Entre a barbearia, os palcos e as coletividades, o senhor Álvaro ajudou a contar a história de várias gerações
Há histórias que não precisam de ser inventadas porque a própria vida já tratou de lhes dar personagens, lugares, dificuldades, conquistas e, sobretudo, muitas memórias. A de Álvaro Amaro é uma delas. Numa mesa de jardim, ao final de uma tarde de Julho, regressamos com ele a um Pinhal Novo muito diferente daquele que hoje conhecemos, procurando nas palavras, nas pausas e nas lembranças de uma vida inteira os caminhos que fizeram dele uma das figuras marcantes da Gente da Nossa Terra. E talvez seja por isso que esta história não começa propriamente em 1936, no dia em que Álvaro Amaro nasceu. Começa muito antes de sabermos quem ele viria a ser: começa num Pinhal Novo pequeno, pobre e quase feito de duas ou três ruas, onde uma criança começou a descobrir o mundo.
É uma conversa sem pressa, como as conversas que verdadeiramente importam. Entre uma lembrança que regressa inteira e outra que precisa de uma pequena ajuda para encontrar o seu lugar, aparece o menino que conheceu a fome, o jovem que começou a trabalhar antes de ter idade para pensar no futuro, o barbeiro que conheceu gerações de pinhalnovenses, o músico que levou o nome da terra por muitos palcos e o homem que, sem nunca procurar o primeiro plano, passou décadas a ajudar a construir aquilo que hoje reconhecemos como Pinhal Novo.
A memória já não chega sempre com a mesma nitidez. Há momentos em que uma pergunta abre uma porta e a resposta surge imediatamente; noutros, é preciso esperar, procurar um nome ou deixar que o filho, também Álvaro Amaro, ajude a completar um pormenor. Não há nisso qualquer artificialidade. É uma conversa familiar, feita de cumplicidades e pequenas ajudas, em que pai e filho vão reconstruindo juntos episódios que atravessaram décadas. Memórias de Gente da Nossa Terra. E há ainda outra memória que nos acompanha nesta viagem: a que ficou registada no livro Na minha aldeia havia... um barbeiro artista, escrito a três mãos por Ana Margarida Martins, Elisabete Bertolo e Margarida Martins.
Mas a história é de Álvaro Amaro. E há coisas que a memória ainda guarda com uma força impressionante. Quando lhe perguntamos como era o Pinhal Novo da sua infância, não fala de uma grande terra, nem de uma vila cheia de movimento. Pelo contrário, regressa a um lugar pequeno, quase rural, onde as pessoas se conheciam e a vida acontecia à escala das poucas ruas que então existiam.
Era uma terra com pouca gente, muito pouca gente". Depois procura outra palavra, talvez porque a primeira ainda não seja suficiente para explicar a dimensão daquele Pinhal Novo.
"Era pequenino". E acrescenta, numa imagem que resume uma época inteira: "Eram duas ou três ruas. Não tinha jardim, não tinha água".
Foi nesse pequeno Pinhal Novo que Álvaro Amaro começou a vida, embora tenha nascido a 8 de Dezembro de 1936, em Pombal, filho de Luís Caseiro e de Emília Amaro. Veio ao mundo num tempo difícil, quando a Europa caminhava para a guerra e as dificuldades económicas pesavam sobre famílias que, como a sua, viviam com pouco e precisavam de trabalhar muito para conseguir seguir em frente. Curiosamente, ou não, a história repete-se nos dias de hoje.
As dificuldades não demoraram a fazer parte da sua infância, mas quando fala dos pais é curioso perceber aquilo que a memória escolhe preservar. Antes da pobreza, vem o afecto. Antes das privações, aparecem as pessoas.
"Foram uns pais fantásticos. Sempre muito pobrezinhos". O pai era madeireiro e, durante algum tempo, chegava a percorrer cerca de 20 quilómetros a pé todos os dias para ganhar a vida. A mãe trabalhava nas cozinhas e nos restaurantes e ficou na memória do filho como uma mulher de enorme capacidade de trabalho. "A minha mãe era uma trabalhadeira", diz.
A infância foi, por isso, marcada pelo esforço de ambos, mas também por uma proximidade familiar que Álvaro Amaro continua a recordar com carinho. O pai, em particular, surge nas suas palavras como uma figura serena, daquelas pessoas que deixam uma impressão profunda sem precisarem de levantar a voz.
"O meu velhote também. Era uma pessoa mesmo daquelas de encantar. Um homem calmo".
Em 1963, Álvaro Amaro fez a sua primeira aparição pública com o conjunto que, dois anos depois, adoptaria oficialmente o nome Terno d'Ouros. Ao lado de Amílcar Caetano e Feliciano Silva, formou um trio que iria muito além das fronteiras do Pinhal Novo.
Álvaro assumia o acordeão e a voz, Amílcar os ferrinhos e a voz principal, enquanto Feliciano Silva tocava tambor e também cantava.
Gravaram três discos, percorreram o país e chegaram a atuar em Espanha. Foram noites e noites de estrada, viagens de comboio e de carro, chegadas a casa quando já era madrugada e dias em que o cansaço parecia não deixar espaço para mais nada.
Mas, quando fala daquele tempo, não se fixa no esforço. Fixa-se na amizade e na música. "Um trio fantástico".
E depois: "Éramos muito bem recebidos, pá. O grupo estava muito afinadinho". Talvez a frase mais bonita venha logo a seguir, porque traduz a ligação que existia entre os três: "Parecia que tínhamos nascido uns para os outros".
A música levou-os a palcos que, para aqueles homens vindos de uma pequena terra, tinham uma dimensão extraordinária. Passaram pelo velho Coliseu, pelo Éden e pelo Monumental e partilharam espetáculos com nomes importantes da cultura portuguesa. E havia ainda uma coisa que Álvaro fazia particularmente bem: escrever. A sua música não queria apenas entreter. Queria contar.
A música, contudo, não desapareceu. Ainda hoje Álvaro Amaro canta com a mulher. Escolhem músicas, experimentam os tons e procuram aquelas que funcionam melhor para os dois. Ele costuma escolher, ela sugere outras e, em casa, o acordeão ainda serve para encontrar a tonalidade certa.
Quando chega o momento de cantar, há ainda aquele pequeno nervosismo que aparece antes de qualquer palco. "Aquele bichinho na barriga".
Depois começa. E a música leva-os. Muitas vezes cantam um para o outro, sobretudo aquelas canções que falam de amor, e há uma ternura especial na forma como Álvaro conta esses momentos.
Depois de uma vida inteira entre música, trabalho e pessoas, talvez seja precisamente ali, ao lado da mulher, que a música encontra hoje a sua forma mais íntima.
Já perto do fim, a conversa regressa ao Pinhal Novo e aos jovens que hoje vivem numa terra muito diferente daquela que Álvaro conheceu em criança.
Não fala como quem quer dar uma lição. Fala como alguém que passou a vida a participar e que gostaria de ver as novas gerações fazerem o mesmo.
Gostaria que houvesse mais envolvimento, mais interesse pelas associações, pelas coletividades e pelas dinâmicas da própria terra. "Se envolvam nas dinâmicas da terra, nas associações".
É difícil não perceber a ligação entre o conselho e a própria vida. Álvaro Amaro não ficou à espera de que alguém fizesse. Foi. Ajudou. Aprendeu. Criou. E voltou a ajudar.
Foi assim quando era criança e precisava de trabalhar. Foi assim quando aprendeu a ser barbeiro. Foi assim quando começou a tocar. Foi assim nas coletividades, nas festas, nas revistas e nos palcos.
Sempre que havia alguma coisa para fazer, aparecia. Porque era preciso. A memória pode falhar, mas algumas histórias continuam inteiras
A tarde vai avançando e a conversa vai ficando mais calma. Há momentos em que a memória encontra imediatamente o caminho e outros em que é preciso procurar uma palavra, confirmar um nome ou recorrer à ajuda de Álvaro Filho.
É natural. Uma vida tão longa não cabe inteira dentro da memória de uma só pessoa. Mas há coisas que continuam lá.
A imagem da mãe. A fome. A viagem para Lisboa. O comboio que passou a estação. A caminhada de criança junto à linha. A primeira barbearia. O senhor Américo. Os clientes. A música que vinha da Sociedade Filarmónica. O acordeão. Os Terno d'Ouros. As viagens. Os discos. A Marcha do Vitória. As revistas. As letras. As festas. A mulher. E o Pinhal Novo.
Talvez seja isso que mais impressiona nesta conversa. Álvaro Amaro não fala apenas de uma vida que passou. Fala de uma vida que ficou espalhada pela terra onde escolheu viver.
Ficou numa cadeira de barbeiro, onde durante décadas ouviu histórias de quem se sentava diante dele.
Ficou nas músicas que escreveu e nas que ajudou a levar aos palcos.
Ficou nas marchas que procuraram cantar a identidade de Pinhal Novo e até os seus sonhos de futuro.
Ficou nas revistas, nas coletividades, nos amigos e nas muitas pessoas que com ele partilharam uma parte do caminho.
E ficou também dentro da família, onde hoje os filhos ajudam a recuperar algumas das memórias que o tempo começa a esconder.
Naquela mesa de jardim, ao final de uma tarde de Julho, estão dois homens chamados Álvaro Amaro. Em Pinhal Novo, toda a gente sabe distingui-los. Um é Álvaro Pai. O outro é Álvaro Filho.
Mas, por momentos, essa distinção parece perder importância. O que existe ali é uma história que passa de uma geração para outra, com o filho a ajudar o pai a reencontrar nomes, lugares e episódios, e o pai a mostrar, através das memórias que ainda guarda, uma parte do Pinhal Novo que já não existe da mesma maneira.
Álvaro Amaro nasceu quando a terra era pequena. Viu-a crescer. Ajudou-a a crescer. E, pelo caminho, deixou-lhe música, palavras, trabalho, amizade e memória. Talvez seja essa a verdadeira medida de uma vida.
Não aquilo que se acumulou. Não aquilo que se ganhou. Mas aquilo que se deixou nos outros. E Álvaro Amaro deixou muito. Porque há pessoas que vivem numa terra. E há outras que, de tanto darem a essa terra, passam a fazer parte da sua própria história.
Mas a história é de Álvaro Amaro. E há coisas que a memória ainda guarda com uma força impressionante. Quando lhe perguntamos como era o Pinhal Novo da sua infância, não fala de uma grande terra, nem de uma vila cheia de movimento. Pelo contrário, regressa a um lugar pequeno, quase rural, onde as pessoas se conheciam e a vida acontecia à escala das poucas ruas que então existiam.
Era uma terra com pouca gente, muito pouca gente". Depois procura outra palavra, talvez porque a primeira ainda não seja suficiente para explicar a dimensão daquele Pinhal Novo.
"Era pequenino". E acrescenta, numa imagem que resume uma época inteira: "Eram duas ou três ruas. Não tinha jardim, não tinha água".
Foi nesse pequeno Pinhal Novo que Álvaro Amaro começou a vida, embora tenha nascido a 8 de Dezembro de 1936, em Pombal, filho de Luís Caseiro e de Emília Amaro. Veio ao mundo num tempo difícil, quando a Europa caminhava para a guerra e as dificuldades económicas pesavam sobre famílias que, como a sua, viviam com pouco e precisavam de trabalhar muito para conseguir seguir em frente. Curiosamente, ou não, a história repete-se nos dias de hoje.
As dificuldades não demoraram a fazer parte da sua infância, mas quando fala dos pais é curioso perceber aquilo que a memória escolhe preservar. Antes da pobreza, vem o afecto. Antes das privações, aparecem as pessoas.
"Foram uns pais fantásticos. Sempre muito pobrezinhos". O pai era madeireiro e, durante algum tempo, chegava a percorrer cerca de 20 quilómetros a pé todos os dias para ganhar a vida. A mãe trabalhava nas cozinhas e nos restaurantes e ficou na memória do filho como uma mulher de enorme capacidade de trabalho. "A minha mãe era uma trabalhadeira", diz.
A infância foi, por isso, marcada pelo esforço de ambos, mas também por uma proximidade familiar que Álvaro Amaro continua a recordar com carinho. O pai, em particular, surge nas suas palavras como uma figura serena, daquelas pessoas que deixam uma impressão profunda sem precisarem de levantar a voz.
"O meu velhote também. Era uma pessoa mesmo daquelas de encantar. Um homem calmo".
Quando uma criança começa cedo a conhecer a vida
Álvaro Amaro terminou a quarta classe e, aos 11 anos, já começava a perceber que a infância não podia durar muito. As necessidades da família levaram-no até Lisboa, onde conseguiu trabalho na Sapataria Cristal, na Praça da Figueira, por intermédio de um conhecido, o senhor Aleixo.
Para uma criança daquela idade, o caminho entre Pinhal Novo e Lisboa era uma aventura diária. Primeiro o comboio até ao Barreiro, depois o barco para Lisboa e, ao fim do dia, o percurso inverso para regressar a casa. Na sapataria, fazia recados, recebia clientes à porta e levava encomendas às senhoras que compravam.
"Era um menino para ir para lá fazer recados e para estar à porta a dizer aos clientes se queriam entrar... isso usava-se muito!". Outros tempos!
Mas a viagem de regresso haveria de lhe deixar uma das histórias que ainda hoje conta com a mistura de ternura e emoção de quem consegue olhar para o passado através dos olhos daquela criança.
Num dos primeiros dias, cansado, adormeceu no comboio. Quando o revisor deu por ele, já tinha passado a estação onde devia sair e foi parar a Valdera. Sozinho, pequeno, sem saber muito bem o que fazer, começou a chorar.
Depois, veio a caminhada de vários quilómetros junto à linha, até casa. "Eu parece-me que vim sempre a chorar e a correr". Enquanto isso, a mãe esperava, cada vez mais preocupada, porque o comboio tinha passado e o filho não aparecia. Até que, finalmente, Álvaro chegou. A correr.
São histórias como esta que ajudam a perceber a rapidez com que aquele rapaz foi obrigado a crescer. A vida não lhe perguntou se estava preparado. Foi simplesmente acontecendo.
Álvaro Amaro terminou a quarta classe e, aos 11 anos, já começava a perceber que a infância não podia durar muito. As necessidades da família levaram-no até Lisboa, onde conseguiu trabalho na Sapataria Cristal, na Praça da Figueira, por intermédio de um conhecido, o senhor Aleixo.
Para uma criança daquela idade, o caminho entre Pinhal Novo e Lisboa era uma aventura diária. Primeiro o comboio até ao Barreiro, depois o barco para Lisboa e, ao fim do dia, o percurso inverso para regressar a casa. Na sapataria, fazia recados, recebia clientes à porta e levava encomendas às senhoras que compravam.
"Era um menino para ir para lá fazer recados e para estar à porta a dizer aos clientes se queriam entrar... isso usava-se muito!". Outros tempos!
Mas a viagem de regresso haveria de lhe deixar uma das histórias que ainda hoje conta com a mistura de ternura e emoção de quem consegue olhar para o passado através dos olhos daquela criança.
Num dos primeiros dias, cansado, adormeceu no comboio. Quando o revisor deu por ele, já tinha passado a estação onde devia sair e foi parar a Valdera. Sozinho, pequeno, sem saber muito bem o que fazer, começou a chorar.
Depois, veio a caminhada de vários quilómetros junto à linha, até casa. "Eu parece-me que vim sempre a chorar e a correr". Enquanto isso, a mãe esperava, cada vez mais preocupada, porque o comboio tinha passado e o filho não aparecia. Até que, finalmente, Álvaro chegou. A correr.
São histórias como esta que ajudam a perceber a rapidez com que aquele rapaz foi obrigado a crescer. A vida não lhe perguntou se estava preparado. Foi simplesmente acontecendo.
Antes da tesoura, houve peixe, cavalos e até uma travessura
De regresso à região, Álvaro continuou aquilo que a própria vida parecia ter decidido por ele: experimentar, aprender e trabalhar onde fosse preciso. Passou pela venda de peixe e ajudou também a tratar de cavalos, actividade de que gostava particularmente por causa dos animais.
"Fui para lá ajudar ao peixe e tratar de uns cavalos que o Peixealota tinha! Também gostava daquilo... mais por causa dos animais... mas também não era profissão".
Depois surgiu uma curta passagem por uma taberna, que acabaria de forma menos feliz. Um outro rapaz desafiou-o a tirar alguns meio tostões do dinheiro do estabelecimento para comprar chocolates. Álvaro aceitou a aventura, mas depressa descobriu que há travessuras que se pagam caro. Em casa, a mãe tratou de lhe explicar isso de forma que ele nunca mais esqueceu. "Levei uma dose de pancadaria da minha mãe que nunca mais me esquece!".
Talvez tenha sido mais uma das muitas pequenas experiências que o foram preparando para aquilo que viria a seguir, porque pouco depois a vida colocou-lhe nas mãos uma profissão que haveria de acompanhá-lo durante décadas. A tesoura.
De regresso à região, Álvaro continuou aquilo que a própria vida parecia ter decidido por ele: experimentar, aprender e trabalhar onde fosse preciso. Passou pela venda de peixe e ajudou também a tratar de cavalos, actividade de que gostava particularmente por causa dos animais.
"Fui para lá ajudar ao peixe e tratar de uns cavalos que o Peixealota tinha! Também gostava daquilo... mais por causa dos animais... mas também não era profissão".
Depois surgiu uma curta passagem por uma taberna, que acabaria de forma menos feliz. Um outro rapaz desafiou-o a tirar alguns meio tostões do dinheiro do estabelecimento para comprar chocolates. Álvaro aceitou a aventura, mas depressa descobriu que há travessuras que se pagam caro. Em casa, a mãe tratou de lhe explicar isso de forma que ele nunca mais esqueceu. "Levei uma dose de pancadaria da minha mãe que nunca mais me esquece!".
Talvez tenha sido mais uma das muitas pequenas experiências que o foram preparando para aquilo que viria a seguir, porque pouco depois a vida colocou-lhe nas mãos uma profissão que haveria de acompanhá-lo durante décadas. A tesoura.
A barbearia onde começou a fazer-se homem
Álvaro tinha entre 12 e 13 anos quando começou a aprender o ofício de barbeiro. A oportunidade surgiu quase por acaso, num dia em que estava a jogar à bola no largo da Sociedade (SFUA). A mãe viu passar um barbeiro e decidiu tentar a sorte pelo filho.
"Você não quer para lá este malandro para aprender a barbeiro?". O convite foi aceite e Álvaro entrou num grupo de quatro ou cinco aprendizes. Começou por aprender o ofício durante cerca de um ano e, mais tarde, depois da morte do popular barbeiro Virgolino, transitou para a conhecida barbearia situada na esquina da Rua Gago Coutinho com a Rua Sacadura Cabral, onde passou a trabalhar para o senhor Américo.
Foi ali que ficou até aos 19 anos. Foi ali também que, pelas suas próprias palavras, deixou de ser apenas um rapaz a aprender uma profissão.
"Estive ali nessa casa até aos 19 anos sempre como empregado. Era muito bem tratado e eu tinha muito respeito tanto ao meu patrão como à sua mulher. Foi ali que me fiz homem!".
A frase tem um peso especial porque resume uma relação que ultrapassava o simples trabalho. Havia ali aprendizagem, respeito e uma espécie de escola de vida que não vinha escrita em nenhum manual. Álvaro estava a aprender a cortar cabelo, mas estava também a aprender a lidar com pessoas, a ouvir, a observar e a perceber os ritmos de uma comunidade.
Mais tarde, trabalhou por conta própria durante quatro anos, num espaço pequeno, até que, aos 23 anos, surgiu a oportunidade que mudaria definitivamente o seu percurso profissional. Pouco depois de casar, aceitou a proposta do antigo patrão para assumir o negócio através de um trespasse.
O valor era elevado para a época: 37 contos, pagos através de um acordo que previa prestações mensais de 500 escudos.
"Comecei a amadurecer e a pensar no futuro... e aceitei o trespasse da barbearia". Aquele rapaz que tinha começado a trabalhar aos 11 anos tinha finalmente o seu próprio negócio. E a barbearia haveria de tornar-se muito mais do que um lugar onde se cortava cabelo.
"Você não quer para lá este malandro para aprender a barbeiro?". O convite foi aceite e Álvaro entrou num grupo de quatro ou cinco aprendizes. Começou por aprender o ofício durante cerca de um ano e, mais tarde, depois da morte do popular barbeiro Virgolino, transitou para a conhecida barbearia situada na esquina da Rua Gago Coutinho com a Rua Sacadura Cabral, onde passou a trabalhar para o senhor Américo.
Foi ali que ficou até aos 19 anos. Foi ali também que, pelas suas próprias palavras, deixou de ser apenas um rapaz a aprender uma profissão.
"Estive ali nessa casa até aos 19 anos sempre como empregado. Era muito bem tratado e eu tinha muito respeito tanto ao meu patrão como à sua mulher. Foi ali que me fiz homem!".
A frase tem um peso especial porque resume uma relação que ultrapassava o simples trabalho. Havia ali aprendizagem, respeito e uma espécie de escola de vida que não vinha escrita em nenhum manual. Álvaro estava a aprender a cortar cabelo, mas estava também a aprender a lidar com pessoas, a ouvir, a observar e a perceber os ritmos de uma comunidade.
Mais tarde, trabalhou por conta própria durante quatro anos, num espaço pequeno, até que, aos 23 anos, surgiu a oportunidade que mudaria definitivamente o seu percurso profissional. Pouco depois de casar, aceitou a proposta do antigo patrão para assumir o negócio através de um trespasse.
O valor era elevado para a época: 37 contos, pagos através de um acordo que previa prestações mensais de 500 escudos.
"Comecei a amadurecer e a pensar no futuro... e aceitei o trespasse da barbearia". Aquele rapaz que tinha começado a trabalhar aos 11 anos tinha finalmente o seu próprio negócio. E a barbearia haveria de tornar-se muito mais do que um lugar onde se cortava cabelo.
O lugar onde se ouvia tudo
Durante décadas, Álvaro Amaro esteve sentado atrás de uma cadeira onde passaram gerações de pessoas. Clientes, amigos, conhecidos, homens que chegavam para cortar o cabelo e acabavam por ficar a conversar sobre tudo o que acontecia na terra.
Era inevitável. Numa comunidade pequena, a barbearia era também um lugar de encontro. As pessoas falavam e o barbeiro ouvia. Falavam de família, de trabalho, de festas, de problemas, de política, de futebol e da vida da terra.
"Os barbeiros sabem tudo". Álvaro conhecia praticamente toda a gente e havia clientes que faziam questão de esperar por ele, mesmo quando outros profissionais estavam disponíveis.
Durante décadas, Álvaro Amaro esteve sentado atrás de uma cadeira onde passaram gerações de pessoas. Clientes, amigos, conhecidos, homens que chegavam para cortar o cabelo e acabavam por ficar a conversar sobre tudo o que acontecia na terra.
Era inevitável. Numa comunidade pequena, a barbearia era também um lugar de encontro. As pessoas falavam e o barbeiro ouvia. Falavam de família, de trabalho, de festas, de problemas, de política, de futebol e da vida da terra.
"Os barbeiros sabem tudo". Álvaro conhecia praticamente toda a gente e havia clientes que faziam questão de esperar por ele, mesmo quando outros profissionais estavam disponíveis.
"Eu tinha clientes que só eu é que os servia". Não é uma frase dita com vaidade. Aliás, quando fala dessa relação, quase parece procurar uma explicação simples para aquilo que os clientes encontravam nele.
"Eu, não é por me estar a gabar. Mas tive sempre um bocadinho de habilidade para aquilo. Nasceu comigo ou qualquer coisa, não sei". Talvez tenha nascido com ele mesmo. Mas havia também outra qualidade que a barbearia lhe ensinou: saber estar com as pessoas.
Ouvir sem interromper. Guardar o que era preciso guardar. E compreender que, muitas vezes, uma pessoa que se senta numa cadeira de barbeiro não está apenas ali para cortar o cabelo. Está também à procura de conversa, companhia ou simplesmente de alguém que a escute.
"Eu, não é por me estar a gabar. Mas tive sempre um bocadinho de habilidade para aquilo. Nasceu comigo ou qualquer coisa, não sei". Talvez tenha nascido com ele mesmo. Mas havia também outra qualidade que a barbearia lhe ensinou: saber estar com as pessoas.
Ouvir sem interromper. Guardar o que era preciso guardar. E compreender que, muitas vezes, uma pessoa que se senta numa cadeira de barbeiro não está apenas ali para cortar o cabelo. Está também à procura de conversa, companhia ou simplesmente de alguém que a escute.
A música começou muito antes dos palcos
Enquanto a profissão lhe dava o sustento, havia uma outra paixão que crescia silenciosamente: A música.
Álvaro vivia a pouco mais de um minuto da Sociedade Filarmónica e, ainda criança, conseguia ouvir os ensaios. A mãe, de vez em quando, deixava-o aproximar-se.
"Vai lá ouvir, vai lá ver". E ele ia. A música entrava-lhe pelos ouvidos e ficava-lhe por dentro. "Já mexia cá dentro".
Começou por experimentar instrumentos, alguns quase maiores do que ele. Mais tarde, chegou o acordeão, que acabaria por se transformar numa das grandes companhias da sua vida.
Aprendeu a escala, as teclas e foi descobrindo muito por si próprio. Ouvia uma música, procurava reproduzi-la e cantava aquilo que ia aprendendo.
A música não era apenas uma actividade. Era uma linguagem que parecia compreender naturalmente. E foi através dela que acabou por encontrar algumas das pessoas que marcariam para sempre o seu percurso.
Enquanto a profissão lhe dava o sustento, havia uma outra paixão que crescia silenciosamente: A música.
Álvaro vivia a pouco mais de um minuto da Sociedade Filarmónica e, ainda criança, conseguia ouvir os ensaios. A mãe, de vez em quando, deixava-o aproximar-se.
"Vai lá ouvir, vai lá ver". E ele ia. A música entrava-lhe pelos ouvidos e ficava-lhe por dentro. "Já mexia cá dentro".
Começou por experimentar instrumentos, alguns quase maiores do que ele. Mais tarde, chegou o acordeão, que acabaria por se transformar numa das grandes companhias da sua vida.
Aprendeu a escala, as teclas e foi descobrindo muito por si próprio. Ouvia uma música, procurava reproduzi-la e cantava aquilo que ia aprendendo.
A música não era apenas uma actividade. Era uma linguagem que parecia compreender naturalmente. E foi através dela que acabou por encontrar algumas das pessoas que marcariam para sempre o seu percurso.
Terno d'Ouros: três homens, muitas estradas e uma história que ficou
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| Terno D'Ouros marcaram uma geração de ouro em todo o país |
Em 1963, Álvaro Amaro fez a sua primeira aparição pública com o conjunto que, dois anos depois, adoptaria oficialmente o nome Terno d'Ouros. Ao lado de Amílcar Caetano e Feliciano Silva, formou um trio que iria muito além das fronteiras do Pinhal Novo.
Álvaro assumia o acordeão e a voz, Amílcar os ferrinhos e a voz principal, enquanto Feliciano Silva tocava tambor e também cantava.
Gravaram três discos, percorreram o país e chegaram a atuar em Espanha. Foram noites e noites de estrada, viagens de comboio e de carro, chegadas a casa quando já era madrugada e dias em que o cansaço parecia não deixar espaço para mais nada.
Mas, quando fala daquele tempo, não se fixa no esforço. Fixa-se na amizade e na música. "Um trio fantástico".
E depois: "Éramos muito bem recebidos, pá. O grupo estava muito afinadinho". Talvez a frase mais bonita venha logo a seguir, porque traduz a ligação que existia entre os três: "Parecia que tínhamos nascido uns para os outros".
A música levou-os a palcos que, para aqueles homens vindos de uma pequena terra, tinham uma dimensão extraordinária. Passaram pelo velho Coliseu, pelo Éden e pelo Monumental e partilharam espetáculos com nomes importantes da cultura portuguesa. E havia ainda uma coisa que Álvaro fazia particularmente bem: escrever. A sua música não queria apenas entreter. Queria contar.
Quando uma marcha passou a fazer parte da memória do Vitória
Em 1966, a história dos Terno d'Ouros ganhou uma das suas páginas mais conhecidas. Um jogo entre o Braga e o Vitória de Setúbal esteve na origem da Marcha do Vitória, composta por Feliciano Silva.
A música tornou-se um enorme sucesso e o grupo levou-a consigo para os palcos, com Álvaro ao acordeão e a sua voz a ajudar a dar-lhe vida.
Hoje, quando fala dessa marcha, faz questão de esclarecer a autoria. "A marcha do Vitória é da autoria do Feliciano Silva". O êxito daquela música, porém, ultrapassou largamente o tempo em que foi criada. Décadas depois, continua ligada ao Vitória de Setúbal e ainda hoje é reconhecida pelos adeptos e ouvida no estádio.
Para Álvaro, é também uma recordação de uma época em que três homens de Pinhal Novo viajavam pelo país levando consigo música, amizade e uma terra que, mesmo sem saber, começava a ficar conhecida através deles.
Em 1966, a história dos Terno d'Ouros ganhou uma das suas páginas mais conhecidas. Um jogo entre o Braga e o Vitória de Setúbal esteve na origem da Marcha do Vitória, composta por Feliciano Silva.
A música tornou-se um enorme sucesso e o grupo levou-a consigo para os palcos, com Álvaro ao acordeão e a sua voz a ajudar a dar-lhe vida.
Hoje, quando fala dessa marcha, faz questão de esclarecer a autoria. "A marcha do Vitória é da autoria do Feliciano Silva". O êxito daquela música, porém, ultrapassou largamente o tempo em que foi criada. Décadas depois, continua ligada ao Vitória de Setúbal e ainda hoje é reconhecida pelos adeptos e ouvida no estádio.
Para Álvaro, é também uma recordação de uma época em que três homens de Pinhal Novo viajavam pelo país levando consigo música, amizade e uma terra que, mesmo sem saber, começava a ficar conhecida através deles.
Escrever a terra para que ela não se perdesse
Há uma característica que atravessa todo o percurso artístico de Álvaro Amaro: a vontade de retratar o lugar onde viveu.
Nas marchas que escreveu para as festas populares, procurava falar das tradições, das pessoas e daquilo que tornava Pinhal Novo diferente, mas também das esperanças e das ambições de uma comunidade que queria crescer.
Quando hoje se revisitam aquelas letras, percebe-se que Álvaro Amaro nunca escreveu apenas para pôr palavras numa marcha ou para animar uma festa. Havia nelas uma vontade muito clara de contar o Pinhal Novo, de preservar aquilo que distinguia a terra, as suas pessoas e os seus costumes, mas também de traduzir os sonhos e as ambições de uma comunidade que queria crescer sem perder a sua identidade. Era a música a servir de memória, mas também de retrato de um tempo que hoje pode ser lido através das palavras que ficaram.
Uma dessas ambições aparece numa frase que, ainda hoje, tem uma força particular: "Não serás concelho, mas serás cidade".
Era o Pinhal Novo a olhar para o futuro através de uma marcha, mas era também Álvaro Amaro a transformar em palavras aquilo que muitos pensavam e desejavam.
E essa vontade de contar a terra não ficou pelas marchas. Álvaro levou-a também para o teatro de revista, numa época em que as coletividades eram - e continuam a ser - espaços onde se encontravam músicos, atores, autores e pessoas dispostas a trabalhar para criar espetáculos.
Foi nesse ambiente que nasceu "Pinhal Novo, quem te viu e quem te vê", a primeira revista da vila, desenvolvida com o amigo Francisco Pimentel. Música, texto, humor e observação da realidade juntavam-se para levar ao palco uma espécie de retrato da própria comunidade.
Álvaro não se limitava, por isso, a participar na vida cultural do Pinhal Novo. Tinha uma necessidade quase natural de transformar aquilo que via e ouvia em alguma coisa que pudesse ser partilhada pelos outros. Talvez fosse essa a sua verdadeira forma de estar na terra.
Há uma característica que atravessa todo o percurso artístico de Álvaro Amaro: a vontade de retratar o lugar onde viveu.
Nas marchas que escreveu para as festas populares, procurava falar das tradições, das pessoas e daquilo que tornava Pinhal Novo diferente, mas também das esperanças e das ambições de uma comunidade que queria crescer.
Quando hoje se revisitam aquelas letras, percebe-se que Álvaro Amaro nunca escreveu apenas para pôr palavras numa marcha ou para animar uma festa. Havia nelas uma vontade muito clara de contar o Pinhal Novo, de preservar aquilo que distinguia a terra, as suas pessoas e os seus costumes, mas também de traduzir os sonhos e as ambições de uma comunidade que queria crescer sem perder a sua identidade. Era a música a servir de memória, mas também de retrato de um tempo que hoje pode ser lido através das palavras que ficaram.
Uma dessas ambições aparece numa frase que, ainda hoje, tem uma força particular: "Não serás concelho, mas serás cidade".
Era o Pinhal Novo a olhar para o futuro através de uma marcha, mas era também Álvaro Amaro a transformar em palavras aquilo que muitos pensavam e desejavam.
E essa vontade de contar a terra não ficou pelas marchas. Álvaro levou-a também para o teatro de revista, numa época em que as coletividades eram - e continuam a ser - espaços onde se encontravam músicos, atores, autores e pessoas dispostas a trabalhar para criar espetáculos.
Foi nesse ambiente que nasceu "Pinhal Novo, quem te viu e quem te vê", a primeira revista da vila, desenvolvida com o amigo Francisco Pimentel. Música, texto, humor e observação da realidade juntavam-se para levar ao palco uma espécie de retrato da própria comunidade.
Álvaro não se limitava, por isso, a participar na vida cultural do Pinhal Novo. Tinha uma necessidade quase natural de transformar aquilo que via e ouvia em alguma coisa que pudesse ser partilhada pelos outros. Talvez fosse essa a sua verdadeira forma de estar na terra.
O homem que preferia ficar na retaguarda
Ao longo dos anos, foram muitas as coletividades, festas, grupos e iniciativas por onde passou. Fez revistas, escreveu, tocou, cantou, organizou e ajudou.
Mas quando lhe perguntamos aquilo de que mais se orgulha numa vida tão cheia, não aparece imediatamente uma obra ou um espetáculo. Há uma pausa. E depois surge a resposta que parece reunir tudo. O orgulho de ter ajudado o Pinhal Novo a ser aquilo que é. "Eu ajudei sempre, sempre, sempre, sempre. Com trabalho".
Há uma coerência entre aquilo que diz e a forma como viveu. Nunca parece ter tido grande interesse em ficar no centro do palco quando havia trabalho para fazer atrás dele. "Eu fui sempre assim, mais retaguarda". Era ali que se sentia bem. Ajudar uma festa. Organizar uma atividade. Pôr uma coletividade a funcionar. Fazer uma marcha. Preparar uma revista. Tocar num palco. Estar disponível quando alguém precisava.
Foi assim que construiu a sua relação com o Pinhal Novo: não através de um grande gesto, mas através de milhares de pequenos gestos repetidos ao longo de uma vida.
Ao longo dos anos, foram muitas as coletividades, festas, grupos e iniciativas por onde passou. Fez revistas, escreveu, tocou, cantou, organizou e ajudou.
Mas quando lhe perguntamos aquilo de que mais se orgulha numa vida tão cheia, não aparece imediatamente uma obra ou um espetáculo. Há uma pausa. E depois surge a resposta que parece reunir tudo. O orgulho de ter ajudado o Pinhal Novo a ser aquilo que é. "Eu ajudei sempre, sempre, sempre, sempre. Com trabalho".
Há uma coerência entre aquilo que diz e a forma como viveu. Nunca parece ter tido grande interesse em ficar no centro do palco quando havia trabalho para fazer atrás dele. "Eu fui sempre assim, mais retaguarda". Era ali que se sentia bem. Ajudar uma festa. Organizar uma atividade. Pôr uma coletividade a funcionar. Fazer uma marcha. Preparar uma revista. Tocar num palco. Estar disponível quando alguém precisava.
Foi assim que construiu a sua relação com o Pinhal Novo: não através de um grande gesto, mas através de milhares de pequenos gestos repetidos ao longo de uma vida.
Ainda há um acordeão à espera
Hoje, esse homem que passou décadas com a música nas mãos já não consegue tocar como antes. O corpo mudou, a força diminuiu e a agilidade já não acompanha a vontade.
Mas o acordeão continua em casa. Está no escritório, junto dele. E talvez seja uma das imagens mais bonitas que esta conversa deixa.
Hoje, esse homem que passou décadas com a música nas mãos já não consegue tocar como antes. O corpo mudou, a força diminuiu e a agilidade já não acompanha a vontade.
Mas o acordeão continua em casa. Está no escritório, junto dele. E talvez seja uma das imagens mais bonitas que esta conversa deixa.
Álvaro sabe que já não é o mesmo homem que percorria o país com os Terno d'Ouros, que chegava a casa de madrugada depois de um espetáculo ou que pegava no acordeão para acompanhar uma música.
Mas o instrumento continua a fazer parte da sua vida. Não lhe pega porque sabe o que isso lhe provoca.
"Eu, se lhe pego e começo a chorar". Não é simplesmente saudade do instrumento. É como se naquele acordeão estivesse guardada uma parte inteira da sua vida.
Mas o instrumento continua a fazer parte da sua vida. Não lhe pega porque sabe o que isso lhe provoca.
"Eu, se lhe pego e começo a chorar". Não é simplesmente saudade do instrumento. É como se naquele acordeão estivesse guardada uma parte inteira da sua vida.
Por isso fala com ele. "Deixa-te estar aí. Deixa-te estar aí ao pé de mim". E o acordeão fica. E as recordações também.
Ainda canta com a mulher
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| No aniversário do GD Valdera com a sua mulher |
Quando chega o momento de cantar, há ainda aquele pequeno nervosismo que aparece antes de qualquer palco. "Aquele bichinho na barriga".
Depois começa. E a música leva-os. Muitas vezes cantam um para o outro, sobretudo aquelas canções que falam de amor, e há uma ternura especial na forma como Álvaro conta esses momentos.
Depois de uma vida inteira entre música, trabalho e pessoas, talvez seja precisamente ali, ao lado da mulher, que a música encontra hoje a sua forma mais íntima.
"Tenho uma grande mulher"
Fala dela como alguém que esteve presente, que o apoiou e que foi uma parte fundamental do caminho que fizeram juntos. Mas, no meio da conversa, surge uma expressão ainda mais espontânea, daquelas que provavelmente dizem muito mais sobre a relação entre os dois do que qualquer declaração preparada.
"É uma boazona", diz Álvaro, com o carinho e a cumplicidade de quem continua a olhar para a mulher com admiração.
É uma palavra simples, quase brincalhona, mas profundamente afetuosa. E talvez seja precisamente por isso que merece ficar. Porque nesta conversa há frases que explicam a vida de Álvaro Amaro e há outras que simplesmente mostram quem ele é.
"É uma boazona", diz Álvaro, com o carinho e a cumplicidade de quem continua a olhar para a mulher com admiração.
É uma palavra simples, quase brincalhona, mas profundamente afetuosa. E talvez seja precisamente por isso que merece ficar. Porque nesta conversa há frases que explicam a vida de Álvaro Amaro e há outras que simplesmente mostram quem ele é.
Quando a conversa chega à vida a dois e perguntamos qual é o segredo para tantos anos juntos, Álvaro não precisa de pensar muito.
"Tenho uma grande mulher". Fala dela como alguém que esteve presente, que o apoiou e que foi uma parte fundamental do caminho que fizeram juntos. Não romantiza a vida em casal. Reconhece que também existem diferenças, pequenas discussões e dias menos fáceis. "Às vezes também tem as suas birras. Mas pronto, eu também às vezes tenho as minhas".
O segredo, afinal, parece estar menos em nunca discordar e mais em saber regressar ao mesmo lugar. "Chegamos sempre a um acordo".
E, quando resume a relação entre os dois, volta à palavra que tantas vezes aparece nesta conversa. Apoio. "A gente apoia-se muito um ao outro".
"Tenho uma grande mulher". Fala dela como alguém que esteve presente, que o apoiou e que foi uma parte fundamental do caminho que fizeram juntos. Não romantiza a vida em casal. Reconhece que também existem diferenças, pequenas discussões e dias menos fáceis. "Às vezes também tem as suas birras. Mas pronto, eu também às vezes tenho as minhas".
O segredo, afinal, parece estar menos em nunca discordar e mais em saber regressar ao mesmo lugar. "Chegamos sempre a um acordo".
E, quando resume a relação entre os dois, volta à palavra que tantas vezes aparece nesta conversa. Apoio. "A gente apoia-se muito um ao outro".
O conselho de quem passou uma vida a dar
| O homem por detrás de tantas músicas e histórias da terra |
Não fala como quem quer dar uma lição. Fala como alguém que passou a vida a participar e que gostaria de ver as novas gerações fazerem o mesmo.
Gostaria que houvesse mais envolvimento, mais interesse pelas associações, pelas coletividades e pelas dinâmicas da própria terra. "Se envolvam nas dinâmicas da terra, nas associações".
É difícil não perceber a ligação entre o conselho e a própria vida. Álvaro Amaro não ficou à espera de que alguém fizesse. Foi. Ajudou. Aprendeu. Criou. E voltou a ajudar.
Foi assim quando era criança e precisava de trabalhar. Foi assim quando aprendeu a ser barbeiro. Foi assim quando começou a tocar. Foi assim nas coletividades, nas festas, nas revistas e nos palcos.
Sempre que havia alguma coisa para fazer, aparecia. Porque era preciso. A memória pode falhar, mas algumas histórias continuam inteiras
A tarde vai avançando e a conversa vai ficando mais calma. Há momentos em que a memória encontra imediatamente o caminho e outros em que é preciso procurar uma palavra, confirmar um nome ou recorrer à ajuda de Álvaro Filho.
É natural. Uma vida tão longa não cabe inteira dentro da memória de uma só pessoa. Mas há coisas que continuam lá.
A imagem da mãe. A fome. A viagem para Lisboa. O comboio que passou a estação. A caminhada de criança junto à linha. A primeira barbearia. O senhor Américo. Os clientes. A música que vinha da Sociedade Filarmónica. O acordeão. Os Terno d'Ouros. As viagens. Os discos. A Marcha do Vitória. As revistas. As letras. As festas. A mulher. E o Pinhal Novo.
Talvez seja isso que mais impressiona nesta conversa. Álvaro Amaro não fala apenas de uma vida que passou. Fala de uma vida que ficou espalhada pela terra onde escolheu viver.
Ficou numa cadeira de barbeiro, onde durante décadas ouviu histórias de quem se sentava diante dele.
Ficou nas músicas que escreveu e nas que ajudou a levar aos palcos.
Ficou nas marchas que procuraram cantar a identidade de Pinhal Novo e até os seus sonhos de futuro.
Ficou nas revistas, nas coletividades, nos amigos e nas muitas pessoas que com ele partilharam uma parte do caminho.
E ficou também dentro da família, onde hoje os filhos ajudam a recuperar algumas das memórias que o tempo começa a esconder.
Naquela mesa de jardim, ao final de uma tarde de Julho, estão dois homens chamados Álvaro Amaro. Em Pinhal Novo, toda a gente sabe distingui-los. Um é Álvaro Pai. O outro é Álvaro Filho.
Mas, por momentos, essa distinção parece perder importância. O que existe ali é uma história que passa de uma geração para outra, com o filho a ajudar o pai a reencontrar nomes, lugares e episódios, e o pai a mostrar, através das memórias que ainda guarda, uma parte do Pinhal Novo que já não existe da mesma maneira.
Álvaro Amaro nasceu quando a terra era pequena. Viu-a crescer. Ajudou-a a crescer. E, pelo caminho, deixou-lhe música, palavras, trabalho, amizade e memória. Talvez seja essa a verdadeira medida de uma vida.
Não aquilo que se acumulou. Não aquilo que se ganhou. Mas aquilo que se deixou nos outros. E Álvaro Amaro deixou muito. Porque há pessoas que vivem numa terra. E há outras que, de tanto darem a essa terra, passam a fazer parte da sua própria história.




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