José António Guerreiro, o homem que fez do Pinhal Novo a sua missão de vida

Chegou para trabalhar na ferrovia e tornou-se parte da história da gente da nossa terra

Há nomes que se dizem e passam. E há nomes que se sentem como quem pisa uma rua conhecida ou escuta, ao longe, o apito de um comboio que nunca deixou verdadeiramente de partir. Na rubrica Gente da Nossa Terra, há histórias que ultrapassam o tempo: são raízes, memória e identidade viva. A de José António Guerreiro é uma delas. Porque falar dele é, inevitavelmente, falar do próprio Pinhal Novo - da terra que o acolheu em 1957 e que, quase sem dar por isso, foi sendo moldada pelas suas mãos, pela sua entrega e por uma vida inteira dedicada aos outros. Há homens que passam. E há homens que ficam - não apenas na memória, mas nas ruas, nos gestos e na alma de uma comunidade inteira.
Um homem, uma terra, uma vida inteira de dedicação

Há sons que nos dizem onde estamos. No Pinhal Novo, durante décadas, foi o apito das locomotivas que marcaram o ritmo dos dias - um som que atravessava manhãs, tardes e memórias. E, algures entre esse eco metálico e o pulsar humano da vila, cresceu um homem que se tornou parte inseparável desse próprio som. José António Guerreiro não nasceu aqui. Mas há muito que deixou de ser “de fora”. Há 69 anos que pertence  e, mais do que isso, há 69 anos que constrói pertença.
Chegou de Ourique - ou, como faz questão de dizer com orgulho, de Lameirão. Trazia consigo pouco mais do que a vontade de trabalhar e uma ética inquebrantável. Hoje, quase sete décadas depois, não é apenas um habitante: é uma das colunas invisíveis que sustentam a identidade desta terra.
"Eu fiz a minha vida profissional a partir do momento em que vim para o Pinhal Novo. Mas não foi só isso. Tudo o que fiz fora do trabalho foi aqui, com as pessoas, nas associações, na freguesia. E isso faz toda a diferença. Porque chega uma altura em que já não é o sítio onde vive - é a sua terra. Eu digo sempre, sou um pinhalnovense adotado, mas com uma ligação que não se desfaz", disse.
O ano era 1957. O Pinhal Novo ainda era uma terra em construção - feita de areia, de esforço e de gente que vinha para ficar. Caramelos e ferroviários moldavam a identidade de um lugar onde quase tudo estava por fazer.
E foi precisamente isso que o prendeu.

O homem que nunca teve tempo porque o deu aos outros
Se há uma palavra que atravessa a vida de José António Guerreiro, é entrega. Não parcial. Não ocasional. Total.
"Eu sempre tive uma forma de estar muito simples: trabalhar para a comunidade. Nunca disse que não a um convite. Nunca recusei integrar uma associação. E isso fez com que os meus tempos livres deixassem de ser meus. Passaram a ser da freguesia", contou.
Desporto. Cultura. Saúde. Autarquias. Não houve área onde não estivesse presente.
"Eu sempre dediquei os meus tempos livres às organizações da freguesia. A minha primeira preocupação foi associar-me às coletividades. Passei pelo desporto, pela cultura, pela saúde e até pelas autarquias. Isto ocupou-me completamente. Quando não estava a trabalhar nos comboios, estava a trabalhar para a freguesia", lembrou. 
Mas há um lado da história que raramente se vê e que ele não esconde.
"Foi em prejuízo da minha vida familiar, muitas vezes. A minha filha cresceu com menos presença minha do que devia. E isso custa dizer. Mas também é verdade que, se consegui fazer tudo o que fiz, foi porque tive ao meu lado uma mulher que segurou a casa e a família. Sem isso, nada teria sido possível", afirmou.

O árbitro que apitava com consciência
A arbitragem foi uma das suas grandes paixões e fez história
Durante 17 anos, José António Guerreiro foi árbitro de futebol. Mas não apenas um árbitro - um homem que levava para o campo uma ideia quase ética da justiça.
"Ser árbitro era uma causa que nem sempre era bem entendida. Mas eu sempre trabalhei pela lealdade, sem nunca me deixar influenciar por qualquer equipa. Podiam chamar-me nomes - e chamavam - mas isso nunca me desviou daquilo que eu achava correto", recorda.
Chegou a árbitro nacional, integrou estruturas técnicas e manteve-se ligado ao futebol durante cerca de 50 anos. Foi também fundador de um dos núcleos de árbitros mais antigos do país: O núcleo de árbitros do Pinhal Novo, que ainda hoje existe. 
"Trabalhei com pessoas extraordinárias e aprendi que a justiça não pode ter cor de camisola. Essa foi talvez a maior lição que levei para a vida", afirmou.

Construir mais do que paredes: o lar e o cuidado
Há obras que não se medem em betão, mas em dignidade. A construção do lar de terceira idade para ferroviários foi uma dessas batalhas.
"Foi um processo muito difícil. Tivemos de lutar por terreno, por apoios, por reconhecimento. Houve momentos em que parecia impossível, mas insistimos. E conseguimos. Foi muito trabalho, muitas reuniões, muita persistência. Mas quando se acredita numa causa, não se desiste", explicou.
O projeto envolveu autarcas, dirigentes e muita negociação. Mas, acima de tudo, envolveu uma visão: cuidar dos que deram a vida ao trabalho.

Bombeiros: quando servir é mais importante do que tudo
Se o futebol lhe ensinou justiça, os bombeiros ensinaram-lhe humanidade.
A Associação Humanitária dos Bombeiros do Pinhal Novo nasceu em 1951, quase por necessidade - para garantir segurança ao cinema da SFUA. Mas cresceu graças a pessoas que acreditavam.
E José António Guerreiro foi uma dessas pessoas.
"Os bombeiros sempre foram a associação que mais me tocou. Talvez porque ali está o essencial: ajudar o outro sem perguntar quem é. Dediquei-lhes grande parte do meu tempo, muitas vezes mais do que devia, mas nunca me arrependi", disse.
Recorda com detalhe os primeiros tempos: a garagem do fundador, o armazém improvisado na Estrada dos Espanhóis, a falta de meios, a passagem para o armazém da Avenida da Liberdade. E depois, a luta pelo atual quartel, que foi inaugurado a 2 de abril de 1978.
"Fizemos de tudo para angariar dinheiro: bailes, rifas, peditórios, sorteios. Tudo. Queríamos um quartel digno. E conseguimos. Mas tenho de dizer que isso deve-se muito a duas pessoas: o comandante António Agostinho, pela entrega absoluta, e o Ismael Baltasar, pelos apoios que conseguiu. Sem eles, não teria sido possível", contou.
A emoção atingiu o auge num momento simbólico: "O momento em que mais me emocionou foi a inauguração do novo quartel. E depois, quando deram o meu nome a uma ambulância… isso não se esquece. É um reconhecimento que vem do coração", afirmou.
Tal como a entrega de um cordão que guarda como 'relíquia' de uma vida.
E porquê? "Porque entenderam a atenção e toda a dedicação que eu tive para a Associação de Bombeiros". 
 
As raízes que não podem desaparecer
Entre memórias e silêncio, construiu uma comunidade
Falar do Pinhal Novo sem falar das suas festas é falar de uma história incompleta. E José António Guerreiro esteve lá desde o início.
Foi fundador da Associação das Festas Populares e dos Amigos da Festa Brava. Viveu por dentro aquilo que hoje muitos apenas assistem.
"Nos primeiros anos, as festas eram a alma da nossa identidade. Tudo girava em torno das nossas origens: os ferroviários e os caramelos. Havia cortejos etnográficos, exposições ferroviárias, memória viva em cada detalhe. Nós íamos buscar peças a museus para mostrar às pessoas de onde vínhamos. Isso não era apenas festa - era identidade", explicou.
Mas hoje, o tom muda.
"E preocupa-me que isso se esteja a perder. Porque uma terra que esquece as suas raízes perde-se a si própria. As festas têm de continuar a contar a nossa história. Se deixarem de o fazer, deixam de ser nossas", alertou.
 
Construir o futuro com as mãos no passado
Na saúde, na cultura, no desporto - e também na política - esteve sempre presente.
Fez parte do executivo da Junta de Freguesia, da Assembleia de Freguesia e da Assembleia Municipal de Palmela. E apanhou o país num dos momentos mais difíceis: o pós-25 de Abril.
"Não havia quase nada. Fizemos o primeiro licenciamento da população, organizámos eleições sem qualquer apoio, sem compensações. Era tudo feito por sentido de dever. E depois havia os caminhos rurais - que nem existiam. Íamos ao fim de semana, com máquinas, abrir caminhos para as pessoas conseguirem viver com dignidade", recorda.
Também participou na mudança do mercado mensal - um processo tenso, complexo, onde até a segurança era incerta.
"Foi difícil. Muito difícil. Mas era preciso fazer. E fizemos", disse.

O legado que fica mesmo quando o tempo passa
Há quem procure reconhecimento. José António Guerreiro nunca procurou. Mas ele chegou.
Nas homenagens. Nos agradecimentos. E, sobretudo, nas pessoas.
"Eu nunca fiz nada à espera de reconhecimento. Fiz porque achava que era o correto. Mas quando ele aparece, vindo das pessoas, isso tem um valor enorme. Porque significa que o trabalho não foi em vão", afirmou.
E se tivesse de resumir uma vida inteira? "Apesar das dificuldades, acredito que contribuí para o desenvolvimento desta freguesia. Uma terra que nasceu dos caramelos e dos ferroviários, e que continua a crescer. E isso deixa-me em paz", disse.

O som que nunca se cala
Um homem sempre ligado às causas locais 
Quando se fala de identidade, há símbolos que resistem ao tempo.
"O som que mais representa o Pinhal Novo? É o apito das máquinas da CP. Esse som diz-nos onde estamos", diz, sem hesitar.
Depois de uma vida inteira dedicada à comunidade, a mensagem que deixa é simples mas urgente.
"É importante que as novas gerações reconheçam as dificuldades do passado e valorizem o que foi conquistado. O futuro está nas mãos da juventude, nas novas ideias e nas novas tecnologias. Mas nunca podem esquecer o caminho que foi feito", afirmou.
E, quando questionado sobre o que diria ao Pinhal Novo, se o pudesse abraçar, responde com a serenidade de quem cumpriu: "Diria para continuar a progredir, de forma a garantir o futuro. Porque uma terra só vive se continuar a crescer, mas sem esquecer quem a construiu".

Há homens que são lugares
José António Guerreiro não é apenas um homem do Pinhal Novo. É o próprio Pinhal Novo em forma de gente.
Está nos caminhos que ajudou a abrir, nas instituições que ajudou a erguer, nas decisões difíceis que tomou, nas noites que sacrificou, nas gerações que formou.
E está, sobretudo, naquilo que não se vê: na memória coletiva de uma terra que aprendeu, com ele, que pertencer é fazer.
Porque há homens que passam. E há homens que ficam para sempre na memória de uma terra. 

Paulo Jorge Oliveira 
Fotografia: Paulo Jorge Oliveira 

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