Setúbal abre caminho à classificação do histórico Mercado do Livramento

Proposta da CDU foi aprovada em reunião de Câmara e dá início à avaliação patrimonial do edifício

Há lugares que deixam de ser apenas edifícios para passarem a fazer parte da memória de uma cidade. Em Setúbal, o Mercado do Livramento é um desses lugares e, no ano em que assinala 150 anos desde a inauguração do primeiro mercado, prepara-se para dar mais um passo no reconhecimento desse património: a Câmara Municipal aprovou a abertura do procedimento que poderá levar à sua classificação como Imóvel de Interesse Municipal.
O Mercado do Livramento é uma das imagens de marca de Setúbal

A proposta, apresentada pela CDU, foi aprovada na reunião de Câmara de 23 de Setembro e dá início a um processo de avaliação técnica e patrimonial que terá ainda de cumprir várias etapas antes de uma eventual classificação. A decisão surge 150 anos depois da inauguração do primeiro Mercado do Livramento, a 31 de Julho de 1876.
Segundo a Câmara de Setúbal, a abertura do procedimento "permite iniciar a avaliação técnica e patrimonial necessária à eventual classificação do edifício, tendo em conta o valor histórico, arquitetónico, cultural e social, e assegurar a realização das consultas e dos pareceres previstos na lei".
É um processo que pretende transformar num reconhecimento formal aquilo que há muito está presente na relação dos setubalenses com o mercado: a ideia de que o Livramento é muito mais do que um espaço de comércio.

Um edifício que guarda 150 anos de memória
O primeiro Mercado do Livramento abriu portas em 1876, mas é o edifício atual, inaugurado em Junho de 1930, que se tornou uma das imagens mais fortes da cidade.
A própria autarquia sublinha que o atual edifício se tornou uma das "referências arquitetónicas e comerciais da cidade", assumindo "particular relevo na memória e identidade local".
Essa identidade está também inscrita nas paredes. Entre os elementos patrimoniais que serão considerados no processo estão os painéis de azulejos de temática regional instalados entre 1929 e 1930 e os conjuntos colocados na entrada norte em 1944. 
O mercado encontra-se atualmente inventariado no Plano Diretor Municipal como bem imóvel de interesse cultural, mas esse reconhecimento não corresponde ainda à classificação formal como Imóvel de Interesse Municipal.
A Câmara explica que o procedimento agora aberto permitirá avaliar os elementos históricos, arquitetónicos, culturais e patrimoniais do edifício, bem como assegurar a participação dos interessados e as restantes formalidades previstas na lei.
Depois da consulta pública e da análise dos pareceres obrigatórios da tutela, nomeadamente da CCDR e do Património Cultural, serão submetidos a votação o relatório final e a proposta de classificação em reunião da Câmara Municipal.

Um mercado que também se vê quando as bancas fecham
Mas os 150 anos do Livramento não estão a ser assinalados apenas através do processo de classificação.
O histórico mercado está também a mudar de rosto. A intervenção inclui a pintura integral do edifício, a renovação da iluminação exterior e a instalação de peças decorativas luminosas nas fachadas frontal e laterais.
E a nova iluminação vai contar, à sua maneira, a história do que acontece dentro do mercado durante o dia. Peixes, chocos, polvos, frutas, legumes, pão, queijos, uma vaca e um porco passam a fazer parte da paisagem exterior do Livramento.
A lógica é quase tão simples quanto divertida: se faz parte daquilo que se vende no mercado, pode acabar também na fachada.
As peças decorativas foram suportadas integralmente por nove empresas mecenas, numa intervenção que pretende reforçar a presença do edifício na paisagem urbana de Setúbal.
No entanto, a nova imagem do Livramento não reúne consenso. Para uns, as figuras luminosas levam para a fachada a cor e a variedade que sempre fizeram parte da vida do mercado. Para outros, mudam demasiado a imagem de um edifício que ocupa um lugar especial na memória de Setúbal. Entre quem critica e quem aplaude o "novo mercado", há algo que permanece: por detrás da fachada estão as bancas, as pessoas e as histórias que fizeram do Mercado do Livramento uma das marcas da cidade.

"Um ex-libris de Setúbal"
O Mercado do Livramento atravessou gerações de setubalenses
A dimensão do Livramento não se mede apenas pelos azulejos ou pela arquitetura. Em Julho, durante as comemorações dos 150 anos, o vereador Paulo Maia descreveu o mercado como "um ex-libris de Setúbal", destacando o papel que desempenha na vida económica e social da cidade. Na mesma ocasião, classificou-o como "um equipamento municipal estruturante, um símbolo de modernidade, um espaço onde se socializa e um elemento identitário" da memória coletiva setubalense.
A relação com a cidade também passa pelo turismo. O mercado recebe visitantes atraídos pelos produtos, mas também pelo edifício, pelos azulejos e pela experiência de entrar num espaço que continua a funcionar como mercado tradicional.
Paulo Maia sublinhou então que muitos turistas ficam surpreendidos "com a beleza do edifício", mas também com "os cheiros que o invadem, com o saber e a simpatia" de quem ali trabalha e, sobretudo, com a qualidade dos produtos, com o peixe e os restantes frutos do mar em destaque.
É essa mistura entre património e vida quotidiana que torna o Livramento particularmente difícil de separar da própria identidade de Setúbal.
Não é apenas um edifício antigo. É um lugar onde se compra, se vende, se conversa, se encontra gente e se reconhece uma parte da cidade.

Uma nova vida para um mercado de 150 anos
Ao longo das décadas, o Livramento atravessou mudanças, obras de requalificação e novas formas de relação com a cidade, mantendo a sua função comercial e ganhando também uma dimensão cultural e turística.
A Câmara considera que o mercado é "um reconhecido símbolo de Setúbal no país e além-fronteiras" e defende que cabe à comunidade assegurar a proteção desse património.
Agora, o procedimento de classificação abre uma nova etapa. Ainda não existe uma classificação definitiva: há pela frente avaliação, consulta, pareceres e uma decisão final dos órgãos municipais competentes.
Mas o momento não deixa de ser simbólico. E Setúbal prepara-se para decidir se esse lugar que a cidade há muito reconhece como seu deve passar também a ter, oficialmente, o estatuto patrimonial correspondente.

Agência de Notícias 
Fotografia: Paulo Jorge Oliveira 



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