O homem que fez da tradição, do comércio e da comunidade uma forma de vida
Há pessoas que ajudam a construir uma terra sem nunca pedirem para ficar na fotografia. Jorge Lagarto é uma delas. Comerciante há quase cinco décadas, dirigente associativo, rosto do Grupo Desportivo de Valdera e um dos grandes impulsionadores do Jogo do Pau, fez da dedicação à comunidade uma forma de estar na vida. Nesta edição de Gente da Nossa Terra, a ADN leva-o a descobrir o homem que une gerações entre Valdera e Pinhal Novo e que continua, todos os dias, a preservar uma das mais genuínas identidades da nossa terra: o Jogo do Pau.![]() |
| O percurso discreto de um homem dedicado à sua terra |
Há terras que se escolhem. Outras escolhem-nos a nós. Jorge Lagarto nasceu em Angola, mas nunca teve dúvidas sobre o lugar a que pertencia. Os pais eram caramelos dos Arraiados e foi naquela pequena comunidade rural da freguesia de Pinhal Novo que sempre encontrou as raízes da sua identidade. Mesmo antes de ali viver, aquela terra já fazia parte das histórias que ouvia em casa, das recordações da família e da forma simples como lhe ensinaram o valor do trabalho, da palavra dada e da entreajuda.
Quando regressou definitivamente a Portugal, em 1976, tinha apenas a idade própria de um rapaz que começava a descobrir a vida. Os pais voltariam ainda a Angola durante algum tempo, mas Jorge ficou. Cresceu entre Pinhal Novo e Palmela, estudou, fez amigos e começou a construir um caminho que nunca mais abandonaria. "Os meus pais são da freguesia, são caramelos da zona dos Arraiados. Em 1976 vim para cá e por cá fiquei".
A frase é curta, mas diz muito mais do que aparenta. Porque, às vezes, uma vida inteira resume-se precisamente a isso: chegar a casa e decidir nunca mais partir.
Hoje, poucos imaginam que aquele homem que todos os dias recebe clientes atrás do balcão do talho Rosbife, na Avenida da Liberdade, nasceu a milhares de quilómetros dali. Para a esmagadora maioria dos pinhalnovenses, Jorge é simplesmente uma presença familiar. Alguém que faz parte da paisagem humana da vila há décadas e cuja vida se confunde com a própria evolução da terra.
Entre o comércio de proximidade, o associativismo e a preservação de uma das mais antigas tradições populares portuguesas, construiu um percurso discreto, sempre mais preocupado em servir do que em ser reconhecido. Nunca procura colocar-se em primeiro plano. Pelo contrário. Ao longo da conversa, percebe-se que fala sempre primeiro da família, dos amigos, da coletividade e da comunidade. Só depois, quase por obrigação, fala de si.
Talvez porque tenha aprendido muito cedo que ninguém constrói uma terra sozinho. Faz-se sempre acompanhado.
Entre Valdera e Pinhal Novo, uma vida feita de raízes
Há uma palavra que regressa várias vezes durante a conversa com Jorge Lagarto: comunidade.
Não a utiliza como um conceito bonito nem como uma expressão feita. Fala dela porque a viveu desde criança, quando o Pinhal Novo tinha outro ritmo, outras dimensões e uma proximidade que hoje recorda com um sorriso tranquilo. "Praticamente todas as pessoas se conheciam".
Basta essa frase para descrever uma época. Uma vila onde as portas permaneciam abertas, onde os vizinhos se cruzavam diariamente e onde os encontros aconteciam sem necessidade de marcar hora.
As memórias sucedem-se naturalmente. Os cinemas, os bares, o antigo mercado municipal, a feira do segundo domingo de cada mês, as ruas quase vazias, a Salgueirinha com meia dúzia de casas e uma vila que crescia devagar, sem pressa de deixar para trás a sua identidade rural.
Quando olha para esse tempo, não o faz com nostalgia excessiva. Limita-se a sorrir e resume tudo numa frase que muitos da sua geração compreenderão de imediato. "Éramos felizes e não sabíamos"!
É uma memória partilhada por quem viveu um Pinhal Novo onde as relações humanas valiam mais do que qualquer tecnologia e onde o tempo parecia correr de forma diferente.
Mas, se a vila foi o lugar onde estudou, trabalhou e construiu a sua vida adulta, é em Valdera que continua a encontrar uma parte importante de si.
Ali vivem familiares. Ali permanecem amigos de uma vida inteira. E foi ali que assistiu ao nascimento de uma coletividade que acabaria por marcar profundamente o seu percurso.
"Vi aquele clube ser fundado. Vi construírem o campo. Vi construir parte da sede". Fala do Grupo Desportivo de Valdera com a emoção de quem não leu essa história num livro. Viveu-a.
O pai, Isidoro Lagarto, foi um dos fundadores da coletividade e Jorge cresceu literalmente ao lado daquele projeto. Ainda adolescente integrou uma das direções e vestiu também a camisola da equipa de futebol antes de seguir para o Pinhalnovense.
Os anos passaram. Vieram outras responsabilidades, outras prioridades e outros desafios. Mas houve uma coisa que nunca mudou. "Valdera ficou sempre e é a minha terra".
Hoje reconhece que muita coisa se transformou. Muitas famílias partiram, chegaram novos moradores e a comunidade já não tem a mesma proximidade que existia há quatro ou cinco décadas.
"Antigamente havia uma comunidade mais enraizada e mais amiga. Agora está tudo mais disperso". Não o diz em tom de crítica. Diz apenas como quem conhece profundamente a evolução da terra onde cresceu e aceita que o tempo muda inevitavelmente as pessoas e os lugares.
Ainda assim, basta caminhar alguns minutos por Valdera para perceber que aquelas raízes continuam bem vivas. E que Jorge Lagarto nunca deixou verdadeiramente de lhes pertencer.
Há uma palavra que regressa várias vezes durante a conversa com Jorge Lagarto: comunidade.
Não a utiliza como um conceito bonito nem como uma expressão feita. Fala dela porque a viveu desde criança, quando o Pinhal Novo tinha outro ritmo, outras dimensões e uma proximidade que hoje recorda com um sorriso tranquilo. "Praticamente todas as pessoas se conheciam".
Basta essa frase para descrever uma época. Uma vila onde as portas permaneciam abertas, onde os vizinhos se cruzavam diariamente e onde os encontros aconteciam sem necessidade de marcar hora.
As memórias sucedem-se naturalmente. Os cinemas, os bares, o antigo mercado municipal, a feira do segundo domingo de cada mês, as ruas quase vazias, a Salgueirinha com meia dúzia de casas e uma vila que crescia devagar, sem pressa de deixar para trás a sua identidade rural.
Quando olha para esse tempo, não o faz com nostalgia excessiva. Limita-se a sorrir e resume tudo numa frase que muitos da sua geração compreenderão de imediato. "Éramos felizes e não sabíamos"!
É uma memória partilhada por quem viveu um Pinhal Novo onde as relações humanas valiam mais do que qualquer tecnologia e onde o tempo parecia correr de forma diferente.
Mas, se a vila foi o lugar onde estudou, trabalhou e construiu a sua vida adulta, é em Valdera que continua a encontrar uma parte importante de si.
Ali vivem familiares. Ali permanecem amigos de uma vida inteira. E foi ali que assistiu ao nascimento de uma coletividade que acabaria por marcar profundamente o seu percurso.
"Vi aquele clube ser fundado. Vi construírem o campo. Vi construir parte da sede". Fala do Grupo Desportivo de Valdera com a emoção de quem não leu essa história num livro. Viveu-a.
O pai, Isidoro Lagarto, foi um dos fundadores da coletividade e Jorge cresceu literalmente ao lado daquele projeto. Ainda adolescente integrou uma das direções e vestiu também a camisola da equipa de futebol antes de seguir para o Pinhalnovense.
Os anos passaram. Vieram outras responsabilidades, outras prioridades e outros desafios. Mas houve uma coisa que nunca mudou. "Valdera ficou sempre e é a minha terra".
Hoje reconhece que muita coisa se transformou. Muitas famílias partiram, chegaram novos moradores e a comunidade já não tem a mesma proximidade que existia há quatro ou cinco décadas.
"Antigamente havia uma comunidade mais enraizada e mais amiga. Agora está tudo mais disperso". Não o diz em tom de crítica. Diz apenas como quem conhece profundamente a evolução da terra onde cresceu e aceita que o tempo muda inevitavelmente as pessoas e os lugares.
Ainda assim, basta caminhar alguns minutos por Valdera para perceber que aquelas raízes continuam bem vivas. E que Jorge Lagarto nunca deixou verdadeiramente de lhes pertencer.
O homem que todos conhecem pelo nome
| Jorge Lagarto discursa na comemoração dos 50 anos do GD Valdera |
Ali, entre facas, balcões e conversas que raramente se limitam ao que vai para o saco das compras, construiu uma relação de proximidade difícil de encontrar nos dias de hoje.
Quando lhe perguntam há quanto tempo trabalha no setor, não responde com uma data. Responde com uma memória da terra. "Faz, na semana da Festa da Atalaia, 48 anos". Ou seja, na última semana de Agosto.
É uma resposta que diz muito sobre a forma como mede o tempo. Não o faz pelos calendários nem pelos aniversários profissionais. Mede-o pelas festas da terra, pelas pessoas que viu crescer e pelos momentos que ficaram gravados na memória.
Ao longo destas quase cinco décadas assistiu à transformação do Pinhal Novo praticamente da primeira fila. Viu crianças tornarem-se adultos. Conheceu várias gerações da mesma família. Recebe hoje filhos e netos daqueles que um dia entravam no talho de mão dada com os pais.
No comércio tradicional, vender nunca foi apenas vender. É ouvir. É conversar. É saber perguntar pela família. É perceber quando alguém entra calado porque a vida não lhe está a correr bem. Jorge aprendeu isso muito antes de se falar em comércio de proximidade.
Talvez seja essa experiência que explica a serenidade com que encara tudo o resto. No talho, como na vida, nunca acreditou que o mais importante fosse aparecer. Sempre preferiu estar presente.
E talvez seja precisamente essa discrição que faça dele uma das figuras mais respeitadas da comunidade.
O varapau como herança da família Lagarto
Para compreender verdadeiramente quem é Jorge Lagarto, não basta conhecê-lo atrás do balcão do talho ou vê-lo envolvido na vida associativa. Há uma parte da sua história que começou muito antes de ele próprio pegar num varapau. É uma herança que lhe chegou pela família, pelas conversas ouvidas desde criança e pelo exemplo daqueles que fizeram desta arte uma forma de viver e de preservar a identidade da terra.
O Jogo do Pau de Valdera é uma das mais antigas escolas portuguesas desta arte marcial tradicional. Desenvolvida a partir dos ensinamentos do Mestre António Moleiro, distingue-se por uma técnica própria, marcada pela rapidez dos movimentos, pelo ataque e pelo domínio do varapau. Mais do que uma prática desportiva, representa um património cultural transmitido de geração em geração e profundamente ligado à história rural de Valdera e do Pinhal Novo.
Na família Lagarto, essa tradição nunca foi apenas uma memória distante. Fez parte da vida de várias gerações. O pai, Isidoro Lagarto, foi praticante do Mestre António Moleiro. O mesmo aconteceu com o tio, Herculano Lagarto. Jorge cresceu a ouvir falar dos antigos mestres, das demonstrações, dos encontros e do respeito que existia por quem dominava aquela arte. Ainda sem o saber, estava a receber uma herança que um dia acabaria por assumir como sua.
Curiosamente, o Jogo do Pau não entrou cedo na sua vida. Durante muitos anos, foi o futebol que ocupou o tempo livre, primeiro em Valdera e depois no Pinhalnovense. O varapau ficou guardado nas histórias da família, à espera do momento certo.
Esse momento chegou em 2002. Um convite de Álvaro Amaro, então presidente da Junta de Freguesia do Pinhal Novo, acabaria por mudar o rumo dessa história. A ideia passava por reunir antigos praticantes e recuperar uma tradição que começava a perder espaço. Jorge aceitou quase por curiosidade, sem imaginar que aquele primeiro treino marcaria as duas décadas seguintes da sua vida.
"O meu desporto sempre foi o futebol, mas também nunca é demais aprendermos mais qualquer coisa. Fui aprendendo e continuo a aprender, porque nós aprendemos todos os dias", sublinha.
A frase revela muito da sua personalidade. Nunca se coloca na posição de quem sabe tudo. Pelo contrário. Mesmo depois de tantos anos ligados ao Jogo do Pau, continua a falar como um aprendiz. Talvez seja precisamente essa humildade que explique o respeito que conquistou junto de quem com ele partilha os treinos.
Com o passar dos anos, ajudou a devolver estabilidade a uma tradição que corria o risco de desaparecer. Passou por diferentes projetos, participou na criação da Escola do Jogo do Pau do Concelho da Moita e voltou, mais recentemente, a assumir responsabilidades na reorganização da classe de Valdera, procurando criar condições para que esta arte continue viva durante muitas gerações.
No entanto, basta alguém tratá-lo por mestre para surgir imediatamente uma correção. "Eu não sou mestre. Sou praticante do Jogo do Pau".
É uma resposta que diz muito sobre a forma como mede o tempo. Não o faz pelos calendários nem pelos aniversários profissionais. Mede-o pelas festas da terra, pelas pessoas que viu crescer e pelos momentos que ficaram gravados na memória.
Ao longo destas quase cinco décadas assistiu à transformação do Pinhal Novo praticamente da primeira fila. Viu crianças tornarem-se adultos. Conheceu várias gerações da mesma família. Recebe hoje filhos e netos daqueles que um dia entravam no talho de mão dada com os pais.
No comércio tradicional, vender nunca foi apenas vender. É ouvir. É conversar. É saber perguntar pela família. É perceber quando alguém entra calado porque a vida não lhe está a correr bem. Jorge aprendeu isso muito antes de se falar em comércio de proximidade.
Talvez seja essa experiência que explica a serenidade com que encara tudo o resto. No talho, como na vida, nunca acreditou que o mais importante fosse aparecer. Sempre preferiu estar presente.
E talvez seja precisamente essa discrição que faça dele uma das figuras mais respeitadas da comunidade.
Para compreender verdadeiramente quem é Jorge Lagarto, não basta conhecê-lo atrás do balcão do talho ou vê-lo envolvido na vida associativa. Há uma parte da sua história que começou muito antes de ele próprio pegar num varapau. É uma herança que lhe chegou pela família, pelas conversas ouvidas desde criança e pelo exemplo daqueles que fizeram desta arte uma forma de viver e de preservar a identidade da terra.
O Jogo do Pau de Valdera é uma das mais antigas escolas portuguesas desta arte marcial tradicional. Desenvolvida a partir dos ensinamentos do Mestre António Moleiro, distingue-se por uma técnica própria, marcada pela rapidez dos movimentos, pelo ataque e pelo domínio do varapau. Mais do que uma prática desportiva, representa um património cultural transmitido de geração em geração e profundamente ligado à história rural de Valdera e do Pinhal Novo.
Na família Lagarto, essa tradição nunca foi apenas uma memória distante. Fez parte da vida de várias gerações. O pai, Isidoro Lagarto, foi praticante do Mestre António Moleiro. O mesmo aconteceu com o tio, Herculano Lagarto. Jorge cresceu a ouvir falar dos antigos mestres, das demonstrações, dos encontros e do respeito que existia por quem dominava aquela arte. Ainda sem o saber, estava a receber uma herança que um dia acabaria por assumir como sua.
Curiosamente, o Jogo do Pau não entrou cedo na sua vida. Durante muitos anos, foi o futebol que ocupou o tempo livre, primeiro em Valdera e depois no Pinhalnovense. O varapau ficou guardado nas histórias da família, à espera do momento certo.
Esse momento chegou em 2002. Um convite de Álvaro Amaro, então presidente da Junta de Freguesia do Pinhal Novo, acabaria por mudar o rumo dessa história. A ideia passava por reunir antigos praticantes e recuperar uma tradição que começava a perder espaço. Jorge aceitou quase por curiosidade, sem imaginar que aquele primeiro treino marcaria as duas décadas seguintes da sua vida.
"O meu desporto sempre foi o futebol, mas também nunca é demais aprendermos mais qualquer coisa. Fui aprendendo e continuo a aprender, porque nós aprendemos todos os dias", sublinha.
A frase revela muito da sua personalidade. Nunca se coloca na posição de quem sabe tudo. Pelo contrário. Mesmo depois de tantos anos ligados ao Jogo do Pau, continua a falar como um aprendiz. Talvez seja precisamente essa humildade que explique o respeito que conquistou junto de quem com ele partilha os treinos.
Com o passar dos anos, ajudou a devolver estabilidade a uma tradição que corria o risco de desaparecer. Passou por diferentes projetos, participou na criação da Escola do Jogo do Pau do Concelho da Moita e voltou, mais recentemente, a assumir responsabilidades na reorganização da classe de Valdera, procurando criar condições para que esta arte continue viva durante muitas gerações.
No entanto, basta alguém tratá-lo por mestre para surgir imediatamente uma correção. "Eu não sou mestre. Sou praticante do Jogo do Pau".
A resposta é quase instintiva. Não procura falsa modéstia. É apenas a forma como encara o lugar que ocupa. Conhece bem a importância da palavra "mestre" dentro desta tradição e acredita que esse reconhecimento pertence àqueles que dedicaram uma vida inteira ao ensino da modalidade.
Essa forma de estar acaba por dizer tanto sobre Jorge Lagarto como qualquer currículo. Num tempo em que tantas pessoas procuram títulos, distinções e reconhecimento público, ele continua a preferir que sejam o trabalho, a dedicação e a continuidade da tradição a falar por si.
Essa forma de estar acaba por dizer tanto sobre Jorge Lagarto como qualquer currículo. Num tempo em que tantas pessoas procuram títulos, distinções e reconhecimento público, ele continua a preferir que sejam o trabalho, a dedicação e a continuidade da tradição a falar por si.
Mais do que uma arte, uma forma de estar na vida
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| "Nós não vamos jogar contra ninguém. Vamos jogar com eles" |
Mas também faz questão de explicar que os tempos mudaram. "Antigamente jogava-se mesmo para bater. Quem sabia, sabia. Quem não sabia, aleijava-se. Agora é diferente. Nós tentamos evitar isso. O importante é criar os movimentos, aprender a técnica e respeitar quem está do outro lado".
É talvez nesta mudança que reside a maior evolução da modalidade. O objetivo deixou de ser derrotar o adversário para passar a valorizar a aprendizagem, o controlo e o respeito mútuo. A técnica continua exigente. O rigor mantém-se. Mas o espírito é hoje completamente diferente.
Essa filosofia sente-se também na relação entre as diferentes escolas espalhadas pelo país. Onde antes existiam rivalidades, hoje predominam a amizade, a partilha de conhecimentos e a vontade comum de preservar um património que pertence a todos.
"Nós não vamos jogar contra ninguém. Vamos jogar com eles. São nossos amigos. Pode haver um adversário naquele momento, mas há um respeito mútuo que é fundamental", frisa.
Talvez seja esta a frase que melhor resume a visão de Jorge Lagarto sobre o Jogo do Pau. Mais do que ensinar movimentos, procura transmitir valores. Mais do que formar praticantes, procura formar pessoas.
É por isso que, quando alguém aparece pela primeira vez num treino, nunca pergunta de onde vem, que profissão tem ou se já praticou qualquer modalidade.
A resposta é sempre simples. "Qualquer pessoa pode aprender, desde que tenha braços e mãos". Por trás da frase, dita entre sorrisos, esconde-se uma convicção profunda: as tradições só sobrevivem quando sabem receber quem chega de novo. E Jorge acredita que o futuro do Jogo do Pau depende precisamente dessa capacidade de abrir portas sem perder a identidade que o tornou único.
Quando a tradição passa de pai para filha
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| Tradição do varapau transmitida à filha Patrícia |
Quando lhe perguntam o que sente ao vê-la treinar e participar nas demonstrações, a resposta chega sem hesitações. "Sinto uma alegria. Ela vive mesmo o Jogo do Pau. Gosta daquilo e, com os anos e com a aprendizagem, vai ganhando técnica, prática e saber fazer as coisas".
Enquanto fala, percebe-se que o orgulho não nasce apenas por ser sua filha. Nasce da certeza de que aquela tradição encontrou quem a continue.
Talvez seja esse o verdadeiro legado de Jorge . Não o número de exibições realizadas, nem os encontros nacionais em que participou, mas a capacidade de despertar nos mais novos o interesse por uma arte que podia ter ficado perdida no tempo. Quando olha para a Patrícia, vê muito mais do que uma praticante. Vê a prova de que o futuro se constrói quando alguém decide receber e, um dia, passar o testemunho a quem vem a seguir.
É também por isso que faz questão de deixar uma porta sempre aberta. "Quem quiser praticar pode aparecer. A nossa escola funciona todas as sextas-feiras, a partir das nove da noite, na sede do Grupo Desportivo Valdera".
Talvez seja esse o verdadeiro legado de Jorge . Não o número de exibições realizadas, nem os encontros nacionais em que participou, mas a capacidade de despertar nos mais novos o interesse por uma arte que podia ter ficado perdida no tempo. Quando olha para a Patrícia, vê muito mais do que uma praticante. Vê a prova de que o futuro se constrói quando alguém decide receber e, um dia, passar o testemunho a quem vem a seguir.
É também por isso que faz questão de deixar uma porta sempre aberta. "Quem quiser praticar pode aparecer. A nossa escola funciona todas as sextas-feiras, a partir das nove da noite, na sede do Grupo Desportivo Valdera".
Não escolhe alunos, nem faz distinções. Para Jorge, o importante nunca foi saber quem chega primeiro. É garantir que haverá sempre alguém disposto a continuar o caminho.
Um coração dividido pela mesma terra
Ao longo da conversa, torna-se evidente que Jorge Lagarto nunca sentiu necessidade de escolher entre Valdera e Pinhal Novo. Para ele, nunca existiram duas terras diferentes. Existe apenas uma identidade construída entre o campo e a vila, entre as origens rurais da família e a comunidade onde cresceu, trabalhou e fez vida.
É por isso que fala do desenvolvimento do Pinhal Novo com naturalidade. Reconhece as mudanças, o crescimento e as novas dinâmicas, mas faz questão de lembrar que a essência da freguesia continua ligada ao mundo rural.
"O Pinhal Novo evoluiu muito e continua a crescer. Mas, quer queiramos quer não, continua a ser uma zona rural. Basta andarmos quinhentos metros e voltamos a estar no campo".
Quem o ouve percebe que não existe qualquer conflito entre progresso e tradição. Na sua forma de ver a terra, uma realidade não anula a outra. Pelo contrário. Complementam-se.
Ao longo da conversa, torna-se evidente que Jorge Lagarto nunca sentiu necessidade de escolher entre Valdera e Pinhal Novo. Para ele, nunca existiram duas terras diferentes. Existe apenas uma identidade construída entre o campo e a vila, entre as origens rurais da família e a comunidade onde cresceu, trabalhou e fez vida.
É por isso que fala do desenvolvimento do Pinhal Novo com naturalidade. Reconhece as mudanças, o crescimento e as novas dinâmicas, mas faz questão de lembrar que a essência da freguesia continua ligada ao mundo rural.
"O Pinhal Novo evoluiu muito e continua a crescer. Mas, quer queiramos quer não, continua a ser uma zona rural. Basta andarmos quinhentos metros e voltamos a estar no campo".
Quem o ouve percebe que não existe qualquer conflito entre progresso e tradição. Na sua forma de ver a terra, uma realidade não anula a outra. Pelo contrário. Complementam-se.
Talvez por isso fale com tanto carinho da identidade caramela. Durante muitos anos, recorda, a palavra "caramelo" era utilizada quase como uma provocação dirigida a quem vivia e trabalhava no campo. Muitos evitavam essa designação. Outros até a escondiam.
Hoje tudo mudou. "No meu tempo, o pessoal do Pinhal Novo não queria ser caramelo. Chamavam caramelos à malta das zonas rurais. Agora é fino ser caramelo".
A frase é dita entre sorrisos, mas revela uma transformação profunda na forma como a comunidade passou a olhar para as suas próprias raízes.
Mais do que um nome, ser caramelo tornou-se um motivo de orgulho. E Jorge gosta particularmente de uma expressão que tem vindo a ganhar força nos últimos anos. "Agora até há caramelos de adoção".
Diz a frase com satisfação. Afinal, acredita que uma terra forte não é aquela que fecha portas para proteger a identidade. É aquela que sabe receber quem chega, integrando novas pessoas sem perder a memória do caminho que a trouxe até aqui.
No fundo, é exatamente isso que vê acontecer no Pinhal Novo. Uma terra que cresce, que muda e que recebe gente de todo o país, mas que continua a reconhecer nas suas origens rurais uma parte essencial daquilo que é.
Quando lhe perguntam porque nunca pensou sair daqui, a resposta surge sem hesitação.
"Não me estava a ver a morar em Lisboa. Temos aqui a família, temos aqui os amigos, temos aqui tudo", conta.
Hoje tudo mudou. "No meu tempo, o pessoal do Pinhal Novo não queria ser caramelo. Chamavam caramelos à malta das zonas rurais. Agora é fino ser caramelo".
A frase é dita entre sorrisos, mas revela uma transformação profunda na forma como a comunidade passou a olhar para as suas próprias raízes.
Mais do que um nome, ser caramelo tornou-se um motivo de orgulho. E Jorge gosta particularmente de uma expressão que tem vindo a ganhar força nos últimos anos. "Agora até há caramelos de adoção".
Diz a frase com satisfação. Afinal, acredita que uma terra forte não é aquela que fecha portas para proteger a identidade. É aquela que sabe receber quem chega, integrando novas pessoas sem perder a memória do caminho que a trouxe até aqui.
No fundo, é exatamente isso que vê acontecer no Pinhal Novo. Uma terra que cresce, que muda e que recebe gente de todo o país, mas que continua a reconhecer nas suas origens rurais uma parte essencial daquilo que é.
Quando lhe perguntam porque nunca pensou sair daqui, a resposta surge sem hesitação.
"Não me estava a ver a morar em Lisboa. Temos aqui a família, temos aqui os amigos, temos aqui tudo", conta.
Não fala de comodidade nem de localização geográfica. Fala de pertença. Porque há lugares onde se vive. E há lugares onde se pertence.
Para Jorge, Valdera e Pinhal Novo nunca foram dois pontos diferentes no mapa. São duas faces da mesma casa. E é nessa casa que continua, todos os dias, a construir discretamente uma pequena parte da história da nossa terra.
Para Jorge, Valdera e Pinhal Novo nunca foram dois pontos diferentes no mapa. São duas faces da mesma casa. E é nessa casa que continua, todos os dias, a construir discretamente uma pequena parte da história da nossa terra.
O homem que pensa sempre no amanhã
Ao longo desta conversa, Jorge Lagarto falou muitas vezes do passado. Recordou pessoas, lugares, histórias e tradições que marcaram a sua vida. Curiosamente, quase nunca falou de si.
Sempre que a conversa parecia encaminhar-se para os elogios, desviava naturalmente o foco para os outros. Primeiro surgia a família. Depois os amigos. A seguir a coletividade, os companheiros de treino e aqueles que, todos os dias, continuam a manter viva a comunidade onde cresceu. Só muito depois aparecia Jorge Lagarto.
Talvez seja essa a maior marca que deixa em tudo aquilo a que se dedica. No talho, onde há quase meio século atende gerações de clientes. Em Valdera, onde acompanhou o nascimento, o crescimento e o renascimento do Grupo Desportivo. No Jogo do Pau, onde continua a aprender apesar da experiência acumulada. E, sobretudo, na forma como acredita que o associativismo continua a ser um dos pilares mais importantes de uma terra que nunca deixou de sentir como sua.
Quando lhe pedimos que resumisse 50 anos do Grupo Desportivo de Valdera numa única frase, sorriu antes de responder. "Complicado". Afinal, meio século de história dificilmente cabe em poucas palavras.
Mas a resposta verdadeiramente importante surgiu logo a seguir. Perguntámos-lhe que mensagem gostaria de deixar para o futuro da coletividade. "Calhou-me estar nos 25 anos. Está-me a calhar estar nos 50. Com a idade que tenho, acho que já não vou estar nos 75 anos".
Não há tristeza nestas palavras. Há apenas a serenidade de quem compreende que o tempo passa por todos e que nenhuma obra pertence apenas a uma pessoa.
Depois deixa uma frase que, mais do que um desejo, acaba por resumir toda a sua forma de estar na vida. "O que eu desejo para o Clube Desportivo de Valdera é que quem venha a seguir a mim faça sempre melhor daquilo que eu fiz".
"O legado"
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| Instalações do Grupo Desportivo de Valdera |
Num tempo em que tantas pessoas procuram reconhecimento, há quem continue a encontrar satisfação em ver os outros crescer. Há quem prefira construir em silêncio, sem esperar aplausos, acreditando que o verdadeiro sucesso está em deixar as coisas um pouco melhores do que as encontrou.
É exatamente isso que Jorge faz. Todas as sextas-feiras volta a pegar no varapau. Não para provar que sabe mais do que os outros, mas porque acredita que uma tradição só continua viva quando alguém está disposto a ensiná-la. Da mesma forma que, durante quase 50 anos, continuou a abrir diariamente a porta do talho, sabendo que o comércio de proximidade também se constrói com confiança, amizade e tempo.
No fundo, são essas pequenas rotinas que explicam a dimensão do homem. Não há monumentos erguidos em sua homenagem. Não há medalhas penduradas ao peito. Há algo muito mais raro. Há respeito. E esse conquista-se todos os dias.
No fundo, são essas pequenas rotinas que explicam a dimensão do homem. Não há monumentos erguidos em sua homenagem. Não há medalhas penduradas ao peito. Há algo muito mais raro. Há respeito. E esse conquista-se todos os dias.
Na simplicidade de um cumprimento. Na palavra dada. Na disponibilidade para ajudar. Na capacidade de colocar sempre a comunidade acima do protagonismo. Talvez seja por isso que, quando um dia se escrever a história contemporânea de Valdera e do Pinhal Novo, o nome de Jorge Lagarto não apareça apenas ligado ao Jogo do Pau, ao comércio ou ao associativismo.
Aparecerá, acima de tudo, ligado às pessoas. Porque há homens que deixam obra. E há homens que deixam exemplo. Jorge pertence, sem dúvida, ao segundo grupo.
Aparecerá, acima de tudo, ligado às pessoas. Porque há homens que deixam obra. E há homens que deixam exemplo. Jorge pertence, sem dúvida, ao segundo grupo.




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