Há vidas que se cosem à terra e a de Cilita nunca deixou de alinhar com o coração
O som ritmado de uma máquina de costura mistura-se com a luz filtrada por cortinados acabados de fazer. Não é apenas ruído - é um compasso. Um tempo próprio. Um lugar onde o passado e o presente respiram ao mesmo ritmo. Entre tecidos suspensos e peças alinhadas com precisão, a loja da Cilita guarda mais do que um ofício - guarda uma vida inteira de trabalho, de entrega e de amor silencioso. Ali dentro, tudo tem memória, alma e sorrisos abertos. É mais uma história da Gente da Nossa Terra, à beirinha do Mercado Caramelo.![]() |
| Cilita: a vida inteira cosida à memória de uma terra |
Cilita nasceu na Palhota e chegou ao Pinhal Novo com projetos que o tempo não apagou. Hoje, reencontrei-a no meio desse universo de linhas e agulhas, rodeada de encomendas e de roupas que carregam um significado particular: são trajes caramelos, ligados à história e à cultura popular da vila, que continuam a ganhar forma pelas suas mãos - numa prática cada vez mais rara, quase em risco de se perder, não fosse a persistência de quem nunca deixou cair o fio. Mas são, sobretudo, cortinados onde deixa a sua marca. "Os cortinados são aquilo que mais faço. O meu principal negócio", diz.
A azáfama tem um motivo especial. O Mercado Caramelo arranca já esta sexta-feira, 8 de Maio, e Cilita não é apenas participante - é uma das suas fundadoras. Uma ligação que se cruza com outra data incontornável: foi precisamente a 8 de Maio de 1994 que abriu a sua primeira loja, no Centro Comercial Dovari - um espaço que ainda hoje resiste, tal como o seu percurso. Tal como o compromisso com um trabalho feito à medida, onde cada ponto conta uma história e cada cliente traz mais uma.
Como ela diz, com aquele sorriso que não pede licença: "Eu sou a Cilita para os amigos. Para as finanças tem que ser Lucília Marques".
Uma infância onde tudo começou com pouco - mas ficou tudo
Antes da loja, antes da máquina, antes das mãos marcadas pelo tempo, houve uma menina. E houve um caminho de terra batida entre a Palhota e o Pinhal Novo.
"As minhas memórias são muito simples, mas muito felizes. Eu fui criada na Palhota e vir ao Pinhal Novo era uma festa. Vínhamos ao mercado, vínhamos à Feira de Maio, e aquilo era tudo para nós. Era a única coisa grande que havia aqui na zona e eu, pequenina, vivia aquilo com uma alegria que nunca mais esqueci. Acho que foi aí que comecei a sentir que esta terra também era minha", conta.
Há memórias que não envelhecem. Ficam como tecido bom - resistentes, com história.
Antes da loja, antes da máquina, antes das mãos marcadas pelo tempo, houve uma menina. E houve um caminho de terra batida entre a Palhota e o Pinhal Novo.
"As minhas memórias são muito simples, mas muito felizes. Eu fui criada na Palhota e vir ao Pinhal Novo era uma festa. Vínhamos ao mercado, vínhamos à Feira de Maio, e aquilo era tudo para nós. Era a única coisa grande que havia aqui na zona e eu, pequenina, vivia aquilo com uma alegria que nunca mais esqueci. Acho que foi aí que comecei a sentir que esta terra também era minha", conta.
Há memórias que não envelhecem. Ficam como tecido bom - resistentes, com história.
A agulha que já vinha no sangue
A primeira vez que segurou numa agulha não foi um momento isolado. Foi o início de um caminho que parecia já traçado.
"Devia ter sete ou oito anos quando comecei. Mas lembro-me bem que com 12 já fazia aventais, sainhas, roupa para as bonecas. Não era por obrigação, era porque gostava mesmo. Eu acho que isto nasceu comigo, mas também vinha de trás. A minha avó gostava, a minha mãe gosta… e eu fiquei com esse amor. Já fiz outras coisas na vida, mas a costura nunca me largou. É mais do que trabalho, é o que eu sou", diz.
E percebe-se: há profissões que se aprendem. E há outras que se herdam na forma de sentir.
A primeira vez que segurou numa agulha não foi um momento isolado. Foi o início de um caminho que parecia já traçado.
"Devia ter sete ou oito anos quando comecei. Mas lembro-me bem que com 12 já fazia aventais, sainhas, roupa para as bonecas. Não era por obrigação, era porque gostava mesmo. Eu acho que isto nasceu comigo, mas também vinha de trás. A minha avó gostava, a minha mãe gosta… e eu fiquei com esse amor. Já fiz outras coisas na vida, mas a costura nunca me largou. É mais do que trabalho, é o que eu sou", diz.
E percebe-se: há profissões que se aprendem. E há outras que se herdam na forma de sentir.
Ver com os olhos e criar com o coração
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| As mãos que nunca deixaram cair o fio da memória |
"Eu olho para o tecido e já sei o que vai sair dali. É imediato. Não preciso de muito tempo. Aquilo forma-se logo na minha cabeça, como se já estivesse feito. Depois é só dar-lhe vida com as mãos", explica.
Mas o que realmente se constrói ali vai além do visível.
"Ao longo dos anos ouvi muita coisa. As pessoas falam, desabafam, partilham. Aprende-se muito sobre a vida e sobre as pessoas. Aprende-se a ter paciência, a ter carinho, a respeitar cada história. Isto não é só um trabalho técnico, é um trabalho humano. E isso marca-nos", reflete.
O traje caramelo: vestir a memória de um povo
Entre todas as peças que já fez, há uma que carrega um peso diferente: o traje caramelo.
"Aquilo representa os nossos antepassados, a vida deles, o trabalho duro no campo. É uma forma de não esquecer. Eu sempre adorei o rancho, desde pequena, mesmo sem poder participar. Talvez por isso tenha ficado este amor tão grande dentro de mim", conta.
Cada saia, cada avental, cada camisa que sai das suas mãos é um pedaço de história recuperada.
"Os tecidos têm de ser certos. O algodão, a chita, a popelina… não é só estética, é verdade. As pessoas trabalhavam no campo, precisavam de roupa que deixasse respirar. Hoje já não há tanto disso, mas eu faço questão de respeitar. Porque quando se perde o detalhe, perde-se a essência", diz.
Entre todas as peças que já fez, há uma que carrega um peso diferente: o traje caramelo.
"Aquilo representa os nossos antepassados, a vida deles, o trabalho duro no campo. É uma forma de não esquecer. Eu sempre adorei o rancho, desde pequena, mesmo sem poder participar. Talvez por isso tenha ficado este amor tão grande dentro de mim", conta.
Cada saia, cada avental, cada camisa que sai das suas mãos é um pedaço de história recuperada.
"Os tecidos têm de ser certos. O algodão, a chita, a popelina… não é só estética, é verdade. As pessoas trabalhavam no campo, precisavam de roupa que deixasse respirar. Hoje já não há tanto disso, mas eu faço questão de respeitar. Porque quando se perde o detalhe, perde-se a essência", diz.
Um mercado, duas datas, uma vida inteira
O Mercado Caramelo não é apenas um evento. Para Cilita, é quase uma extensão da sua própria história.
"Sou fundadora e isso dá-me muito orgulho. Ver aquilo cheio, com gente nova a vestir os trajes, a dar continuidade… é uma emoção difícil de explicar. Valeu mesmo a pena todo o esforço", lembra. "Valeu a pena. Já antes disso eu levei o traje caramelo às Festas Populares, fizemos até uma viagem de comboio a vapor com as minhas formandas todas vestidas. Chegámos à estação assim, e foi uma emoção enorme", recorda.
O Mercado Caramelo não é apenas um evento. Para Cilita, é quase uma extensão da sua própria história.
"Sou fundadora e isso dá-me muito orgulho. Ver aquilo cheio, com gente nova a vestir os trajes, a dar continuidade… é uma emoção difícil de explicar. Valeu mesmo a pena todo o esforço", lembra. "Valeu a pena. Já antes disso eu levei o traje caramelo às Festas Populares, fizemos até uma viagem de comboio a vapor com as minhas formandas todas vestidas. Chegámos à estação assim, e foi uma emoção enorme", recorda.
E há um simbolismo que não lhe passa ao lado.
"O dia 8 de Maio é muito especial para mim. Foi nesse dia, em 1994, que abri a minha loja. Nunca pensei chegar tão longe, mas cá estou. Com trabalho, com alegria, com vontade de continuar", afirma. E curiosamente a história conta-nos que o 8 de Maio marca - este ano - a abertura do Mercado Caramelo. A celebração é em dobro. O trabalho é em triplo nesta altura.
"O dia 8 de Maio é muito especial para mim. Foi nesse dia, em 1994, que abri a minha loja. Nunca pensei chegar tão longe, mas cá estou. Com trabalho, com alegria, com vontade de continuar", afirma. E curiosamente a história conta-nos que o 8 de Maio marca - este ano - a abertura do Mercado Caramelo. A celebração é em dobro. O trabalho é em triplo nesta altura.
Ensinar para que o fio não se perca
Cilita não quis guardar o saber só para si. Passou-o adiante.
"Comecei a dar aulas ainda antes de abrir a loja, em 1992, pelo ensino recorrente. Foi isso que me trouxe para o Pinhal Novo. Ensinei muita gente, em todo o concelho de Palmela, e hoje ainda dou aulas aqui. Num espaço pequenino, simples, mas com muita vontade", explica.
Cilita não quis guardar o saber só para si. Passou-o adiante.
"Comecei a dar aulas ainda antes de abrir a loja, em 1992, pelo ensino recorrente. Foi isso que me trouxe para o Pinhal Novo. Ensinei muita gente, em todo o concelho de Palmela, e hoje ainda dou aulas aqui. Num espaço pequenino, simples, mas com muita vontade", explica.
E o método é tão direto quanto a sua forma de estar. "Dou aulas aqui, neste espacinho. Não é grande, mas dá para quatro ou cinco pessoas. Não é preciso inscrição, é vir, falar comigo, e começamos. É assim simples", explica.
"Não é preciso complicar. O importante é aprender e ganhar gosto", diz. E há sempre procura.
"Não é preciso complicar. O importante é aprender e ganhar gosto", diz. E há sempre procura.
Uma mulher feita de alegria e resistência
Cilita não separa a vida do trabalho. Talvez por isso diga, sem hesitar, onde descansa:
"Na minha máquina de costura. É ali que me sento sempre", confessa, rindo.
A boa disposição é marca registada.
"Estou sempre a rir. Tudo me dá vontade de rir. Mesmo quando não estou muito bem de saúde, tenho sempre boa disposição", garante.
Quando lhe pedem para se descrever, responde sem pensar muito: "Sou divertida, gosto de animação, estou em todos os carnavais", diz.
E há saudades que ficam.
"Há uma pessoa que me marcou muito, o Jorginho Costa. Tinha um coração enorme, ensinou-me muito, ajudou-me nos desfiles de vestidos de chita. Foi alguém que deu muito ao Pinhal Novo e que eu nunca esqueci", partilha com a ADN, com o Pinhal Novo... com o mundo inteiro.
O que fica depois de uma vida inteira
Há um momento, já no fim da conversa, em que a voz abranda. Não perde a alegria - mas ganha peso.
Pergunto-lhe o que fica de tudo isto. O que sobra quando se olha para trás. Cilita pensa. E responde como quem sente cada palavra.
"O que eu levo é o carinho das pessoas. É andar na rua e ouvirem-me chamar ‘Cilita’ e eu nem saber quem é, mas sentir que sou parte daqui. O Pinhal Novo deu-me tudo: deu-me trabalho, deu-me casa, deu-me sonhos realizados. Eu sinto-me mesmo feliz por isso, de coração cheio", diz.
E continua, com uma lucidez que só a vida ensina:
"Se eu pudesse deixar alguma coisa às próximas gerações era isto: que não deixem morrer aquilo que somos. Que mantenham a tradição, mas com amor verdadeiro, não por obrigação. Porque quando se faz com amor, fica. Quando não, perde-se. E nós não podemos perder isto".
Há mais. Há sempre mais quando se fala com quem viveu com intensidade.
"Eu peço muito a Deus é saúde. Porque enquanto tiver saúde, consigo continuar a fazer, a ajudar, a dar um bocadinho de mim. Eu ainda tenho muita coisa para dar ao Pinhal Novo. E gostava mesmo de continuar a fazer parte desta terra, como tenho sido até agora", confessa.
E depois sorri. Como quem já disse tudo.
Pergunto-lhe o que fica de tudo isto. O que sobra quando se olha para trás. Cilita pensa. E responde como quem sente cada palavra.
"O que eu levo é o carinho das pessoas. É andar na rua e ouvirem-me chamar ‘Cilita’ e eu nem saber quem é, mas sentir que sou parte daqui. O Pinhal Novo deu-me tudo: deu-me trabalho, deu-me casa, deu-me sonhos realizados. Eu sinto-me mesmo feliz por isso, de coração cheio", diz.
E continua, com uma lucidez que só a vida ensina:
"Se eu pudesse deixar alguma coisa às próximas gerações era isto: que não deixem morrer aquilo que somos. Que mantenham a tradição, mas com amor verdadeiro, não por obrigação. Porque quando se faz com amor, fica. Quando não, perde-se. E nós não podemos perder isto".
Há mais. Há sempre mais quando se fala com quem viveu com intensidade.
"Eu peço muito a Deus é saúde. Porque enquanto tiver saúde, consigo continuar a fazer, a ajudar, a dar um bocadinho de mim. Eu ainda tenho muita coisa para dar ao Pinhal Novo. E gostava mesmo de continuar a fazer parte desta terra, como tenho sido até agora", confessa.
E depois sorri. Como quem já disse tudo.
No fim, é sempre sobre amor
E depois há o Pinhal Novo - sempre o Pinhal Novo."Eu apresentava esta terra com todo o carinho. Dizia às pessoas para virem, porque aqui somos acolhedores, recebemos toda a gente de braços abertos. Temos festas, temos vida, temos pessoas boas. Isto é uma terra que sabe receber e isso não se ensina, sente-se", diz.
Se o Pinhal Novo fosse uma pessoa, Cilita não hesita: "Era amor. Mas também era pai e filho ao mesmo tempo. Porque esta terra cuida de nós, mas nós também temos de cuidar dela", sublinha.
A gratidão chega sem ser pedida, como chegam as coisas verdadeiras.
"Quero agradecer a todas as pessoas que me ajudaram ao longo do caminho, que confiaram em mim, que me deram trabalho. Nada disto se faz sozinho. Eu só consegui porque houve muita gente ao meu lado, e isso nunca esqueço", realça.
E, no meio de tudo, há ainda o lado prático, o lado de quem nunca deixou de trabalhar com os pés bem assentes na terra.
"Isto que vê aqui é muito ligado ao Mercado Caramelo, mas o meu trabalho também são os cortinados. Há muitas casas novas no Pinhal Novo e eu estou cá para isso. Não se esqueçam de vir à Cilita, porque eu continuo aqui, pronta para ajudar, como sempre estive", diz, com um sorriso que mistura orgulho e simplicidade.
No fim, fica essa imagem: uma mulher de tesoura na mão, música antiga [‘chega, chega, a minha agulha, afasta, afasta’] no coração e uma vida inteira alinhavada com cuidado.
Cilita não é apenas parte do Pinhal Novo. Cilita é uma forma de o sentir.
"Quero agradecer a todas as pessoas que me ajudaram ao longo do caminho, que confiaram em mim, que me deram trabalho. Nada disto se faz sozinho. Eu só consegui porque houve muita gente ao meu lado, e isso nunca esqueço", realça.
E, no meio de tudo, há ainda o lado prático, o lado de quem nunca deixou de trabalhar com os pés bem assentes na terra.
"Isto que vê aqui é muito ligado ao Mercado Caramelo, mas o meu trabalho também são os cortinados. Há muitas casas novas no Pinhal Novo e eu estou cá para isso. Não se esqueçam de vir à Cilita, porque eu continuo aqui, pronta para ajudar, como sempre estive", diz, com um sorriso que mistura orgulho e simplicidade.
No fim, fica essa imagem: uma mulher de tesoura na mão, música antiga [‘chega, chega, a minha agulha, afasta, afasta’] no coração e uma vida inteira alinhavada com cuidado.
Cilita não é apenas parte do Pinhal Novo. Cilita é uma forma de o sentir.
E talvez seja isso que melhor a define. Uma mulher que nunca deixou cair o fio. Que transformou trabalho em identidade.
E que, ponto a ponto, continua a coser o coração de uma terra inteira.
E que, ponto a ponto, continua a coser o coração de uma terra inteira.



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