Transtejo quer cobrar mais a turistas na travessia entre Cacilhas e Cais do Sodré

A administração considera que o turismo deve pagar mais e ajudar a financiar o serviço público

Hoje, atravessar o Tejo entre Cacilhas, em Almada, e o Cais do Sodré custa dois euros para quem compra um bilhete ocasional. Um valor que pode parecer pequeno para quem chega a Lisboa como turista, embarca no cais e atravessa o rio para conhecer a outra margem. E, segundo a administração da Transtejo, são cada vez mais os visitantes que fazem essa viagem. É precisamente esse movimento que a empresa quer começar a tratar de outra forma. A Transtejo diz que mais de 90 por cento dos bilhetes ocasionais entre Cacilhas e Cais do Sodré são usados por turistas. Os passes ficam de fora da proposta.
Travessia entre as duas margens poderá ficar mais cara para turistas

A Transtejo prepara-se para pedir autorização para aumentar o preço dos bilhetes ocasionais naquela ligação para um valor acima da inflação, mantendo o preço dos passes. A mudança não é apresentada pela administração apenas como uma atualização tarifária, mas como uma tentativa de separar aquilo que é transporte público regular daquilo que considera ser utilização turística.
"Mais de 90 por cento dos bilhetes ocasionais que eu vendo na travessia entre o Cais do Sodré e Cacilhas, em Almada, são serviço turístico", afirmou Rui Rei, presidente do Conselho de Administração da Transtejo Soflusa, ouvido na Comissão de Mobilidade e Transportes da Assembleia Municipal de Lisboa.
A conclusão da empresa é clara: quem atravessa o Tejo integrado numa visita turística não deverá representar o mesmo custo para o sistema público que quem utiliza diariamente o barco para trabalhar, estudar ou regressar a casa.
"O Orçamento do Estado não tem de financiar o turismo, o turismo tem de pagar o preço e tem de financiar o serviço público", defendeu Rui Rei.

A viagem de dois euros que está a mudar de significado
A ligação Cacilhas–Cais do Sodré é uma das mais conhecidas travessias do Tejo e uma porta de entrada natural em Almada para quem visita Lisboa. O problema identificado pela administração está nos chamados bilhetes ocasionais, comprados por quem não utiliza regularmente a rede.
Para um passageiro habitual, a lógica é a do transporte público. Para um visitante que compra um bilhete de dois euros, atravessa o rio e transforma a viagem numa parte do passeio, a TTSL entende que existe uma componente turística que pode gerar mais receita.
É essa diferença que a empresa pretende explorar. A administração quer, aliás, ir mais longe: voltar a prestar diretamente serviço turístico. O objetivo não será concorrer com os operadores privados, mas criar uma oferta própria capaz de transformar o crescente movimento de visitantes em receitas para a empresa.
"Não é competir com os privados", explicou Rui Rei, defendendo antes a possibilidade de prestar também "bom serviço turístico" e "gerar daí receitas interessantes e importantes". O estudo da futura oferta turística está já em fase final.

O objetivo é reduzir a dependência do Estado
Por trás da discussão sobre o preço de uma viagem de barco está uma questão financeira muito maior.. "Nós temos de atualizar as receitas, porque nós dependemos em 68 por cento do Orçamento do Estado e temos de chegar aos 50 por cento", afirmou Rui Rei.
A eventual subida do bilhete ocasional entre Cacilhas e o Cais do Sodré encaixa assim numa estratégia mais ampla: fazer com que quem utiliza o serviço em contexto turístico contribua mais para financiar a operação pública. Os passes, pelo contrário, deverão manter o preço.

Menos supressões e dez barcos elétricos no Tejo
A discussão sobre preços acontece ao mesmo tempo que a empresa tenta recuperar a confiança dos passageiros depois de um período marcado por problemas na operação.
A TTSL repôs em Novembro a oferta de serviço público e afirma ter reduzido em mais de 90 por cento as supressões que registava diariamente.
Para essa recuperação contribuiu a entrada em operação de 10 barcos elétricos, que se juntaram a 20 embarcações a diesel. Desde o início do mandato da atual administração, a empresa investiu sete milhões de euros em manutenção, segundo Rui Rei. E a estratégia não termina na frota que já está a navegar.

Alhos Vedros e Parque das Nações podem entrar no mapa
A Transtejo tem em estudo duas novas possibilidades de ligação: uma a Alhos Vedros, concelho da Moita, e outra ao Parque das Nações, em Lisboa.
No caso do Parque das Nações, o projeto está mais avançado. A empresa está a concluir um protocolo com a Câmara Municipal de Lisboa para tornar a ligação efetiva. "Estamos a terminar um protocolo [com a Câmara de Lisboa] para que o Parque das Nações se torne efetivo", revelou Rui Rei.
O responsável não quis avançar mais detalhes sobre a futura operação, mas adiantou que, em termos gerais, não deverá ser muito diferente daquilo que existe atualmente, procurando garantir "serviço de qualidade às pessoas".

Uma frota mais pequena e elétrica
A nova frota deverá privilegiar barcos mais pequenos e elétricos
A próxima grande mudança poderá chegar à própria dimensão dos barcos. A empresa pretende apresentar ao Governo, até ao final do primeiro trimestre do próximo ano, o plano de renovação da frota. A administração defende embarcações mais pequenas, com capacidade até 300 passageiros, e mais flexíveis na operação. 
A preferência vai novamente para a propulsão elétrica. "De preferência elétricos, a operação elétrica é, de facto, muito mais barata e eficiente", afirmou Rui Rei.
É uma mudança de escala e de conceito: em vez de depender apenas de grandes embarcações para assegurar as travessias, a TTSL quer uma frota capaz de se adaptar melhor à procura e às diferentes ligações que poderão nascer no Tejo.

A empresa quer voltar a ganhar passageiros e confiança
A Transtejo Soflusa assegura as ligações fluviais entre Lisboa e Seixal, Montijo, Cacilhas, Barreiro e Trafaria/Porto Brandão, no distrito de Setúbal, e transportou 21 milhões de passageiros em 2025.
Para este ano, a empresa espera um ligeiro crescimento desse número, o que representaria uma inversão da tendência de descida registada nos últimos anos.
Para Rui Rei, a recuperação não passa por nenhum golpe de sorte. Passa por algo bem mais simples e, ao mesmo tempo, decisivo para qualquer rede de transporte público: confiança.
"Não tem nada de milagre, o que é preciso é dar confiança e consistência aos utilizadores de transporte público", afirmou.
Porque quando essa confiança desaparece, diz o responsável, o passageiro procura outra solução: "se perdemos a confiança num transporte, nós encontramos outra solução, seja o automóvel ou outro".
É neste ponto que os dois euros de hoje ganham outro significado. A Transtejo quer que o passageiro habitual continue a ter acesso ao transporte público sem que o passe seja penalizado, enquanto quem atravessa o Tejo ocasionalmente para fazer turismo poderá passar a pagar mais. Ao mesmo tempo, a empresa prepara novas ligações, uma frota elétrica e uma oferta turística própria.
O preço de uma viagem entre Cacilhas e o Cais do Sodré pode, por isso, estar prestes a mudar. Mas a verdadeira mudança que a Transtejo está a preparar é maior: fazer do Tejo não apenas uma passagem entre duas margens, mas também uma fonte de receita capaz de ajudar a financiar o próprio serviço público.

Agência de Notícias 
Fotografia: Paulo Jorge Oliveira 


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