Pinhal Novo celebra 75 anos de coragem: bombeiros pedem mais do que aplausos

"Há 75 anos que esta corporação dorme de olhos abertos para que a população possa descansar tranquila"

A celebração dos 75 anos dos Bombeiros de Pinhal Novo ficou marcada por emoção, memória e um tom cada vez mais crítico em relação às condições do setor. O dia, assinalado a 1 de Maio, foi mais do que uma cerimónia simbólica - foi um retrato fiel de uma instituição que resiste entre o orgulho do passado e as incertezas do futuro.
Bombeiros completaram 75 anos no dia 1 de Maio em Pinhal Novo 

O dia começou com um som conhecido, mas com um significado diferente. Às oito da manhã, a sirene fez-se ouvir em Pinhal Novo - não para mobilizar para uma emergência, mas para assinalar 75 anos de história. Num ambiente marcado pela solenidade e pela memória, a cerimónia evocou gerações de homens e mulheres que deram corpo à missão dos bombeiros.
"Quando esta associação se tornou realidade, não foi apenas criada uma corporação, foi estabelecido um código de honra", afirmou o presidente da direção, Fernando António, numa intervenção que atravessou passado e presente. Ao longo do dia, entre formaturas, homenagens e momentos simbólicos, ficou evidente a continuidade desse compromisso. "O que realmente faz a diferença não é apenas a técnica, é a coragem de escolher o perigo quando outros recuam", acrescentou.
Mais do que uma celebração, o 1 de Maio foi um exercício de memória coletiva e uma reafirmação clara de que, 75 anos depois, a essência da missão permanece.
Na cerimónia, que decorreu junto ao Monte do Francisquinho, o presidente da associação humanitária dos Bombeiros do Pinhal Novo, Fernando António, falou de raízes e de algo mais profundo do que datas. 
Essa herança, explicou, mantém-se viva. "O mundo mudou, mas a motivação daqueles fundadores é a mesma que corre hoje nas nossas veias", disse. E concretizou: "O que realmente faz a diferença no momento do caos não é apenas a tecnologia, é aquele impulso que escolhe o perigo em vez do conforto".
Num discurso marcado por emoção e franqueza, deixou uma imagem que resume a identidade da corporação. "Cada uniforme vestido hoje é o eco de um juramento feito há 75 anos", afirmou. "Somos hoje uma força moderna, mas continuamos movidos pelo mesmo espírito de missão", lembrou o dirigente.
Mas foi quando falou das dificuldades que o tom se tornou mais duro. "A gratidão da população não paga combustível nem substitui a manutenção dos equipamentos", disse. "Não podemos continuar a viver de promessas que não se traduzem em apoios concretos". E insistiu: "É profundamente injusto que a sobrevivência desta casa dependa tanto da boa vontade e tão pouco de um compromisso estrutural do Estado", disse Fernando António.

Sistema sob pressão e falta de resposta estrutural
Ana Teresa Vicente quer Governo a apoiar mais os bombeiros 
A presidente da Câmara Municipal de Palmela, Ana Teresa Vicente, assumiu um discurso que cruzou homenagem, diagnóstico e alerta político, num registo claro sobre os limites do modelo atual. "Voluntários por opção e profissionais da ação é o lema que melhor reflete a identidade dos nossos bombeiros", começou por afirmar, sublinhando a dualidade que define o sistema português mas também as suas fragilidades.
"O voluntariado é cada vez mais difícil e já não é suficiente", disse, de forma direta, apontando uma das principais preocupações das autarquias. "Temos cada vez mais dificuldade em renovar os corpos ativos, e isso obriga-nos a pensar seriamente em soluções que garantam a continuidade do socorro". Para a autarca, a resposta passa por mudanças estruturais: "É urgente criar condições que atraiam mais jovens e assegurar maior equidade entre quem exerce as mesmas funções, independentemente do enquadramento".
Ana Teresa Vicente enquadrou estas dificuldades num cenário mais amplo de pressão sobre os sistemas públicos. "Vivemos um contexto de grande complexidade, com fenómenos extremos, incerteza sazonal e também fragilidades noutras áreas, como o sistema de saúde, que acabam por aumentar a pressão sobre os bombeiros", afirmou. E concretizou com exemplos do terreno: "Na nossa região, os bombeiros são chamados para responder a situações cada vez mais diversificadas, e há momentos em que uma ambulância se transforma numa sala de emergência ou até numa maternidade".

"É necessário um compromisso mais amplo e estruturado" 
A autarca destacou ainda a importância da preparação e da prevenção. "A formação dos corpos de bombeiros e a capacitação da comunidade são essenciais para garantir uma resposta eficaz", disse, apontando o trabalho desenvolvido com escolas e populações. "Quando envolvemos crianças e jovens, estamos também a chegar às famílias e a construir uma cultura de prevenção que é fundamental".
No plano institucional, reforçou o papel das autarquias, mas deixou um aviso claro sobre os limites desse esforço. "As câmaras municipais têm sido fundamentais no apoio às associações humanitárias, mas esse não pode ser o único pilar do sistema", afirmou. "Não pode caber apenas às autarquias a maior fatia do financiamento; é necessário um compromisso mais amplo e estruturado".
Ana Teresa Vicente referiu também expectativas em relação a mudanças a nível nacional. "Esperamos alterações importantes na regulamentação das carreiras, na organização das equipas de intervenção permanente e no modelo de financiamento", disse, apontando para reformas em discussão. "Essas mudanças são essenciais para garantir estabilidade e justiça no sistema".
Num registo mais político, mas ainda ancorado na realidade local, deixou uma garantia: "Reafirmo o compromisso da Câmara Municipal de Palmela em continuar a apoiar os nossos bombeiros, reforçando as condições de trabalho e procurando soluções que respondam aos desafios do território".

Financiamento insuficiente e valorização dos bombeiros
Presidente da Junta lembra que bombeiros devem ser valorizados
João Estróia Vieira, presidente da Junta de Freguesia de Pinhal Novo, foi direto ao essencial. "Durante 75 anos, homens e mulheres deixaram as suas famílias e o seu descanso para responder ao apelo de quem mais precisa", afirmou. "Esse espírito merece mais do que aplausos; merece condições concretas".
O retrato financeiro foi claro. "Os custos aumentam - combustíveis, equipamentos, manutenção - enquanto o financiamento permanece insuficiente e muitas vezes desajustado", disse. E apontou fragilidades no modelo atual: "Os serviços prestados ao Estado são frequentemente pagos abaixo do custo real e com atrasos que dificultam a gestão diária".
Para o autarca, a solução não pode continuar a ser adiada. "Não se resolve a sustentabilidade com apoios pontuais; é necessário um modelo estável, justo e previsível", afirmou. E insistiu na valorização dos operacionais: "Não é aceitável que muitos bombeiros recebam pouco mais do que o salário mínimo, face à responsabilidade e ao risco que assumem".
A conclusão foi inequívoca. "Se queremos garantir o futuro do socorro em Portugal, temos de valorizar quem o assegura", disse. "Sem bombeiros valorizados não há sistema que funcione".

Respostas do Governo entre reconhecimento e medidas em curso
Novo motociclo já está ao serviço dos bombeiros 
Do lado do Governo, o secretário de Estado Adjunto e da Administração Interna, Paulo Ribeiro, procurou responder às críticas com um discurso assente em duas ideias: reconhecimento das dificuldades e promessa de mudança progressiva. "Celebrar 75 anos é, acima de tudo, reconhecer o papel insubstituível que os bombeiros desempenham na nossa sociedade", começou por afirmar.
Perante as críticas ao financiamento e às condições operacionais, Paulo Ribeiro apontou para medidas em curso. "O reforço da cooperação entre o Estado, as autarquias e as associações humanitárias é imperativo para uma gestão mais eficiente e sustentável do território", afirmou. E concretizou: "Vamos dotar os corpos de bombeiros de rádios SIRESP, antenas de ligação por satélite, baterias e geradores, porque comunicar bem pode salvar vidas".
O governante enquadrou estas medidas num plano mais amplo. "Estamos a falar de um plano com 22.600 milhões de euros, que inclui a modernização da proteção civil e o reforço da capacidade de resposta a fenómenos extremos", disse.
Sobre a criação de uma carreira, confirmou avanços: "Está a ser ultimada uma proposta para a criação da carreira de bombeiro, bem como para a revisão das regalias, benefícios e formação", afirmou.
Quanto ao financiamento direto, reconheceu limitações. "Foi aprovado um apoio ao combustível, com 360 euros por cada viatura pesada e 150 euros para viaturas ligeiras", explicou. E admitiu: "É pouco, reconheço. Mas estamos a dar o máximo que é permitido e a reforçar progressivamente esses apoios".
"Não se pode fazer tudo de uma vez", afirmou.

Homenagem percorreu os dois cemitérios da vila 
Uma celebração com memória, emoção e compromisso
A encerrar, Manuel Paiva Ribeiro, presidente da assembleia geral, trouxe de volta a dimensão humana. "Esta casa é um pilar de apoio à comunidade, construída com décadas de dedicação", afirmou. "A nossa determinação é maior do que os desafios".
No final da sessão, as novas viaturas foram benzidas, num gesto simbólico de continuidade. "Que elas não sejam apenas chapa e tecnologia, que sejam instrumentos de esperança", disse Fernando António.
"Cada sirene que ouvem no silêncio da noite não é um sinal de medo, mas a prova audível de que alguém abdicou do seu descanso para garantir o vosso", afirmou.
A sirene, os carros, a fanfarra voltaram ao silêncio. Mas, em Pinhal Novo, há uma certeza que permanece: alguém estará sempre pronto a responder.

Paulo Jorge Oliveira 
Fotografia: Paulo Jorge Oliveira 

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