Cante Novo de Pinhal Novo conquista ouro e faz história em Barcelona

Grupo do Bairro da Cascalheira conquistou dois diplomas de ouro e viu dois solistas serem distinguidos na Catalunha

Há viagens que se fazem de avião, de estrada ou de comboio. E há outras que começam muito antes de se fazer a mala. Começam num bairro, numa sala onde algumas pessoas se juntam para cantar, numa vontade quase teimosa de manter viva uma tradição e num sonho que, naquele momento, parece grande demais para as vozes que o alimentam.  Foi assim que nasceu o Cante Novo, no Bairro da Cascalheira, em Pinhal Novo. E foi assim que, pouco mais de um ano depois, essas vozes atravessaram a fronteira, chegaram à Catalunha e fizeram aquilo que talvez ninguém imaginasse quando tudo começou: levaram o nome de Pinhal Novo e de Portugal para o palco de uma competição coral internacional e regressaram de Barcelona com ouro.
Do Bairro da Cascalheira para o topo de Barcelona

No XV International Choir Festival & Competition Cançó Mediterrània / International Pau Casals Choir Competition, o grupo conquistou o 1.º lugar na categoria de Folclore, com Diploma de Ouro e 90,25 pontos, e alcançou o 2.º lugar em Música Sacra, novamente com Diploma de Ouro, com 90 pontos. E houve ainda duas distinções individuais que elevaram ainda mais a conquista: André Vinhas e Luís Caetano foram considerados os melhores solistas da competição.
Barcelona não foi apenas o destino de uma viagem. Foi o palco onde um projeto nascido numa comunidade de Pinhal Novo mostrou até onde pode chegar quando tradição, talento e vontade se juntam.

De 11 vozes a uma família de 32 cantadores
Em Janeiro de 2025, quando tudo começou na Associação de Moradores do Bairro da Cascalheira, eram apenas 11 cantadores. Havia a vontade de cantar Cante Alentejano, mas sobretudo a vontade de construir algo em conjunto.
Hoje, o Cante Novo reúne cerca de 32 cantadores, entre os 13 e os 82 anos. É uma diferença de gerações que, em vez de separar, acaba por dar ao grupo uma das suas características mais bonitas: jovens e adultos partilham o mesmo espaço, aprendem uns com os outros e encontram na voz um território comum.
O grupo organiza-se entre primeiras vozes, ou ponto, segundas, ou alto, e baixos, respeitando a estrutura tradicional do Cante. Mas também soube perceber que preservar não significa congelar.
É esta capacidade de juntar gerações sem perder a identidade que ajuda a explicar a força que o Cante Novo foi conquistando em tão pouco tempo.

Primeiro conquistou a terra, depois atravessou a fronteira
Antes dos prémios internacionais, houve o público de casa. O Cante Novo foi crescendo através das atuações em diferentes momentos da vida cultural do Pinhal Novo, criando uma ligação com uma comunidade que rapidamente começou a reconhecer aquelas vozes como parte da sua própria paisagem.
Não era apenas música. Havia uma identificação imediata com aquilo que estava a acontecer. A cada atuação, o grupo ganhava experiência, confiança e público. E, enquanto Pinhal Novo acompanhava esse crescimento, o projeto preparava-se, talvez sem ainda o saber, para um desafio muito maior.
Na Catalunha, já não havia a proximidade de quem conhecia os cantadores, as famílias ou a história do grupo. Havia outros coros, outras culturas e outras formas de cantar.
Foi aí que o Cante Novo levou consigo aquilo que não se ensaia numa sala: a terra de onde veio, a sua maneira de cantar e as raízes que lhe dão identidade.
Como o próprio grupo escreveu depois da competição, levou "as nossas vozes, as nossas modas, as nossas raízes". E essas raízes falaram alto.

O momento em que Barcelona respondeu
Quando chegaram os resultados, a dimensão da viagem ganhou outra escala. O 1.º lugar em Folclore, com 90,25 pontos e Diploma de Ouro, colocou o Cante Novo no primeiro lugar da categoria. Em Música Sacra, o grupo voltou a subir ao pódio, conquistando o 2.º lugar, com 90 pontos e novo Diploma de Ouro.
Depois vieram André Vinhas e Luís Caetano. Os dois solistas foram distinguidos como os melhores da competição, acrescentando uma dimensão individual a uma vitória construída por todo o grupo.
A reação não escondeu a surpresa. Na mensagem publicada nas redes sociais, o Cante Novo confessou: "Ainda estamos a tentar perceber tudo o que aconteceu. Estamos arrepiados, emocionados e quase sem palavras".
Talvez seja precisamente essa a imagem que melhor acompanha a conquista. Porque, quando um projeto com pouco mais de um ano chega a uma competição internacional e regressa com dois Diplomas de Ouro, um primeiro lugar, um segundo lugar e os dois melhores solistas, qualquer palavra parece pequena.
E quando chegaram a casa, a emoção ganhou outra forma: o Cante Novo foi recebido em festa por todos aqueles que acompanharam a sua caminhada.

Uma vitória que tem muitos nomes
O Cante Alentejano levou Pinhal Novo mais longe
Há prémios que pertencem aos vencedores. E há conquistas que começam muito antes de quem sobe ao palco. O Cante Novo fez questão de lembrar as famílias e os amigos, as As Maganas, a Associação de Moradores do Bairro da Cascalheira, os padrinhos Construções Costa & Nicolau, as entidades, patrocinadores e apoiantes que ajudaram a tornar possível a viagem à Catalunha.
No centro desse agradecimento está também o maestro José Ricardo, a quem o grupo dedicou uma das frases mais fortes da mensagem publicada depois da competição: "Estes resultados têm muito de ti".
É uma frase curta, mas diz muito. Por trás dos minutos em palco estão ensaios, exigência, aprendizagem, disciplina e muitas horas de trabalho que o público nunca vê.E talvez por isso a vitória tenha sido recebida como algo maior do que uma classificação. É o reconhecimento de um percurso que foi sendo construído por muitas mãos e muitas vozes.

Quando uma tradição encontra quem a queira continuar
O Cante Alentejano é Património Cultural Imaterial da Humanidade, mas nenhuma tradição permanece viva apenas porque foi reconhecida. Precisa de pessoas. Precisa de quem a aprenda, de quem a cante, de quem a transmita e, sobretudo, de quem encontre nela uma razão para continuar.
É isso que o Cante Novo está a fazer em Pinhal Novo. Junta gerações que, noutras circunstâncias, talvez tivessem pouco em comum e coloca-as lado a lado perante uma mesma melodia. Dá aos mais novos um contacto vivo com uma expressão cultural que poderia parecer distante e, ao mesmo tempo, oferece aos mais velhos novas vozes para aquilo que conhecem há décadas.
E há algo particularmente bonito nessa imagem: um grupo nascido num bairro consegue levar uma tradição alentejana a um palco internacional sem deixar para trás o lugar onde tudo começou.

"O Cante Alentejano tem lugar entre as grandes vozes do mundo"
No regresso, o Cante Novo escreveu que partiu para Barcelona com um sonho: "mostrar o nosso Cante". Voltou com muito mais do que isso. Voltou com a certeza de que a sua voz consegue dialogar com outras culturas e ser reconhecida muito para lá das fronteiras onde nasceu. Voltou com dois Diplomas de Ouro, dois lugares no pódio e duas distinções individuais. Mas, acima de tudo, voltou com uma história para contar.
Uma história que começou em Janeiro de 2025, quando 11 pessoas decidiram juntar as suas vozes numa associação de moradores de Pinhal Novo, e que pouco mais de um ano depois levou cerca de 32 cantadores até à Catalunha.
A distância entre esses dois momentos mede-se em quilómetros. O caminho que os une mede-se em trabalho, amizade, tradição e coragem para sonhar. 
E talvez seja por isso que a frase publicada pelo grupo depois da conquista tenha tanta força: "Há pouco mais de um ano, tudo isto era apenas um sonho. Hoje, o Cante Novo deixou a sua marca em Barcelona".
Agora já não é apenas um sonho. É uma história que Pinhal Novo pode contar. E uma história que Barcelona ajudou a escrever. 
O próprio grupo resumiu tudo numa frase que já parece destinada a ficar associada à sua história: "O ouro é nosso. A conquista é de todos!"

Agência de Notícias 
Fotografia: Paulo Jorge Oliveira 

 

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