Falhas na lei abriram portas a mega burla imobiliária em Palmela

114 famílias afetadas em esquema imobiliário sem precedentes que expõe brechas graves no sistema da habitação

Cerca de 114 famílias viram o sonho da casa própria transformar-se num pesadelo financeiro em Palmela, após um esquema de burla imobiliária que terá provocado prejuízos globais superiores a 26 milhões de euros. O caso, atualmente sob investigação do DIAP de Setúbal, está a levantar sérias questões sobre as fragilidades do enquadramento legal da habitação e do urbanismo em Portugal. Apesar da gravidade da burla, o suspeito está em liberdade. O caso pode envolver ainda agentes imobiliários. 
Um terreno vazio na Venda do Alcaide onde muitos sonhavam morar 

Desde 2017, a empresa Diagramamotriz, celebrou múltiplos contratos-promessa de compra e venda para os mesmos imóveis em vários empreendimentos residenciais no concelho de Palmela. Entre os projetos afetados estão Palmela Dreams I, II e III, Alcaide Villas, ADL e Santa Teresinha.
De acordo com o relatório do administrador de insolvência, o esquema terá lesado diretamente 114 famílias em cerca de 17 milhões de euros, valor que, somando outros impactos e responsabilidades, ultrapassa os 26 milhões de euros em prejuízos globais.
As vítimas defendem que a dimensão da fraude não pode ser atribuída apenas à atuação individual do promotor. Apontam antes para falhas estruturais do modelo legal vigente, nomeadamente a inexistência de registo obrigatório dos contratos-promessa, a ausência de contas fiduciárias para os montantes entregues e um regime de comunicação prévia sem controlo preventivo eficaz.

Sistemas públicos sem ligação eficaz
Outro dos pontos críticos identificados pelos lesados prende-se com a falta de articulação entre entidades públicas. Municípios, conservatórias, Autoridade Tributária, reguladores do setor imobiliário e supervisores financeiros operam de forma isolada, sem mecanismos de partilha de informação que permitam detetar e travar operações fraudulentas atempadamente.
Segundo as vítimas, esta fragmentação institucional criou o terreno ideal para que o esquema se prolongasse durante anos sem alertas eficazes.

Alerta surge em plena revisão da lei
O caso ganha especial relevância num momento em que o Governo anunciou uma revisão do Regime Jurídico da Urbanização e da Edificação, apostando na generalização da comunicação prévia, no reforço da autorresponsabilização dos promotores e na redução do controlo prévio municipal.
Para as famílias afetadas, esta orientação legislativa, sem mecanismos robustos de fiscalização e proteção do comprador, poderá aumentar o risco de situações semelhantes às que agora estão sob investigação criminal.
Os lesados defendem que Palmela deve ser encarado como um verdadeiro “caso-teste nacional” e apelam a um debate público sobre contratos-promessa, mediação imobiliária, circulação de capitais e articulação entre o sistema fiscal e o direito à habitação.

Detenção, investigação e responsabilidades em causa
O construtor, de 48 anos, foi detido pela Polícia Judiciária de Setúbal em Novembro, suspeito da prática de crimes de burla qualificada. Acabaria por ser libertado com termo de identidade e residência.
A investigação aponta ainda para um alegado envolvimento cúmplice da Remax, responsável pela comercialização dos imóveis, que recebia os sinais e não terá alertado nem consultado o município para a inexistência ou irregularidade das construções. Um dos agentes imobiliários envolvidos garante que a direção da Remax Expo-group tinha conhecimento da situação desde o início.
As famílias, que ficaram sem casa e sem o dinheiro investido, exigem agora responsabilidades à Remax Portugal.

Como funcionava o mecanismo da burla
Segundo o Ministério Público, o esquema seguia um padrão recorrente que incluía:
  • Celebração de múltiplos contratos-promessa sobre as mesmas moradias ou lotes, com vendas duplicadas, triplicadas ou quadruplicadas. 
  • Cobrança de sinais e reforços de sinal elevados, muitas vezes acima dos 100 mil euros por família, sem qualquer proteção fiduciária. 
  • Paralisação ou abandono de obras sem Comunicação de Início de Trabalhos, livro de obra ou vistorias municipais regulares. 
  • Venda global de um dos principais lotes a uma terceira empresa, livre de ónus, apesar da existência de dezenas de contratos-promessa ativos. 
  • Tentativas de intervenção de terceiros para promover registos ou assumir obras sem legitimidade urbanística. 
Impacto fiscal agrava perdas das vítimas
Além da perda da casa e das poupanças, os lesados alertam para uma consequência fiscal que agrava ainda mais a sua situação financeira. Em causa está a exigência de pagamento de mais-valias associadas a operações que nunca se concretizaram materialmente.
Mesmo sem qualquer benefício económico real, algumas famílias continuam expostas a obrigações fiscais, num quadro legal que não prevê mecanismos de suspensão ou salvaguarda para vítimas de fraude imobiliária. Uma situação descrita como uma “segunda penalização institucional”.

Agência de Notícias 
Fotografia: Design ADN

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