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terça-feira, 23 de outubro de 2018

Administração do porto de Setúbal admite rever projeto

Pescadores, ambientalistas e operadores turísticos tentam travar dragagens  

As associações de pesca de Setúbal revelaram esta segunda-feira que a administração portuária se mostrou disponível para mudar o local de deposição dos dragados provenientes das dragagens no rio Sado, de forma a minimizar o risco ambiental. Além das preocupações ambientais, os pescadores também receiam que a deposição dos dragados na zona da restinga, uma zona de baixio, também possa vir a dificultar a manobra das embarcações de pesca, que poderiam ver-se obrigadas a ir à barra para conseguirem navegar para sul. O Grupo Pestana, em articulação com outros hoteleiros de Tróia, aliou-se numa coligação surpreendente com a associação ambientalista Zero e com a Cooperativa de Pescas de Setúbal para fazer pressão social e política para travar o projeto. “Já estamos a consultar advogados e especialistas”, anuncia José Roquette, do Pestana Hotel Group.

Pescadores tenta dialogo com porto de Setúbal 

"Não queremos a deposição dos dragados no local onde estava previsto pela Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra, na denominada `restinga, Zona A´, mas sim na zona da cana, a sul de barra, com cerca de 600 metros de profundidade, que é, aliás, o local onde sempre se têm depositado as lamas recolhidas nas dragagens de manutenção do canal de navegação do porto de Setúbal", disse, em conferência de imprensa, Ricardo Santos, da Sesibal, Cooperativa de Pesca de Setúbal e Sesimbra.
"Trata-se de uma zona riquíssima em várias espécies, designadamente raia, salmonete, linguado, polvo e choco, entre outras, e que é fundamental para mais de 300 pescadores", acrescentou Ricardo Santos, na conferência de imprensa conjunta das três associações de pesca de Setúbal: Sesibal, Bivalmar e Pesca Artesanal.
Apesar de assumirem claramente que a comunidade piscatória não tem particular simpatia pela Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra pela falta de condições de trabalho e dos investimentos necessários na doca de pesca, que ainda têm de partilhar com as embarcações marítimo-turísticas, os pescadores reconhecem que a Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra foi, até agora, a única entidade que respondeu às suas preocupações sobre as dragagens.
De acordo com as associações de pesca, em encontros separados já realizados com as associações de pesca de Setúbal, a Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra admitiu mesmo a possibilidade de celebrar um protocolo sobre a mudança do local de deposição dos dragados.
"Não queremos a deposição de dragados naquele local. Não temos conhecimentos técnicos, mas temos conhecimentos práticos. Não se trata de sermos a favor ou contra as dragagens, porque se as pudéssemos impedir não as permitíamos, mas de minimizar os impactos negativos", corroborou Carlos Pratas, da Bivalmar, acrescentando, com ironia, que tem "ciúmes dos golfinhos, que suscitam maior preocupação do que os próprios pescadores".
Independentemente do receio de eventuais consequências da deposição do material proveniente das dragagens no local escolhido inicialmente, mas que a Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra parece agora estar disposta a mudar, os pescadores lembram que as dragagens acabam por ter sempre consequências nefastas em termos ambientais.
"Quando se fizeram as dragagens no estuário do Sado para permitir a entrada de barcos para a antiga Setenave, desapareceram espécies como os búzios, que apanhávamos às toneladas todos os dias, desapareceram as ostras e muitas outras", recordou Paulo Jorge, da associação de Pesca Artesanal, lembrando que, outrora, o rio Sado também era rico em ligueirão, navalhas e santolas, espécies que, entretanto, também desapareceram.
As dragagens para alargamento e aprofundamento do canal de navegação do porto de Setúbal prevêem a retirada de cerca de 6,5 milhões de metros cúbicos de areia do estuário do Sado.

Ambientalistas e resorts de Tróia unidos contra dragagens
Somam-se providências cautelares para travar as dragagens no estuário do Sado. À ação interposta pelo Clube Arrábida em Setembro, junta-se agora uma ação popular do movimento cívico SOS Sado que quer “a suspensão imediata” da empreitada promovida pela administração do porto de Setúbal,  com o apoio do Governo e prevista para avançar em Novembro. E como não há duas sem três, o Grupo Pestana, em articulação com outros hoteleiros de Tróia, aliou-se numa coligação surpreendente com a associação ambientalista Zero e com a Cooperativa de Pescas de Setúbal para preparar uma ação semelhante e fazer pressão social e política para travar o projeto. “Já estamos a consultar advogados e especialistas”, anuncia José Roquette, do Pestana Hotel Group.
“Todos os projetos turísticos da região foram alvo de avaliações ambientais muito exigentes e agora vemos este processo, gerido na sombra, ser aprovado atropelando as regras ambientais”, critica o empresário. José Roquette lembra que o turismo na região depende deste património natural e das praias da Arrábida e da península de Tróia, que são “postos em causa por uma decisão política de enorme irresponsabilidade e que vai afetar de forma brutal a fauna do estuário”, deixando em aberto “o risco de daqui a uns anos deixarmos de ter golfinhos”.
Outro dos impactos negativos detetados é a erosão das praias, já que os estudos geológicos e geomorfológicos apontam para um “efeito de sumidouro” provocado pelas dragagens, que impedirá a reposição de areias. Paralelamente, o projeto de deposição do material dragado com vestígios de contaminação junto às praias de Tróia também fez soar as campainhas dos resorts. Este projeto, que envolve uma licença da Direção-Geral de Recursos Marítimos, está em consulta pública até 29 de Outubro.
O projeto de dragagens, denominado “Melhoria de Acessibilidade Marítima do Porto de Setúbal”, é apresentado como tendo impactos socioeconómicos positivos “muito significativos”, permitindo, entre outras coisas, “aumentar a competitividade do porto e dos seus clientes”. É esta mais valia económica que o Governo invoca para viabilizar a obra.

Agência de Notícias com Lusa 

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