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segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Eles que venham cá que a gente canta-lhes um fado!


Criticas Soltas - by Joana Teófilo Oliveira


Eles que venham cá que a gente canta-lhes um fado!  
Vivemos num tal estado de desânimo colectivo que a própria distinção do fado como património imaterial da humanidade soou como uma espécie de homenagem póstuma ao nosso estado de alma. Sendo o fado a canção da saudade, nós por cá todos temos ‘saudade’ do tempo em que vivíamos a pensar que tínhamos a nossa ‘casinha’, dois ou três carros – e uma vespa para a filha mais nova -, 30 dias de férias, 13 feriados e meia dúzia de pontes. De trabalhar sete horas e ter mais três horas para o pequeno-almoço, almoço e dois cafés e meia dúzia de idas à porta para fumar à moda do ‘zé que fumas’. Agora vivemos nesta ‘estranha forma’ de vida em que nos retiram quase tudo. O fado de cada um é, agora, saber que temos ‘esta triste sina’ de que vamos ter uma ‘vida malvada’ e isso já não é fado, é mesmo vontade de dar xutos e pontapés às ‘cabeças de vento’ que nos meteram nesta enorme ‘caldeirada’. 


Vá-se lá saber porquê, deram ao fado o estatuto de Património Imaterial da Humanidade. Desde o final de Novembro, um berbere que se queira queixar da vida pode fazê-lo cantando 'Era o Vinho' sem risco de estar a trair a sua cultura, uma vez que o fado, sendo até há pouco uma canção de Lisboa, [e às vezes de Coimbra] pertence desde agora a todo o género humano. Em Nova Iorque, os corretores de Wall Street expressam as suas perplexidades sobre o preço das acções de um qualquer banco nacional cantando: "Ó comadre Maria Benta, o seu preço vai melhor? A queda não é tão forte que não possa estar pior".
E em Frankfurt fizeram uma versão do 'Vou Dar de Beber à Dor' com a música do coro dos peregrinos da senhora que tem um nome parecido com Mértola, uma vez que a expressão Ich werde trinken, um den Schmerz zu geben não fica muito bem com a música original da conhecida 'Casa da Mariquinhas'.
Terá o marido da (quase Fadista) Carla Bruna telefonado apressado ao nosso primeiro – cuja voz barítono é conhecida – e lhe cantado. Oh Pedro, ‘não venhas tarde’. Durão Barroso, presente no mesmo encontro lá para os lados da Bélgica, fez uma adaptação do ‘Mané Cinhé’, brindando o Presidente dos Estados Unidos com a saudação: ‘Ande cá, meu preto, preto, ó Mané Chiné. Meu queimadinho do sol Bali-banda, li-banda, que é Bali-banda ó Mané Chiné”. Obama, ‘com duas lágrimas de orvalho’ lá disse: Yes! Vocês podem! Porreiro, pá! Gritou o filósofo lá da ‘rua do silêncio”.
Quem não achou piada à coisa foram os verdadeiros gregos que qualquer dia só vão à ‘feira de Castro’ P'ra comprar um par de meias e vêm de lá com umas chanatas e dois brincos nas orelhas porque não há euros para mais nada.
Enfim, não há canto do mundo onde não se cante o fado, quando até há pouco isso estava confinado aos bairros de Lisboa, Tóquio ou a qualquer casa portuguesa espalhada pelo mundo. O próprio Duarte Lima quando lhe perguntam pela ‘dona Rosalina’ e pelo processo do BPN responde com ‘tudo isto é fado’, curiosamente a mesma canção de embalar que o ministro Álvaro escolheu como lema do seu destino no governo português.
O Rei de Espanha foi visto a trautear ‘foi Deus’: Não sei, não sabe ninguém. Por que canto o fado neste tom magoado de dor e de pranto e neste tormento... todo o sofrimento!” e Paulo Portas escolheu ‘o barco negro’ porque já está farto dos submarinos. Vitor Gaspar canta baixinho, como aquela voz que o patinho fazia para os meninos dormirem, que ‘não é desgraça ser pobre” e o Paulo Macedo ‘nem às paredes confessa’ o que quer fazer à saúde. E Miguel Relvas entrou há uns meses na RTP e por lá mantém a ‘triste sina’ de cantar o hino do PDS, para ele aquilo é um fado e pêras! E Pedro Passos Coelho, que cantará? 'Sabe-se lá"!

António José Seguro lá vai a cantar ‘ai as gentes, ai a vida’ e Jerónimo de Sousa com ‘abril’ na voz nunca se farta de perguntar: e o povo pá? Louçã, que já teve dias melhores, só já canta ‘o meu é teu’.  E até já me chegou aos ouvidos que, em Milão, se ouviu dizer que Berlusconi só canta ‘vamos os dois para a farra’ ou ‘rapariga tola, tola’. Mais a norte, na Finlândia anda tudo a dizer que ‘disse mal de ti, e o Cameron, na Inglaterra, vai cantado a cantiga da ‘solidão´. E até o Papa já cantarola ‘ai Maria’ nas suas missas dominicais. E também já me disseram, que por cá, a nossa simpática presidente da Câmara de Palmela, passa a vida a cantar “oiça lá ou senhor vinho’ e até o meu presidente de junta, o senhor Valentim Pinto, já aprendeu umas frases dos ‘desejos vãos’ e o vereador Álvaro, também ele um homem das cantorias em dialecto caramelo, vai refazer a próxima canção: ‘povo que lavas’ na Ribeira da Salgueirinha.
Mas a verdade é que tudo isso nasceu de um grande engano! O que Portugal queria, na verdade, era património, mas não do imaterial. Foi isso que os governantes deste e do outro governo andaram a pedir de mão estendida por esse mundo fora. E o mundo decidiu recompensar-nos com muita honra, mas nenhum dinheiro. Uma coisa muito imaterial?! Amália teria respondido: ‘O timpanas!”.
Nem um cêntimo, nem – vá lá – um escudo. Nem um chavo! Nada! Totalmente imaterial! Ora o que nós precisamos, minhas senhoras e meus senhores, é de capital! E não da capital do Fado porque isso já temos desde mil oitocentos e tal, mas de capital a sério: a ver se me entendem. Dinheirinho,  mónei mónei,  bagulho, pilim,  el contado... porque contado ninguém acredita. Estes gajos enganaram-se! Dão-nos o património imaterial e nós aflitinhos de capital. Como dizia a grande Hermínia Silva, “nós à rasca” e eles a dar nada!
Eles que venham cá que a gente canta-lhes um fado!  

Joana Teófilo Oliveira
Estudante de Ciências da Educação
Quinta do Anjo 

(Escreve todas as segundas-feiras na rubrica Criticas Soltas)









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