Barrete Verde volta a vestir Alcochete: sete dias para celebrar a alma de uma vila inteira

Entre campinos, forcados e salineiros: a identidade da vila volta a sair à rua entre 7 e 13 de Agosto 

Há festas populares e há patrimónios vivos. De 7 a 13 de Agosto, Alcochete volta a vestir-se de verde e ouro para receber as Festas do Barrete Verde e das Salinas, sete dias onde tradição, cultura, fé e convívio se encontram num dos maiores símbolos da identidade ribatejana. Toy, Fernando Correia Marques e Luís Sequeira lideram o cartaz musical, mas são o campino, o salineiro, o forcado e a ligação ao Tejo que continuam a dar alma a uma celebração que atravessa gerações e faz da vila um dos destinos mais emblemáticos do verão português.
Aposento do Barrete Verde continua a fazer acontecer a Festa 

Há um momento em que Alcochete deixa de viver apenas junto ao rio para passar a viver com o rio. A partir daí, o som das ruas muda, as varandas enchem-se de verde, o cheiro da sardinha assada mistura-se com a brisa do estuário e milhares de pessoas regressam à vila para celebrar aquilo que nunca deixou de lhes pertencer.
É assim todos os anos. E será novamente assim entre 7 e 13 de Agosto, quando as Festas do Barrete Verde e das Salinas voltarem a transformar Alcochete num enorme palco ao ar livre onde a tradição não se limita a ser recordada: vive-se, sente-se e passa de geração em geração.
Organizadas pelo Aposento do Barrete Verde, estas festividades são hoje um dos maiores acontecimentos culturais da região de Setúbal e uma referência nacional das tradições ribatejanas. Durante uma semana, a vila celebra aqueles que construíram a sua identidade: o campino da lezíria, o salineiro que fez do sal riqueza e o forcado que transformou a coragem numa arte reconhecida em todo o país.
 
Muito mais do que uma festa
Quem visita Alcochete pela primeira vez pode pensar que o Barrete Verde é apenas mais um grande evento de verão. Mas basta permanecer algumas horas para perceber que ali acontece algo diferente.
As ruas não se enchem apenas de visitantes; enchem-se de memórias.
As famílias reencontram-se, antigos moradores regressam à terra onde cresceram, as tertúlias voltam a abrir portas e as conversas prolongam-se noite dentro, enquanto o som do fado ecoa pelas ruas históricas da vila.
O verdadeiro espetáculo não acontece apenas nos palcos.
Está no orgulho com que um campino percorre a lezíria, na emoção de um forcado que veste a jaqueta antes da corrida, no trabalho silencioso dos salineiros cuja história continua inscrita nas margens do Tejo e na devoção de uma população que nunca deixou desaparecer as suas raízes.
É precisamente essa autenticidade que faz destas festas um património vivo. Porque em Alcochete não se representa uma tradição. Vive-se a tradição.

O barrete verde que se tornou símbolo de um povo
Poucos símbolos conseguem representar tão bem uma comunidade como o barrete verde representa Alcochete.
Nascido como peça de proteção usada pelos campinos contra o frio e o vento da lezíria, tornou-se, ao longo das décadas, muito mais do que um elemento do traje tradicional.
Hoje é um emblema de pertença. Representa o trabalho, a coragem, a ligação à terra e o respeito por um modo de vida que continua profundamente enraizado na população.
Ao lado dele surgem as salinas, outro dos grandes pilares da história local. Durante séculos, o chamado "ouro branco" alimentou a economia da vila e ajudou a abastecer Portugal e a frota marítima portuguesa, deixando uma marca que ainda hoje define a paisagem e a memória coletiva de Alcochete.

Sexta-feira: quando a vila desperta para sete dias de emoção
A espera termina na sexta-feira, 7 de Agosto. Pelas 16 horas, a receção oficial na sede do Aposento do Barrete Verde marca o primeiro momento institucional das festividades. Uma hora depois, o hastear das bandeiras, na Avenida D. Manuel I, anuncia oficialmente que Alcochete voltou a entrar em festa.
Mas é às 18h00 que a emoção invade verdadeiramente as ruas. A primeira entrada de toiros percorre o trajeto tradicional da vila e reúne milhares de pessoas ao longo do percurso, dando início a uma das imagens mais marcantes destas celebrações.
Quando a noite cai, o ambiente muda de registo. No Palco São João realiza-se a Homenagem ao Forcado, ao Campino e ao Salineiro, um dos momentos mais simbólicos de todo o programa, reconhecendo três figuras que continuam a representar a essência da identidade alcochetana.
A noite prolonga-se com atuações de folclore regional antes da primeira grande largada da meia-noite, que encerra o dia inaugural das festividades.

Sábado: a noite em que Alcochete quase não dorme
Noite da sardinha assada reúne milhares de pessoas no sábado
Se existe um dia capaz de mostrar toda a dimensão das Festas do Barrete Verde e das Salinas, esse dia é sábado, 8 de Agosto.
Logo pela manhã, junto à Igreja Matriz, realiza-se a tradicional Bênção dos Cabrestos, seguindo-se a chegada das embarcações tradicionais ao cais, numa imagem que volta a unir a vila ao Tejo.
Pouco depois, a Prova do Boi da Guia e as demonstrações de Arte de Campinagem mostram ao público a perícia dos homens da lezíria na condução do gado bravo, preservando conhecimentos transmitidos ao longo de gerações.
Mas é quando a noite cai que Alcochete revela uma das suas imagens mais icónicas.
A tradicional Noite da Sardinha Assada transforma ruas e largos num enorme espaço de convívio. O aroma das brasas invade a vila, as mesas enchem-se de famílias e amigos e milhares de pessoas percorrem o centro histórico num ambiente que mistura música, tradição e alegria.
Já depois da meia-noite, a lendária Charanga de Alcochete conduz uma arruada que atravessa gerações e arrasta uma multidão pelas ruas da vila, preparando o ambiente para uma das largadas mais aguardadas das festas, marcada para as três da madrugada.
É uma noite onde praticamente ninguém dorme. Porque, em Alcochete, o sábado do Barrete Verde não termina quando o relógio marca um novo dia. É precisamente aí que a festa atinge um dos seus momentos mais intensos.

Domingo: quando a fé encontra o Tejo
Depois da intensidade da noite de sábado, Alcochete desperta com outro ritmo. O domingo, 9 de Agosto, convida à reflexão e à celebração de uma tradição que também se constrói na espiritualidade.
A missa da manhã antecede um dos momentos mais aguardados e emotivos de toda a semana: a Procissão por Terra e Mar em honra de Nossa Senhora da Vida. Quando a noite chega, as embarcações iluminadas deslizam sobre as águas do Tejo, enquanto centenas de pessoas acompanham a padroeira numa manifestação de fé que une pescadores, campinos, salineiros e famílias inteiras.
É uma imagem que se repete todos os anos, mas que nunca perde a capacidade de emocionar. O rio transforma-se num espelho de luz, o silêncio instala-se por instantes e Alcochete recorda que a sua história sempre foi escrita entre a terra e a água.
Enquanto isso, o fado continua a ecoar no Palco São João e na sede do Aposento do Barrete Verde, prolongando uma atmosfera única onde cultura, tradição e devoção caminham lado a lado.

Da tradição à música: quatro dias para continuar a celebrar
Se os primeiros dias das festas são marcados pelas grandes tradições, a segunda metade da semana mostra que o Barrete Verde continua a reinventar-se sem perder a sua essência.
Na segunda-feira, 10 de Agosto, a manhã pertence aos mais novos e ao futuro da festa. Os Forcados do Aposento demonstram a arte de pegar, seguem-se brincadeiras com bezerros destinadas às crianças e realiza-se o convívio "Alcochete na Rua", um almoço que reforça o espírito comunitário da vila. À noite, sobe ao Palco São João Fernando Correia Marques, um dos nomes mais acarinhados da música popular portuguesa.
Na terça-feira, 11 de Agosto, as atividades infantis no Jardim do Rossio dão lugar, já ao cair da noite, a mais uma Corrida de Touros, um dos momentos de maior expressão taurina do programa. A animação prolonga-se com o concerto de Luís Sequeira, prometendo manter o ambiente festivo até altas horas.
A quarta-feira, 12 de Agosto, presta homenagem a outra das figuras que moldaram Alcochete: o salineiro. A Arte do Salineiro recorda um ofício que durante séculos marcou a economia e a identidade da vila, antes da adrenalina tomar conta da Praça de Touros com a desafiante Mesa da Tortura. 
À noite, o palco principal recebe Toy, um dos artistas mais populares do país e cabeça de cartaz das festividades.
As Festas do Barrete Verde e das Salinas despedem-se na quinta-feira, 13 de Agosto, com karting durante a manhã e a derradeira largada de touros, às 18 horas, encerrando sete dias de celebração onde tradição e modernidade convivem naturalmente.

Um investimento para proteger uma tradição centenária
O salineiro é outra das principais imagens da vila ribeirinha 
Por detrás de uma das maiores festas populares do distrito de Setúbal existe também um significativo esforço financeiro e logístico para garantir que tudo decorre com segurança e qualidade.
A Câmara Municipal de Alcochete aprovou um contrato-programa com o Aposento do Barrete Verde, assegurando os apoios necessários à atividade da coletividade ao longo do ano e, em particular, à organização das Festas do Barrete Verde e das Salinas.
O apoio financeiro ascende a 97 mil euros, dos quais 88 mil euros são destinados diretamente às festividades. O restante montante contempla outras atividades anuais da associação, bem como apoios específicos ao Grupo de Sevilhanas e ao Grupo de Forcados do Aposento.
Mas o contributo municipal vai muito além da componente financeira.
"Além do apoio financeiro, o Município assegura um apoio não financeiro estimado em 172 mil euros, correspondente a apoio logístico e isenções e reduções no pagamento de taxas", refere a autarquia, explicando que esse apoio inclui a cedência de materiais, viaturas, maquinaria e recursos humanos indispensáveis à realização do evento.
Na mesma reunião do executivo foi ainda aprovada uma isenção de taxas no valor de quase 101 mil euros, permitindo ao Aposento do Barrete Verde utilizar o domínio público municipal numa área superior a 53 mil metros quadrados, onde decorrem grande parte das iniciativas das festas.
Foi igualmente autorizada a emissão da licença especial de ruído, permitindo atividades sonoras até às três da madrugada durante os dias das festividades, com exceção da madrugada de sábado para domingo, em que o horário é prolongado até às cinco da manhã. Os carrosséis poderão funcionar diariamente entre as 12 e as duas da manhã. 
A segurança também mereceu atenção especial, com a aprovação do Plano de Coordenação da Proteção Civil de Alcochete, concebido para garantir a proteção de milhares de visitantes ao longo dos sete dias de celebração.

Onde um povo continua a reconhecer-se
Há tradições que sobrevivem porque são preservadas. E há outras que sobrevivem porque continuam a fazer parte da vida das pessoas. O Barrete Verde pertence a essa segunda categoria.
Não vive apenas nas fotografias antigas, nem nos livros que contam a história de Alcochete. Vive no orgulho de quem veste o traje de campino, na dedicação dos forcados, na memória dos salineiros, nas vozes do fado, no perfume da sardinha assada, no brilho das embarcações que cruzam o Tejo e nas milhares de pessoas que todos os anos regressam à vila para celebrar aquilo que verdadeiramente as une.
Entre 7 e 13 de Agosto, Alcochete não recebe apenas mais uma festa. Abre as portas da sua história. E convida Portugal a fazer parte dela.

Agência de Notícias 
Fotografia: Paulo Jorge Oliveira e Design ADN 

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