Gente da Nossa Terra: Herlander Vinagre, o homem que nunca deixou de servir Pinhal Novo

"A minha terra favorita": a história de um homem que nunca deixou de participar

Há homens que passam pela história de uma terra e há outros que ajudam a escrevê-la. Herlander Vinagre pertence a essa segunda família. Aos 73 anos, continua a ser uma presença ativa em Pinhal Novo, entre o trabalho na Junta de Freguesia, o associativismo, o Clube Desportivo Pinhalnovense e os encontros que fazem da vila um lugar de gente e de memórias partilhadas. Na rubrica Gente da Nossa Terra, a ADN foi conhecer melhor o homem que muitos reconhecem dos relvados, das Festas Populares e da vida pública, mas cuja história começa muito antes dos cargos e das responsabilidades. Começa numa infância de pés descalços, brincadeiras de rua e tardes passadas no Pinhal da Salgueirinha, quando a avó era a companhia de todos os dias e o mundo ainda cabia nas pequenas coisas.
Herlander Vinagre, uma vida inteira ligada a Pinhal Novo

Há homens que levam uma terra no bilhete de identidade. E há outros que a levam para todo o lado: no trabalho, nas amizades, nas memórias, nas camisolas que vestiram e nas festas que ajudaram a manter de pé. Herlander Vinagre é um desses homens. Aos 73 anos, continua a viver Pinhal Novo com a inquietação de quem nunca aprendeu a ficar parado e com o orgulho de quem olha para a sua terra e ainda encontra razões para se emocionar.
Nasceu a 4 de Outubro de 1952, numa vila que conheceu de pés descalços e botins de borracha, de brincadeiras nas ruas e de tardes passadas no Pinhal da Salgueirinha. Cresceu entre o café feito pela avó, os jogos de caricas e de bola, e uma escola da qual, confessa, por vezes preferia fugir. Mais tarde, vieram o futebol, as Festas Populares, o associativismo e a Junta de Freguesia. Caminhos diferentes, mas com uma coisa em comum: as pessoas.
É essa vida de entrega, feita de trabalho e de convívio, que Herlander Vinagre partilha na rubrica Gente da Nossa Terra. Uma conversa sobre o homem que foi, o homem que continua a ser e a vila que nunca deixou de chamar sua.

O menino do Pinhal da Salgueirinha
Antes dos relvados e das responsabilidades, havia um menino que acompanhava a avó enquanto os pais iam trabalhar. Havia o café da cafeteira, os caminhos do pinhal e uma infância vivida com a liberdade de quem encontrava uma brincadeira em qualquer lugar.
"Dos meus primeiros anos de infância, recordo andar de pé descalço, com botinhos de borracha, fugir à escola e andar no Pinhal da Salgueirinha. A minha avó também me ficou muito na memória, porque os meus pais iam trabalhar e eu ficava entregue a ela", recorda.
São lembranças que Herlander guarda com uma saudade sem dramatismos, mas que deixam perceber a importância daquele tempo. A infância não aparece como uma fotografia distante. Está presente na maneira como fala da vila, das pessoas e dos valores que trouxe consigo.
"São momentos que me ficaram na memória e que recordo com alguma saudade, digamos assim", confessa.
Nas ruas, a diversão não precisava de muito. Um arco, umas caricas, uma bola e a companhia dos outros miúdos chegavam para encher os dias.
"Jogar ao bugalho, andar com o arco, jogar à carica e à bola. Isto não podia falhar, era fundamental", conta.
A honestidade, a frontalidade e a amizade são os valores que identifica como herança desses primeiros anos. Palavras simples, mas que atravessam o resto da conversa e ajudam a perceber o homem que se tornou. "Ser frontal, ser honesto e amigo do amigo são praticamente as coisas que me guiam, que me ficaram da infância", afirma.

A terra favorita
Pinhal Novo cresceu. Herlander viu as estradas mudarem, as escolas aparecerem e as condições de vida melhorarem. Viu uma vila que conheceu de outra maneira aproximar-se da dimensão de uma cidade. Mas a evolução não apagou a ligação ao lugar onde nasceu.
"Houve uma evolução bastante grande. Deu-se um passo gigante em relação ao meu tempo de infância, em termos de escolas, estradas e de todas as condições possíveis e imaginárias. Antigamente, Pinhal Novo não tinha nada a ver com o que é agora", recorda.
Quando lhe pedimos uma definição da terra numa só frase, não procura palavras difíceis nem uma resposta preparada. Diz apenas: "A minha terra favorita".
É talvez a frase mais pequena de toda a entrevista e, ao mesmo tempo, uma das que mais dizem sobre Herlander. Porque a sua relação com Pinhal Novo não se explica apenas pelo lugar onde nasceu. Explica-se pela forma como escolheu estar presente.
Aos 73 anos, a casa raramente é o destino final do dia. Há reuniões, coletividades, futebol, Junta de Freguesia e amigos. Há sempre qualquer coisa para fazer, alguém para ajudar ou um lugar onde a sua presença continua a contar.
"Passo muito pouco tempo em casa. Estou ligado ao associativismo, sou secretário na ARPI, nos reformados, sou membro da Junta de Freguesia, faço parte da Assembleia Geral do Clube Desportivo e jogo nos veteranos. Tenho uma ocupação muito grande", explica.
Não é uma queixa. É quase uma apresentação. Herlander fala da atividade como quem fala de uma necessidade natural, de uma maneira de viver que não se desliga quando termina o horário de trabalho.

A camisola, o relvado e uma homenagem que ficou
A paixão pelo futebol nasceu cedo, nas brincadeiras de infância e nos primeiros pontapés nas escolas. Aos 14 anos, Herlander começou a carreira no Clube Desportivo Pinhalnovense, numa época em que até entrar numa equipa exigia autorização dos pais.
"Na altura, ainda era preciso pedir aos pais autorização para jogar. Não aceitavam assim com muita facilidade a saída dos filhos de casa para jogar à bola, mas consegui e aos 14 anos já fazia parte da equipa de futebol juvenil do Pinhalnovense", recorda.
O futebol trouxe-lhe momentos de competição, amizades e histórias que ainda hoje se contam na vila. Uma delas envolve um cartão de árbitro, um episódio insólito que Herlander recorda com humor.
"Um dos momentos engraçados foi tirar o cartão ao árbitro e mandá-lo fora. Esse ficou registado e ainda hoje se fala disso aqui no Pinhal Novo", conta.
Mas há uma memória que se sobrepõe às outras. A 5 de Outubro de 1984, recebeu uma festa de homenagem no clube. Foi, segundo recorda, a primeira vez que um jogador recebeu uma celebração desse género em Pinhal Novo.
"A minha festa de homenagem foi um momento muito marcante. Pela primeira vez, foi feita uma festa de homenagem no Pinhal Novo a um jogador, e esse jogador fui eu. Ainda hoje recordo esse momento com bastante orgulho", afirma.
O futebol não terminou quando deixou os relvados. Herlander continua ligado ao clube, participa na equipa de veteranos e mantém a relação com uma instituição que faz parte da sua história. A camisola, mesmo quando já não é a mesma, continua a ter significado.

Quando as festas são uma questão de coração
Vinte e seis anos ligados às Festas Populares
Há uma altura da conversa em que o futebol dá lugar às Festas Populares. E é aí que se percebe que a entrega de Herlander à comunidade não ficou limitada ao desporto. Foram 26 anos ligados às festas, incluindo cerca de uma década na liderança da Associação das Festas Populares de Pinhal Novo.
O que o levou a dedicar tantos anos à organização de uma celebração que exige tempo, paciência, dinheiro e capacidade de lidar com imprevistos? A resposta não vem embrulhada em grandes palavras.
"Se calhar, o gosto pelo convívio, gostar de estar com os amigos, gostar de ser útil e gostar de ajudar. Isso levou-me, de facto, a manter-me muitos anos ligado às Festas Populares", explica.
Herlander não é homem de estar parado. A frase surge várias vezes, como uma espécie de assinatura pessoal.  "Não sou pessoa de estar sentado à porta de um café. Não tenho nada contra isso, mas não sou pessoa para estar parado. Gosto de atividade", afirma.
Durante o período em que esteve à frente das festas, enfrentou desafios que obrigaram a procurar soluções fora do habitual. A pandemia colocou em causa a realização dos eventos e a própria sustentabilidade da associação. Era necessário encontrar dinheiro para pagar a funcionária e manter a estrutura em funcionamento.
"Não podíamos deixar cair as festas. Se havia uma alternativa para fazer, nós tudo fizemos para o conseguir. E conseguimos. Foi talvez dos anos em que mais dinheiro se angariou para as Festas Populares", recorda.
A mudança para o recinto do Mercado Mensal foi outro dos momentos importantes. Herlander olha para essa decisão com respeito pelas direções e pelos sócios, sem procurar interferir no trabalho de quem veio depois.
"Cada direção tem a sua forma de trabalhar e nós temos que respeitar. Os sócios teriam que se pronunciar, por isso foi feita uma assembleia. Quem vier a seguir que continue ou que modifique, não vamos interferir no trabalho daqueles que lá estão", sublinha.
Mas, quando fala das festas, há um momento que continua a mexer consigo. Não é o palco, nem a multidão, nem o ruído dos dias de celebração. É o instante em que tudo termina.
"Se calhar, a parte final, do fogo de artifício. A parte que mais me emociona é o dever cumprido e nós olharmos assim para mais um ano, mais um êxito", confessa.
É uma imagem bonita porque revela o que está por trás da festa. O fogo de artifício é o espetáculo que todos veem. Para Herlander, é também o sinal de que o trabalho chegou ao fim, de que os problemas foram ultrapassados e de que a comunidade voltou a celebrar.

O bairrismo que faz falta
A ligação às Festas Populares também lhe deixou uma preocupação. Herlander considera que Pinhal Novo poderia revelar mais bairrismo, mais vontade de defender aquilo que é seu e de participar numa tradição que entende como parte da identidade da vila.
Recorda as dificuldades sentidas no peditório e as frases de quem via as festas como um incómodo. Não esconde a tristeza por essa distância, sobretudo quando pensa no esforço de quem trabalha para que a celebração continue. "Os pinhalnovenses não são tão bairristas como vemos noutras localidades. Há pessoas que dizem que não querem saber das festas para nada, que só lhes prejudicam. É de lamentar, porque as nossas Festas Populares são um marco da história de Pinhal Novo", afirma.
A crítica não nasce de alguém que esteja afastado da realidade. Vem de quem conhece o trabalho por dentro, quem sabe o que custa organizar uma festa e quem viu a comunidade juntar-se para a manter viva.
Para Herlander, o bairrismo não é apenas sair à rua nos dias de festa. É apoiar, participar, reconhecer o valor das instituições e perceber que uma terra também se constrói através das suas tradições.

O associativismo como lugar de encontro
Um apelo aos jovens para cuidarem da sua terra
Se há uma palavra que atravessa a vida de Herlander, é associativismo. Está nas festas, no clube, na ARPI e na Junta. Está na forma como entende a comunidade e na importância que atribui aos espaços onde as pessoas se encontram.
"O associativismo é o motor em todas as terras. É onde as pessoas se reúnem, onde se encontram e onde discutem os bons e os maus empreendimentos que se fazem nas terras", explica.
Mas o homem que dedicou décadas às coletividades também reconhece que o movimento associativo atravessa dificuldades. Há menos participação, menos juventude e dirigentes que começam a sentir o peso dos anos.
"O associativismo hoje em dia está um pouco pobre. As pessoas afastaram-se, falta juventude e há pessoas que já vão ficando cansadas. Não diria velhos, mas pessoas que já têm uma certa idade. Era bom que a juventude apostasse também no associativismo, porque faz muita falta", defende.
Como aproximar os mais novos? Herlander admite que não tem uma resposta fácil. Talvez seja necessário voltar ao contacto direto, bater à porta das pessoas, convidá-las, mostrar-lhes que as coletividades continuam a ser lugares de convívio e de partilha.
As redes sociais mudaram os hábitos. Hoje, há outras formas de ocupar o tempo, outras maneiras de comunicar e de procurar companhia. Mas Herlander sente que alguma coisa se perdeu quando o encontro deixou de acontecer tantas vezes frente a frente.
"O associativismo também servia para as pessoas conviverem e trocarem problemas da sua vida, falando umas com as outras. Hoje em dia há redes sociais, há tudo isso, que leva ao afastamento em grande parte do associativismo", observa. Não fala contra o presente. Fala a favor da proximidade.

Um autarca que aceitou o desafio
A entrada na vida autárquica aconteceu quase por acaso. Um convite feito quando ainda estava ligado às Festas Populares levou-o a integrar uma lista como independente. Aceitou porque nunca foi homem de virar as costas ao trabalho.
"Fui convidado para fazer parte de uma lista como independente e aceitei de livre vontade. Nos primeiros quatro anos fiz parte da Assembleia Municipal da Câmara de Palmela, depois fui convidado para a Junta de Freguesia e cá estou", recorda.
Já lá vão 16 anos. O trabalho autárquico trouxe outras responsabilidades, outras exigências e uma forma diferente de servir a terra. Herlander fala da política com pragmatismo, reconhecendo que nenhuma decisão consegue agradar a todos.
"A política local é como em todo o lado. Há pessoas a favor de umas coisas e pessoas contra outras. A política é isto mesmo, a troca de ideias. Nunca conseguimos agradar a toda a gente", afirma.
É uma visão marcada pela experiência de quem conhece a vida pública por dentro. Uma decisão pode ser boa para uns e má para outros. O importante, na sua perspetiva, é continuar a trabalhar.
"Estou a trabalhar para a minha terra", diz.
A frase parece simples, mas ganha outro peso quando se olha para os anos de associativismo, para as festas, para o clube e para a presença constante na vida da vila.

O homem que gosta de estar com os outros
Fora da Junta, das coletividades e do futebol, Herlander continua a encontrar prazer nas coisas que o fazem sentir vivo. Gosta de espetáculos de variedades, de uma boa revista, de um bailarico e de conviver com os amigos.
Quando lhe perguntamos pelas grandes paixões, responde com a descontração de quem não sente necessidade de construir uma personagem. "Com esta idade já não poderei ter assim grandes paixões. Gosto de ir a um bom espetáculo de variedades, gosto de uma boa revista, gosto de um bom bailarico, gosto de conviver com os amigos", conta.
E acrescenta, com a naturalidade de quem se reconhece no convívio: "Sou uma pessoa social, gosto de conviver com toda a gente, dou-me bem com toda a gente. Isso é que é bom".
Talvez seja precisamente aí que esteja uma das chaves do seu percurso. Herlander não fala da comunidade como uma ideia abstrata. Fala de pessoas concretas, de amigos, de colegas, de companheiros de clube e de gente com quem partilhou trabalho e momentos de vida.
É um homem que gosta de estar. E, em Pinhal Novo, estar também é uma forma de participar.

Uma cidade [ainda vila] para deixar aos mais novos
Quando pensa no legado que gostaria de deixar, Herlander não aponta para uma homenagem, uma placa ou uma obra com o seu nome. A resposta leva-nos de volta à Junta de Freguesia e a uma ambição que continua presente. "Sinceramente, não sei. Se calhar, a ideia de sair da Junta de Freguesia com Pinhal Novo como cidade", afirma. 
É um desejo que se cruza com a mensagem que deixa aos jovens. Para Herlander, o futuro da vila passa necessariamente por eles. Não apenas porque representam uma nova geração, mas porque trazem ideias, perspetivas e energia para continuar a construir a terra. "Que pensem no Pinhal Novo, porque o Pinhal Novo precisa dos jovens", apela.
E desenvolve a ideia com a convicção de quem sabe que uma comunidade não pode viver apenas das memórias dos que já fizeram muito. "A juventude é muito importante, a todos os níveis, porque são novas ideias e outras perspetivas. É importante que os jovens se unam, olhem pela sua terra e pensem que são pinhalnovenses", afirma.
O apelo é direto. Não pede aos jovens que repitam o passado. Pede-lhes que participem, que tragam novas ideias e que assumam a terra como sua.

Uma vida que continua
"Gosto de cá estar": uma frase para uma ligação que dura uma vida
No fim da conversa, quando lhe perguntamos o que mais gosta em Pinhal Novo, Herlander responde sem hesitar: "Gosto de cá estar". É uma frase que parece pequena diante de uma vida tão cheia, mas talvez seja a mais honesta de todas. Porque, por trás dos 26 anos ligados às Festas Populares, dos relvados, da Junta e das coletividades, existe uma ligação que não precisa de ser explicada com grandes discursos.
Herlander Vinagre continua a estar. Continua a trabalhar, a conviver, a jogar com os veteranos, a participar nas instituições e a olhar para o futuro da vila. Continua a reconhecer-se na terra que viu crescer, mesmo quando as estradas, as escolas e as condições mudaram.
A infância ficou para trás, mas não desapareceu. O menino que andava descalço no Pinhal da Salgueirinha ainda está presente no homem que gosta de conviver, que acredita no trabalho e que olha para Pinhal Novo como a sua terra favorita.
E talvez seja essa a verdadeira dimensão de uma vida dedicada à comunidade: não deixar apenas uma obra ou uma função, mas uma presença. A memória de alguém que esteve lá, que ajudou, que participou e que, mesmo depois de tantos anos, continua a dizer com orgulho que o Pinhal Novo precisa dos seus jovens. Porque há terras que se habitam. E há terras que se levam no coração.

Paulo Jorge Oliveira 
Fotografia: Paulo Jorge Oliveira 


Comentários