Cátia Pólvora: a voz jovem que devolveu vida ao folclore no Pinhal Novo

Das moedas da infância à presidência: A menina que transformou o folclore numa segunda pele

Há terras onde um rancho folclórico não é apenas música ou dança - é memória viva, família e identidade. No Pinhal Novo, quando as concertinas se fazem ouvir, os ferrinhos marcam o compasso e os saiotes rodopiam na Casa do Povo, não se escutam apenas modas antigas: escuta-se o coração inteiro de uma terra que se recusa a esquecer quem é. É precisamente aí, nesse amor profundo às raízes, que nasce mais uma história da rubrica “Gente da Nossa Terra”. Porque no centro deste orgulho coletivo há um rosto jovem que dança como quem protege uma herança sagrada. Chama-se Cátia Pólvora, tem 24 anos e tornou-se o símbolo de uma geração que está a devolver alma, juventude e futuro ao Rancho Folclórico da Casa do Povo. 
O futuro do folclore tem 24 anos e um sorriso cheio de raízes

Há pessoas que herdam casas. Outras, apelidos. Cátia Pólvora herdou um coração inteiro afinado pelo som do acordeão.
Quando fala do Rancho Folclórico da Casa do Povo de Pinhal Novo, a voz muda-lhe de ritmo. Há qualquer coisa entre a ternura e a missão. Como se cada palavra viesse carregada de memórias antigas, cheiros de sopa caramela acabada de fazer, pó de palco, saias rodadas, passos ensaiados ao serão e abraços de gente que aprendeu a chamar família uns aos outros.
Tem apenas 24 anos, mas carrega nos ombros a responsabilidade de liderar uma das instituições culturais mais emblemáticas da vila. É a presidente mais jovem da história do Rancho Folclórico da Casa do Povo de Pinhal Novo e, atualmente, a dirigente associativa mais nova em atividade na terra que a viu nascer.
E talvez isso explique muita coisa.
Porque Cátia não chegou ao folclore por curiosidade. Chegou-lhe antes de nascer.
“A minha mãe diz-me que, quando eu estava na barriga dela, já dançava no rancho. Os primeiros pontapés que dei foi dentro da barriga da minha mãe. Cresci assim. Cresci a ouvir música tradicional, a sentir o ambiente dos ensaios, das atuações, dos festivais. O rancho nunca foi uma atividade. É parte daquilo que eu sou”, conta.

Cátia começou a dançar no rancho desde muito pequena 
A menina que caiu em palco… e nunca mais saiu dele
As primeiras memórias chegam-lhe desfocadas, como retratos antigos guardados numa gaveta cheia de tempo e saudade. Vê-se pequenina, de traje vestido, mãos nervosas e olhos brilhantes, a dançar ao lado de Rui Dantas, os dois mascotes do rancho naquela altura. Havia uma moda - o Passo Largo - que parecia feita à medida deles, tão pequenos e tão cheios de vontade de pertencer àquele mundo de música e tradição.
Numa dessas atuações, em pleno palco, Cátia caiu. Caiu diante de toda a gente. Rui continuou a dança, como mandava a música, e o público, enternecido com a inocência e o esforço daqueles dois miúdos, acabou a aplaudi-los de pé. No fim, deram-lhes até uma moedinha, quase como quem recompensa não a perfeição, mas o coração.
Cátia ainda hoje se ri quando conta essa história. Mas talvez tenha sido precisamente naquele instante - entre a queda, o aplauso e a música que nunca parou - que começou a nascer a mulher que é hoje. Porque aprendeu cedo que cair nunca pode ser razão para abandonar o palco.
“Foi aqui que nasci, foi aqui que cresci, foi aqui que me tornei a mulher que sou hoje. Nem consigo imaginar-me a viver noutro sítio. O Pinhal Novo faz parte da minha identidade. Quero continuar aqui, quero criar aqui os meus filhos, quero que eles cresçam com este sentido de comunidade que eu tive”.
No Pinhal Novo, quase toda a gente a conhece. Ou conhece alguém da família. Ou já a viu a dançar. Ou já ouviu falar daquela jovem presidente que decidiu pegar num rancho histórico e levá-lo para a frente sem deixar morrer a alma antiga.
Porque foi isso que aconteceu.
Num tempo em que muitos olham para o folclore como uma relíquia distante, Cátia viu nele futuro.

TikToks, noites do pijama e tradição: a fórmula improvável que resultou
Há uma geração inteira que cresceu agarrada aos ecrãs. E Cátia percebeu cedo que lutar contra isso seria perder a batalha.
Então fez o contrário: trouxe o digital para dentro da tradição.
Hoje, no Rancho Folclórico da Casa do Povo de Pinhal Novo, fazem-se TikToks, noites do pijama, brincadeiras, coreografias improvisadas, desafios entre os mais novos. E resultou. 
Hoje, a sala de ensaios do histórico Edifício Santa Rosa transformou-se numa verdadeira segunda casa para dezenas de crianças e jovens - sobretudo meninas, embora Cátia vá deixando o apelo com um sorriso: “faltam mais rapazes”. Ali, entre concertinas, gargalhadas e passos ensaiados vezes sem conta, nasceu um lugar onde muitos já não entram apenas para dançar, mas para sentir que pertencem a uma família.
“Há ainda muito preconceito. Muita gente acha que folclore é só vestir um traje antigo e dançar músicas velhas. Mas o folclore é muito mais do que isso. É família, é amizade, é união, é sentirmo-nos parte de alguma coisa. Nós tentamos mostrar isso aos jovens. Tentamos que eles percebam que aqui também há diversão, há convivência, há espaço para serem eles próprios”.
O segredo, diz, nunca esteve em obrigar ninguém a ficar.
“Os amigos puxam amigos. Uns vêm experimentar e acabam por trazer outros. E depois acontece uma coisa muito bonita: quando não há ensaio à sexta-feira, eles sentem falta. Perguntam logo quando é o próximo”.
Sob a sua liderança, o rancho não apenas resistiu... rejuvenesceu. Hoje, há crianças, adolescentes e jovens adultos a entrar numa casa que durante anos muitos julgavam condenada ao desgaste inevitável do tempo.

A coragem escondida atrás da timidez
Quem a vê hoje, firme, segura e capaz de liderar dezenas de pessoas, dificilmente imagina a jovem tímida que tinha medo de falar com desconhecidos.
Ser presidente não foi um passo natural. Foi um salto.
“Foi um ato de coragem. Eu era muito envergonhada. Tinha medo até de falar com pessoas. O rancho obrigou-me a crescer. Obrigou-me a tornar-me mais assertiva, a enfrentar problemas, a lidar com obstáculos. E hoje sinto que consigo fazê-lo sem medo”.
Mas nem todos aceitaram facilmente. A juventude, em Portugal, continua muitas vezes a ser confundida com inexperiência. E Cátia sentiu isso na pele.
“No início havia muito aquele pensamento de ‘o que é que esta menina tão nova está aqui a fazer?’. Sentia esse olhar. Mas depois, com o tempo, perceberam que eu estava ali para ouvir todos, para aprender também. Porque ninguém faz isto sozinho”.
E talvez seja precisamente essa humildade que explique o respeito que hoje conquistou.

O dia em que o palco lhe trouxe lágrimas
Entre TikToks e acordeões: a menina que uniu tradição e juventude
Há perguntas que fazem a voz tremer. Quando recorda o momento mais emocionante vivido com o grupo, Cátia demora segundos a responder. Os olhos enchem-se primeiro.
Depois fala.
“Foi há pouco tempo. Quando descobri que estava grávida, toda a gente ficou muito feliz. Mas houve uma atuação em que eles decidiram demonstrar isso em palco. E naquele momento vi os meus meninos todos à minha volta, a abraçarem-me, todos com um sorriso enorme. E percebi ali que aquilo que estamos a construir é verdadeiro. Que vale a pena”.
O Vicente ainda não nasceu. Mas já pertence, de certa forma, àquela família coletiva feita de músicos, dançarinos, crianças e ensaios à sexta-feira.
“Às vezes digo a brincar que os primeiros pontapés que ele deu também foi a ouvir o acordeão. E acredito mesmo nisso. Porque ele já vive isto comigo”.
A gravidez mudou-lhe a forma de olhar para o futuro: “Quando descobri, pensei muito no que ia fazer. Tive medo. Mas depois percebi que tudo aquilo que construímos faz sentido. E agora ainda mais. Porque quero ensinar às crianças o gosto por aquilo que é nosso. Quero que elas sintam orgulho nas nossas tradições”.
 
Uma terra onde toda a gente conhece o nome do outro


Há algo de raro no modo como Cátia fala do Pinhal Novo. Não descreve apenas ruas ou lugares. Fala de pessoas.
“Conheço um bocadinho de toda a gente. Sinto que em cada esquina encontro alguém conhecido. E isso hoje em dia vale muito. O meu filho ainda nem nasceu e já é acarinhado por tantas pessoas”.
É talvez essa dimensão comunitária que continua a fazer do Pinhal Novo uma terra diferente.
Uma vila onde o rancho ainda é ponto de encontro. Onde os mais velhos ensinam os mais novos. Onde o traje não é fantasia: é memória.
Quando veste a roupa do rancho, Cátia não sente que está apenas a representar.
“Sinto que é uma segunda pele. Não consigo imaginar-me sem isto. É um orgulho enorme representar aquilo que é nosso”.
E há músicas que lhe continuam a bater diretamente no peito.
O “Passo Largo” é uma delas. Também para o bebé, garante, entre risos. 
Mas há outra que guarda num lugar especial: “Moda da Tia Angelina”, uma dança antiga do grupo que está lentamente a regressar aos ensaios.
“Tem um sabor especial porque esteve muito tempo parada. E agora estamos aos poucos a recuperá-la. 
É bonito sentir que conseguimos trazer certas coisas de volta”.
Quando questionada sobre os estímulos sensoriais que a devolvem instantaneamente ao passado, Cátia não hesita. O paladar e o olfato funcionam como máquinas do tempo gastronómicas. Que cheiro ou sabor da nossa terra te transporta imediatamente para a infância? "Ai, o cheirinho da sopa caramela e das nossas pataniscas, que é aquele ponto do nosso rancho. Acho que sempre cresci com isso e agora sempre que sinto o cheirinho é voltar à minha infância", confessa, evocando os dias de festa em que a comunidade se reúne. 

O futuro mora ali, entre o acordeão e os sonhos
Cátia Pólvora não fala como alguém agarrado ao passado. Fala como quem acredita profundamente que tradição e modernidade não precisam de estar em guerra.
Quer levar o rancho além-fronteiras. Sonha com atuações em Espanha, em França, em novos palcos onde o nome do Pinhal Novo possa ecoar longe da terra que o viu nascer.
Mas o verdadeiro legado que quer deixar talvez seja outro.
“Quero que os jovens levem daqui as amizades, o carinho, o conforto que sentem uns com os outros. Mesmo que um dia deixem de dançar. Quero que levem este amor pelas nossas tradições e que o espalhem”.
No fim da conversa, surge a pergunta mais simples de todas: O que é sentir-se verdadeiramente em casa?
Cátia sorri antes de responder: “É olhar para os sorrisos dos meus meninos, da minha tocata, da minha direção. É sentir o orgulho que eles têm em mim e eu neles”.
E talvez seja isso, afinal, que mantém vivas certas terras.
Não os edifícios. Não as datas. Nem sequer as tradições: Mas as pessoas que escolhem continuar a amar tudo isso como se fosse parte do próprio corpo. 

Em nome da mãe Teresa 
A mãe é a sua maior referencia na vida 
Talvez seja por isso que Cátia Pólvora nunca fala do rancho como quem fala apenas de dança. Fala dele como quem fala de casa. Como quem fala de sangue.
Pinhalnovense de origem e de coração, cresceu a ver na mãe a definição exata de força. “A minha mãe é uma força da natureza. Mesmo quando as coisas não correm como ela queria, arranja sempre maneira de resolver. Se existir um obstáculo, ela passa por cima”. E talvez tenha herdado precisamente isso: a capacidade rara de continuar, mesmo quando a vida aperta os cordões dos saiotes e exige mais fôlego do que aquele que parece existir.
Hoje, enquanto ajusta os trajes que tantas vezes “dão luta” antes de cada atuação, Cátia prepara-se também para o papel mais importante da sua vida: ser mãe. E no meio dos ensaios, das concertinas, dos ferrinhos e dos risos dos seus “meninos”, já imagina o futuro a correr pelos corredores da sede do rancho.
Não sonha com palcos milionários nem com fama. Sonha com o filho a correr dentro da Casa do Povo, a crescer entre modas antigas, abraços sinceros e o orgulho de pertencer ao Pinhal Novo.
Porque há pessoas que passam pela tradição. E há outras que se tornam tradição.
Cátia Pólvora, aos 24 anos, já pertence à história viva da sua [nossa] terra.

Paulo Jorge Oliveira 
Fotografia: Paulo Jorge Oliveira e Cátia Pólvora 


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