Javalis descem da Arrábida para Setúbal à procura de alimento

Animais revolvem jardins e contentores enquanto persiste o impasse sobre quem deve intervir

A presença de javalis na zona ribeirinha de Setúbal voltou a colocar em cima da mesa uma questão que se arrasta há anos: quem deve intervir quando os animais selvagens deixam a serra e entram no espaço urbano? Enquanto o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) defende que a sua atuação não abrange zonas urbanas, a Câmara Municipal de Setúbal sustenta que a responsabilidade pela captura dos animais cabe precisamente ao instituto.

A discussão deverá ter um novo capítulo na próxima quinta-feira, quando representantes das duas entidades se reunirem para procurar soluções para uma situação que se tem repetido nas últimas semanas. Ao final da tarde e durante a noite, os javalis têm descido da Serra da Arrábida e surgido na zona ribeirinha de Setúbal, onde encontram alimento e espaços verdes para procurar comida.
Mas, antes de ser uma questão de cidade, esta é também uma questão de equilíbrio entre o território selvagem e o espaço urbano.

No verão, a cidade torna-se uma fonte de alimento
O Clube da Arrábida acompanha a presença dos javalis na região há mais de uma década e aponta uma explicação para o aumento da presença destes animais junto à cidade durante os meses de verão.
Durante o inverno, os javalis encontram na Serra da Arrábida raízes e tubérculos que fazem parte da sua alimentação. Com a chegada dos meses mais quentes e a diminuição da disponibilidade de alimento na serra, os animais procuram alternativas e acabam por aproximar-se das zonas urbanas.
A zona ribeirinha de Setúbal torna-se, assim, particularmente atrativa.
Os animais encontram jardins, terrenos com vegetação, caixotes do lixo [quase sempre com restos no chão] e outros pontos onde podem procurar alimento, numa aproximação ao espaço urbano que acaba por criar um novo conjunto de problemas.
Não se trata, portanto, apenas de uma questão de animais que aparecem na cidade. É também o resultado de uma alteração na relação entre uma espécie selvagem, o seu habitat e um território urbano que oferece recursos alimentares facilmente acessíveis.

Jardins revolvidos e lixo espalhado
A presença dos javalis já deixou marcas em vários espaços. Os animais escavam buracos de grandes dimensões nas zonas ajardinadas enquanto procuram tubérculos e raízes, provocando danos nos espaços verdes. Também revolvem os contentores de lixo à procura de alimentos, contribuindo para a dispersão de resíduos.
Perante esta realidade, a Câmara Municipal de Setúbal lançou uma campanha pública de sensibilização para alertar a população para a necessidade de manter comportamentos que não favoreçam a aproximação dos animais.
Entre as recomendações está a necessidade de manter distância dos javalis, sobretudo quando existem crias. As pessoas devem também manter os cães com trela, evitar deixar alimentos fora dos contentores e não alimentar colónias de gatos fora dos horários indicados.
A recomendação é particularmente importante porque um javali, apesar de normalmente evitar o contacto com pessoas, pode reagir de forma defensiva se se sentir ameaçado, sobretudo quando existem crias por perto.

Quem deve capturar os animais?
É neste ponto que a questão ambiental passa também a ser institucional. O ICNF defende que não atua em zonas urbanas. A Câmara Municipal de Setúbal, por outro lado, considera que a responsabilidade pela captura dos javalis cabe ao instituto.
O resultado é um problema que permanece sem uma resposta operacional claramente assumida pelas duas entidades.
A reunião marcada para quinta-feira procura precisamente ultrapassar esse impasse e encontrar soluções para controlar a presença dos animais na cidade.
A questão não é nova. O Clube da Arrábida já tinha interpelado o ICNF, em junho, para defender um controlo da densidade populacional junto à zona balnear, sobretudo durante o inverno e início da primavera, período em que os javalis procuram abrigo naquela área.
Segundo a informação disponibilizada pelo Clube da Arrábida, não terá sido obtida resposta a esse pedido.

Mais javalis abatidos na Arrábida
Os números fornecidos pelo próprio ICNF mostram, entretanto, que as ações de correção da densidade populacional na Serra da Arrábida têm vindo a aumentar.
Em Junho, o instituto indicava que, no ano anterior, eram abatidos anualmente entre 400 e 600 javalis na Arrábida. Para este ano, a estimativa passou para 600 a 700 animais.
As ações autorizadas de correção de densidade populacional recorrem a métodos de caça controlada ou esperas noturnas com armadilhas e são realizadas sobretudo em propriedades agrícolas e em áreas próximas das praias, onde existe disponibilidade de alimento para os animais.
O aumento destes números mostra que o problema da presença do javali não se limita às zonas urbanas. Existe também uma preocupação mais abrangente com a dimensão da população da espécie e com os seus impactos sobre atividades agrícolas, pessoas, bens e ecossistemas.

Um problema que ultrapassa Setúbal
A questão é, aliás, nacional. De acordo com o ICNF, o Plano Estratégico e de Ação do Javali em Portugal aponta para a necessidade de abater entre 20 e 30 por cento da população de javalis ao longo dos próximos 10 anos, como forma de contribuir para o equilíbrio dos ecossistemas.
A estratégia considera os riscos associados à segurança de pessoas e bens, as questões de saúde pública e os impactos que uma população elevada de javalis pode provocar sobre habitats, outras espécies e o equilíbrio dos ecossistemas.
Em Setúbal, porém, a discussão ganha uma dimensão particularmente visível.
A Serra da Arrábida e a cidade estão suficientemente próximas para que a fronteira entre o habitat natural e o espaço urbano seja atravessada durante a procura de alimento. E quando um animal selvagem encontra na cidade recursos alimentares acessíveis, o problema deixa de estar apenas dentro da serra. É essa realidade que volta agora a obrigar as entidades responsáveis a sentarem-se à mesma mesa.
Mais do que decidir apenas quem captura os javalis, a reunião poderá ser uma oportunidade para discutir uma estratégia mais ampla: como gerir a população, reduzir os fatores que atraem os animais à cidade e preservar, ao mesmo tempo, o equilíbrio de um dos mais importantes territórios naturais da região.
A questão ambiental começa, neste caso, precisamente onde termina a estrada e começa a serra - mas os javalis estão a mostrar que essa fronteira, para eles, simplesmente não existe.

Agência de Notícias 
Fotografia: Design ADN

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