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segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Falta de espécies preocupa pescadores em Setúbal

Linguados e enguias estão a desaparecer do Estuário do Sado 

Os linguados e as enguias estão a desaparecer da Reserva Natural do Estuário do Sado, alertam os pescadores do porto de Gâmbia, em Setúbal, que responsabilizam pela situação a poluição alegadamente causada pelos efluentes industriais no concelho. "Matam-se os pequenos e os grandes não aparecem", diz António Santos, de 59 anos, pescador no porto de Gâmbia desde que se lembra, acrescentando que, "antigamente, havia muito mais peixe do que há agora" e que a redução se nota "de há uns 15 ou 20 anos para cá". Adelino Lopes, de 60 anos, corrobora: "Quando éramos gaiatos, a maré vazava, brincávamos nos regatos a apanhar linguados, havia tantos que até os largávamos novamente na água. Hoje, nem vê-los".
Pescadores queixam-se da falta de linguado e enguia no Sado 

Os pescadores de Gâmbia atribuem a unidades industriais existentes na zona da Mitrena, em Setúbal, e a descargas de efluentes, a responsabilidade pela alegada poluição na água e pela consecutiva redução de algumas espécies.
"Os linguados estão a desaparecer e só pode ser da poluição da água, não há outra justificação. O mesmo se passa com as enguias", afirma o pescador Paulo Ferreira, de 44 anos.
"Às vezes, há umas descargas das fábricas. Eles fazem limpeza e largam tudo pela ribeira abaixo, vem tudo parar aqui ao rio, e é claro que não faz bem ao peixe", conta, por sua vez, outro pescador, Leonídio Santos, de 66 anos.
Segundo a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), no entanto, "a poluição não tem aumentado, o que é atestado pelas classificações obtidas na metodologia definida na Diretiva-Quadro da Água", que consideraram "bom e superior" o estado da água no Estuário, em 2015.
Já Paulo Carmo, presidente do Núcleo Regional do Litoral Alentejano da Quercus, apesar de concordar que tem havido sinais nos últimos anos de alguma recuperação na qualidade da água, confirma que "quer a enguia, quer o linguado, estão a desaparecer".
Para o ambientalista, a explicação para esta situação reside no facto de a poluição não estar na água, mas sim no fundo do rio. "Podemos dizer que a água não está má, mas do que estamos a falar aqui é do fundo do estuário. É no fundo que se depositam os metais pesados, é aí que está poluído e é ai que o linguado anda, no lodo", segundo Paulo Carmo.
Este responsável reforça que o principal problema é o "pouco controlo daquilo que é a atividade das indústrias que laboram junto ao rio Sado, que são pesadas", além de não se saber "muito bem como é que as águas residuais desse tipo de atividade são controladas".
Segundo Paulo Carmo, no mês de maio, também "costuma haver uma grande mortandade das amêijoas no Estuário do Sado, porque há descargas das águas do arroz, que contaminam o Rio Sado e tudo aquilo que está na areia, como a amêijoa e o linguado".
António Santos diz à Lusa que "as fábricas aproveitam quando chove para largar efluentes na água", adiantando que, "em Maio, quando houve as chuvadas, estavam uns chocos bons no canal, mas depois deitaram aquela água ruim e desapareceram logo".

Um maior controlo sobre as empresas
Para os pescadores, a perda das espécies significa também menos sustento, porque hoje em dia a pesca no porto de Gâmbia dura apenas praticamente três meses, a época em que há choco.
"Esta situação acontece desde 2005. Trabalhamos três meses, mas, depois, somos obrigados a parar, nem sempre compensa ir ao mar, porque não sabemos se conseguimos apanhar peixe suficiente para equilibrar o que gastamos em material e combustível", lamenta Manuel Joaquim, um dos pescadores mais antigos do porto da Gâmbia.
Paulo Carmo considera "necessário reunir esforços" para que "haja um maior controlo sobre as empresas, para reverter a situação e voltar a haver essas espécies" que agora escasseiam.
A Quercus, segundo o ambientalista, "já solicitou e está a aguardar reuniões com as empresas".
O vereador do ambiente da Câmara de Setúbal, Manuel Pisco, esclarece, por seu turno, que "as empresas com atividade industrial que laboram na Mitrena têm de ter uma Declaração de Atividade Ambiental (DIA) atualizada", mas que a monotorização é feita pela APA.
De acordo com a APA, que faz a monotorização das águas através da Administração da Região Hidrográfica do Alentejo, "todas as principais descargas pontuais de origem industrial possuem sistemas de tratamento com grau de eficiência apreciável", o que é comprovado regularmente "através do controlo da qualidade dos efluentes descarregados, quer por entidades gestoras dessas infraestruturas, quer por ações de fiscalização".
A Reserva Natural do Estuário do Sado é a segunda maior do país e uma das mais importantes em termos de riqueza natural, paisagística, de flora e fauna. Abrange os concelhos de Setúbal, Palmela, Alcácer do Sal e Grândola. No município de Setúbal compreende as freguesias de Gâmbia, Pontes e Alto da Guerra e Praias do Sado.


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