SFUA entra em nova era: a “Velhinha” reforça o coração cultural do Pinhal Novo

Entre tradição e futuro: nova direção quer pôr toda a vila a tocar ao mesmo ritmo 

No coração do Pinhal Novo, onde o comboio abranda como quem respeita a memória e o vento levanta o pó fino das histórias antigas, há uma casa que não envelhece - apenas amadurece. A Sociedade Filarmónica União Agrícola, a eterna “Velhinha”, não se mede em anos, mede-se em pulsações. São 129 - quase 130 - batimentos de cultura, de teimosia e de pertença. E agora, com uma nova direção ao leme para o biénio 2026/2027, não se trata de virar página, mas de afinar o mesmo instrumento para um futuro mais exigente.
António Lemos está à frente da mais antiga coletividade da vila

Na cerimónia de apresentação da nova direção, sentia-se mais do que formalidade. Havia um peso doce no ar:  o peso de quem sabe que carrega um legado que não cabe em discursos.
António Lemos, presidente eleito, assumiu o papel com consciência histórica e ambição clara:
"Somos uma instituição com quase 130 anos de história, construída com dedicação, consciência e um amor profundo à cultura, à música e à identidade - relatos que atravessam o tempo e continuam a dar sentido ao presente".
Mas não ficou por aí. Houve espaço para reconhecer o caminho feito e os que o tornaram possível:
"Ao longo deste percurso, muitos foram dirigentes, professores, músicos, colaboradores e voluntários que deram de si a esta casa. A todos deixo uma palavra de sincero agradecimento, porque é esse trabalho que nos permite hoje estar aqui com orgulho no passado e confiança no futuro".
A nova direção - com Abílio Neves, Pedro Letras, Elisabete Lemos, Elisabete Assis, Leonor Gonçalves e Orlando Andrade, entre outros, - entra com essa responsabilidade bem presente. José Manuel Silva assume a Assembleia Geral e João Sim Sim o Conselho Fiscal, numa equipa que não gere apenas uma instituição, mas uma identidade coletiva.

O futuro começa nas mãos de quem aprende
O discurso de António Lemos apontou com clareza para o eixo central da nova etapa: investir nas novas gerações.
"Projetos como a Big Band, em colaboração com o Agrupamento de Escolas José Maria dos Santos, são um investimento claro no futuro. Queremos despertar o gosto das crianças pela música e criar um caminho sólido assente na qualidade e na capacidade da nossa coletividade".
E reforçou a visão de uma casa que vai muito além do ensino formal:
"Somos muito mais do que uma escola de música. Somos um espaço vivo, um sistema artístico de todos para todos, onde a memória e a história continuam a ser o coração da nossa missão".

O pulmão que dá ritmo à vila
A Banda Filarmónica continua a ser o verdadeiro pulmão da casa. Com cerca de meia centena de músicos, é ela que marca o compasso das festas populares, que acompanha procissões, que dá corpo sonoro à identidade da terra. Não é apenas música - é pertença.
Mas não se confunda tradição com imobilismo. Aqui, o passado não é poeira: é matéria-prima.
A SFUA funciona como uma autêntica fábrica de talentos. É ali que tudo começa: nas primeiras pautas, nos dedos ainda hesitantes, nos ensaios que se tornam rotina e, mais tarde, nos concertos de verão que enchem as nossas praças e as nossas festas e fazem vibrar uma comunidade inteira.
António Lemos sublinhou essa dimensão essencial:
"É nas crianças e nos jovens que está o nosso futuro. É por isso que temos de continuar a investir, a criar condições e a garantir que esta casa continua a formar não só músicos, mas cidadãos".

Do terreiro ao palco: uma casa de todas as artes
A banda continua a ser o eixo central da SFUA 
Se outrora o baile de roda era o centro da vida cultural, hoje a SFUA apresenta-se como um verdadeiro roteiro artístico, onde diferentes linguagens convivem e se reinventam. 
Se a banda e o coro continuam a ser as "chaves mestras" da coletividade, o futuro escreve-se com novas roupagens artísticas. 
O voo do Ballet, onde o rigor clássico cruza-se com o entusiasmo juvenil. Cada passo é disciplina, mas também sonho.
O mistério do oriente, onde a dança oriental trouxe novas cores, novas expressões, novas formas de sentir o corpo e a música.
O ritmo da rua, com projetos como o The_BMCI_Project mostram que a “Velhinha” não vive presa ao passado. Pelo contrário, sabe dialogar com as novas gerações e falar a sua linguagem.

Uma casa que precisa de todos
Mas há desafios e não foram escondidos. António Lemos deixou um apelo direto, quase urgente:
"Precisamos de trazer mais pessoas para esta casa, envolver novas gerações e criar melhores condições. Precisamos de melhores instalações, de espaços mais adequados, porque isso significa mais qualidade para quem aqui aprende e cresce".
E reforçou a ideia de comunidade como motor essencial:
"Sócios, parcerias e comunidade - precisamos da vossa participação, das vossas ideias, da vossa inspiração. Este caminho faz-se com todos".

Uma escola de cidadania com 130 anos
The_BMCI_Project mostra o novo talento da SFUA 
Do lado institucional, João Estróia Vieira, presidente da Junta de Freguesia do Pinhal Novo, destacou o papel estrutural da SFUA:
"Esta casa faz parte da história do Pinhal Novo - não só cultural, mas também educativa e associativa. Formou músicos, dirigentes e cidadãos, e continua a ser um pilar da nossa identidade coletiva". E hoje, dar posse a novos órgãos sociais é "garantir que esse caminho continua, mesmo sabendo que o associativismo exige dar mais do que aquilo que se recebe". 
E lembrou o lado menos visível, mas essencial, do associativismo: "É muito difícil encontrar quem queira assumir estas responsabilidades, porque o associativismo exige dar mais do que aquilo que se recebe. É abdicar do nosso tempo e do nosso conforto para dar aos outros  e é isso que faz desta casa uma verdadeira escola de cidadania".
E talvez seja essa a verdade mais crua e mais bonita da SFUA: aqui, ninguém fica rico mas todos enriquecem.

O acorde que não se apaga
Desde 1896, quando o Pinhal Novo era apenas um esboço de vila, até aos dias de hoje, a SFUA nunca deixou de cumprir o seu papel: unir.
Unir gerações, unir sons, unir vontades. E agora, com uma nova direção, a “Velhinha” não pede licença ao tempo. Afina-se. Reinventa-se. Continua.
Porque enquanto houver alguém disposto a entrar por aquela porta que seja para aprender, ensinar, tocar ou simplesmente pertencer: o Pinhal Novo terá sempre banda sonora.

Paulo Jorge Oliveira 
Fotografia: Paulo Jorge Oliveira 


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