mais de 40 minutos pela chegada de meios de socorro. O caso levou o INEM a abrir uma auditoria interna e voltou a colocar em evidência a escassez de recursos de emergência na margem sul. Este caso soma-se a outros dois registados em apenas dois dias. Em Tavira, um homem de 68 anos morreu depois de esperar mais de uma hora por socorro, enquanto no Seixal um homem de 78 anos faleceu após quase três horas à espera de meios de emergência.
Socorro foi prestado pelos bombeiros de Carcavelos


O alerta para o 112 foi feito às 13h43, na quarta-feira, por um neto da vítima. A idosa encontrava-se com dificuldades respiratórias graves, em dispneia e cianose, com obstrução da via aérea. A chamada foi triada como “muito urgente”, o que, segundo o novo sistema do INEM, prevê um tempo máximo de resposta de 18 minutos.
De acordo com a cronologia divulgada pelo Instituto Nacional de Emergência Médica, às 14h01, precisamente 18 minutos depois da chamada inicial, foi disponibilizada uma ambulância dos Bombeiros Voluntários de Carcavelos pelo Comando Sub-Regional da Grande Lisboa da ANEPC.
 
Meios distantes e prioridades emergentes
Cinco minutos depois, às 14h06, a situação foi reavaliada pelo CODU e a prioridade elevada para P1 - emergente, exigindo resposta imediata. No entanto, as ambulâncias mais próximas, localizadas em Setúbal, Barreiro e Almada, encontravam-se ocupadas em ocorrências igualmente classificadas como P1, explicou o INEM.
Mobilizados a partir de Carcavelos, a cerca de 35 quilómetros da Quinta do Conde, os bombeiros demoraram aproximadamente 40 minutos a chegar ao local. Às 14h37, a equipa comunicou que a utente estava em paragem cardiorrespiratória.
A Viatura Médica de Emergência e Reanimação de Setúbal só foi acionada às 14h42, depois de ficar disponível.

“O tempo é crucial”
O filho da vítima, Gil Alves, relata que tentou por várias vezes obter ajuda. Diz que ligou três vezes para o 112, numa tentativa desesperada de perceber quando chegaria a ambulância, à medida que o estado de saúde da mãe se agravava.
“Disseram que seria uma ambulância de Carcavelos. Fiquei assustado, a minha voz começou a tremer. Percebi a distância enorme entre Carcavelos e a Quinta do Conde”, contou.
A mulher tinha estado internada entre 25 e 27 de Dezembro devido a uma crise respiratória e encontrava-se a fazer tratamento domiciliário após a alta hospitalar.

Pressão crescente nos bombeiros e hospitais
O comandante dos Bombeiros Voluntários de Carcavelos, João Carlos Franco, confirmou que foi enviada para o local uma ambulância com dois operacionais e que, à chegada, a vítima já se encontrava em paragem cardiorrespiratória.
O responsável alertou que este tipo de mobilização começa a ser recorrente, sobretudo em períodos de maior pressão, como o pico da gripe. Explicou que a sobrelotação hospitalar leva frequentemente à retenção de ambulâncias e equipas nos hospitais, reduzindo a capacidade de resposta no terreno.

Auditoria aberta e mais mortes em investigação
A mulher, natural da Guiné-Bissau, vivia em Portugal há três anos com a família, na Quinta do Conde. Fazia hemodiálise três vezes por semana devido a problemas renais. O óbito foi declarado no local pela equipa médica do INEM, que já instaurou uma auditoria interna aos procedimentos adotados.
Este caso soma-se a outros dois registados em apenas dois dias. Em Tavira, um homem de 68 anos morreu depois de esperar mais de uma hora por socorro, enquanto no Seixal um homem de 78 anos faleceu após quase três horas à espera de meios de emergência.

Agência de Notícias 
Fotografia: Design ADN 

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