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quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Tranquilidade regressa ao bairro da Jamaica no Seixal

"A vida continua" e contam-se os dias para o realojamento de todas as famílias 

Dias depois dos momentos de tensão entre populares e agentes da PSP no bairro da Jamaica, no Seixal, que fizeram as manchetes dos jornais, o ambiente já se encontra mais tranquilo, mas permanece a "revolta" contra os agentes acusados de excesso de violência na sua intervenção. A par, os moradores recusam qualquer envolvimento na manifestação em Lisboa, na Avenida da Liberdade, que acabou com vários detidos. No dia-a-dia, entre as paredes de tijolo à vista e com infiltrações, há o medo que tudo possa desabar, e anseia-se pelo momento em que se abrirão as portas de uma nova casa. Segundo a Câmara do Seixal, o realojamento do primeiro lote em Vale de Chícharos representa um investimento total de cerca de 3,6 milhões de euros, dos quais 1,9 são suportados pela câmara municipal e 1,6 milhões de euros pelo Governo.
Aos poucos o bairro regressa a paz social 


"A vida continua, apesar do que aconteceu no domingo". As palavras são de um dos membros da Associação de Desenvolvimento Social de Vale de Chícharos à agência Lusa, dias depois dos confrontos entre agentes da PSP e populares no bairro da Jamaica. O sentido "é sensivelmente de revolta pelos acontecimentos que sucederam […], mas estamos a tentar retomar o dia-a-dia normalmente", acrescenta.
Vanessa Coxi vive no bairro e é familiar de alguns dos moradores que participaram no incidente de domingo, do qual resultaram vários feridos e um detido, tendo garantido que “não foi atirada nenhuma pedra” aos agentes da PSP e que a situação piorou após “terem colocado os sogros ao barulho”. “Quando a minha cunhada bateu no polícia, foi porque ele já tinha batido na mãe dela. Não há ninguém que consiga ver uma pessoa a bater nos pais e ficar quieto”, conta.
No domingo de manhã, 20 de Janeiro, a PSP foi chamada a Vale de Chícharos, mais conhecido como bairro da Jamaica, após ter sido alertada para “uma desordem entre duas mulheres”, o que resultou no ferimento, sem gravidade, de cinco civis e de um agente. A PSP abriu, no mesmo dia, um inquérito para “averiguação interna” sobre a “intervenção policial, e todas as circunstâncias que a rodearam”.
Devido a esta ocorrência, realizou-se uma manifestação em frente ao Ministério da Administração Interna, em Lisboa, tendo os manifestantes subido, por volta das 17 horas, a Avenida da Liberdade, em direção ao Marquês de Pombal, onde ocuparam a praça central. Os protestos acabaram em violência, com arremesso de pedras e disparos com balas de borracha. Quatro pessoas foram detidas. Contudo, Vanessa Coxi afirmou que os moradores do bairro não organizaram nenhum destes movimentos.
“Temos que agradecer o apoio que nos tem vindo a ser dado, mas também vou aproveitar a oportunidade porque tenho que exigir que retirem uma mentira. […] Dizem que foram os moradores do bairro que convocaram a manifestação, mas não foi ninguém aqui do bairro”, reiterou. Todas as pessoas com quem a Lusa falou esta manhã, em Vale de Chícharos, disseram não ter participado no protesto e, para Vanessa Coxi, as revoltas devem-se a situações semelhantes que acontecem noutros bairros.

Situações com a polícia são recorrentes no bairro 
“O que ocorreu aqui foi o culminar de tudo o que já se tem vindo a passar, não só aqui na Jamaica, mas também noutros bairros, porque é comum acontecer o que aconteceu aqui no domingo. Foi apenas mais um episódio e foi o que acabou por gerar esta onda de indignação”, indicou.
Também Vital Pedro, morador no bairro há quase 20 anos, confirmou que estas situações com a polícia são recorrentes na Jamaica, mas que desta vez “foi muito violento”.
No interior de um dos edifícios com fachada em tijolo foi possível falar com Gina Coxi, uma das jovens que esteve na origem do confronto e que demonstrou uma grande revolta. “A única coisa que eu quero mesmo é justiça. Quero que percam o cargo que têm e sejam presos. Nós estamos muito revoltados, eu estou muito revoltada e não consigo ir trabalhar. Não consigo nem movimentar o pescoço. […] Eles arrancaram-me o cabelo, pisaram-me e um deles chamou-me nomes”, denunciou.
Além da PSP, também o Ministério Público abriu um inquérito aos incidentes no bairro da Jamaica. Os quatro manifestantes detidos em Lisboa vão ser julgados sumariamente em 7 de Fevereiro.
As últimas noites têm sido de tensão, com incêndios em ecopontos, caixotes do lixo e carros na Grande Lisboa e em Setúbal; assim como o lançamento de “cocktails Molotov” contra uma esquadra. Todavia, em comunicado, a PSP esclareceu que “nada indicia, até ao momento, que [estes incidentes] estejam associados à manifestação” de protesto contra a intervenção policial no bairro da Jamaica.

Moradores anseiam pelo dia em que serão realojados 
Moradores asseiam por sair do bairro 
De olhos postos no bairro da Jamaica, o caso motivou visitas ao local onde várias famílias vivem em prédios sem condições e esperam ser realojadas. Aqui, os prédios são em tijolo, as paredes estão cheias de infiltrações e há o medo de que tudo possa desabar, por isso os moradores anseiam pelo dia em que receberão uma nova casa.
“Estou mesmo com esperança de que isso aconteça, para sair daqui. Estamos muito apertados, temos sempre muita água que escorre até ao chão. Se tiverem uma casa melhor que esta para mim, é bem-vinda. Nós temos medo sim, porque não temos um portão no prédio, não temos nada e sentimos medo, o prédio pode desabar porque não está seguro”, contou uma das moradoras do edifício 13.
Pulquéria Neto vive em Vale de Chícharos, conhecido como bairro da Jamaica, há cerca de 20 anos e, apesar de ainda não haver previsões de quando se inicia a segunda fase dos realojamentos, confessou que já vai “começar a encaixotar” os seus bens.
Em 20 de Dezembro do ano passado, terminou a primeira fase de realojamento dos moradores do lote 10, em que 187 pessoas foram distribuídas por 64 habitações de várias zonas do concelho, segundo a Câmara Municipal do Seixal.
Em declarações à Lusa, nessa ocasião, a autarquia revelou que já estava a ser preparado o realojamento do lote 13, onde residem 38 famílias, no entanto, ainda não havia previsão de quando poderão ter uma nova habitação.
As condições habitacionais no bairro não são fáceis, o chão é em cimento e muito irregular, não existem corrimãos, alguns pisos não têm eletricidade, nem qualquer tipo de isolamento.
“O problema é visível, existe água em tudo quanto é sítio, há um cano rebentado há meses e já alertámos a Câmara Municipal. É perigoso, é água que fica aqui parada, atrai mosquitos, doenças e gastos com hospitais. Esperemos sinceramente que, segundo o acordo que foi assinado em Dezembro de 2017, consigam efetuar o realojamento de todos os moradores”, referiu Vanusa Coxi, membro da Associação de Desenvolvimento Social de Vale de Chícharos.
Já Vital Pedro, que vive no bairro há 20 anos, disse à Lusa que tinha acabado de regressar da Câmara do Seixal, onde esteve a falar sobre os realojamentos.
“Neste momento acabo de sair da Câmara do Seixal, nós estamos num quadro de realojamento e explicaram-nos que não será assim tão rapidamente, que as pessoas podem ser realojadas daqui a seis meses ou um ano. Estamos numa situação muito crítica e estas condições em que vivemos não são o ideal”, frisou.
Segundo o município, o realojamento do primeiro lote em Vale de Chícharos representa um investimento total de cerca de 3,6 milhões de euros, dos quais 1,9 são suportados pela câmara municipal e 1,6 milhões de euros pelo Governo.
O edifício número 10 começou a ser demolido, mas, devido a uma ação imposta em tribunal pela empresa detentora dos terrenos, a Urbangol, estes trabalhos encontram-se suspensos.
O acordo para resolução desta situação de carência habitacional foi assinado em 22 de Dezembro de 2017, com uma parceria entre a Câmara do Seixal, o Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana e a Santa Casa da Misericórdia do Seixal.
A parceria visa o realojamento de 234 famílias e tem um investimento total na ordem dos 15 milhões de euros, dos quais 8,3 são suportados pelo município.
O bairro começou a formar-se na década de 90, quando populações que vinham dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa começaram a fixar-se nas torres inacabadas, fazendo puxadas ilegais de luz, água e gás.

Agência de Notícias com Lusa 

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