O primeiro presidente eleito da Junta de Freguesia "em democracia" que nunca deixou de servir a vila
Há histórias que se contam com datas e documentos. E há outras que se contam com memória, poeira e passos dados contra o vento. A de Joaquim Ricardo pertence claramente à segunda categoria. No Pinhal Novo, o seu nome não vive apenas nos arquivos da história local. Vive nas ruas que foram asfaltadas quando ainda eram caminhos de terra. Vive na luz que chegou quando a noite era mais escura. Vive na memória de uma geração que viu uma terra nascer quase do nada. Esta é mais uma história da rubrica “Gente da Nossa Terra”, onde o ADN humano do Pinhal Novo se conta através de quem ajudou a erguer, passo a passo, a identidade desta vila.![]() |
| Joaquim Ricardo: uma vida inteira dedicada ao Pinhal Novo |
Foi nesse tempo - quando quase tudo estava por construir - que homens e mulheres da terra decidiram não esperar por ninguém. Entre eles estava Joaquim Ricardo.
Hoje, à beira dos 90 anos, continua a pedalar pela vila - e a bicicleta tornou-se uma imagem tão familiar quanto a sua própria presença na comunidade. Longe da política institucional, dirige a Associação de Reformados e Pensionistas do Pinhal Novo e mantém-se ligado às pessoas com a mesma simplicidade que sempre o caracterizou.
Mas para compreender verdadeiramente o seu percurso é preciso regressar a um tempo em que o Pinhal Novo ainda procurava encontrar o seu lugar. E, sobretudo, é preciso ouvir quem viveu esse tempo.
Mas para compreender verdadeiramente o seu percurso é preciso regressar a um tempo em que o Pinhal Novo ainda procurava encontrar o seu lugar. E, sobretudo, é preciso ouvir quem viveu esse tempo.
A história contemporânea do Pinhal Novo cruza-se inevitavelmente com a revolução democrática de 1974.
A freguesia existia desde 1928, mas foi apenas depois do 25 de Abril que o poder local começou verdadeiramente a ganhar forma. É nesse momento que surge Joaquim Ricardo.
Em 1977, torna-se o primeiro presidente da Junta de Freguesia eleito em democracia. Mais do que um cargo político, era uma missão fundadora: organizar serviços, responder às necessidades básicas da população e criar uma ligação de confiança entre a autarquia e os habitantes.
Acabaria por liderar a freguesia em três períodos distintos - 1977-1979, 1980-1982 e 1990-1993 - sinal claro do reconhecimento da comunidade.
Em 1977, torna-se o primeiro presidente da Junta de Freguesia eleito em democracia. Mais do que um cargo político, era uma missão fundadora: organizar serviços, responder às necessidades básicas da população e criar uma ligação de confiança entre a autarquia e os habitantes.
Acabaria por liderar a freguesia em três períodos distintos - 1977-1979, 1980-1982 e 1990-1993 - sinal claro do reconhecimento da comunidade.
"As necessidades eram tantas, mas tantas e tão grandes, que quem não viveu aquele tempo não consegue imaginar. Antes do 25 de Abril não havia possibilidade de fazer nada disto… nada. E depois abriu-se uma porta - e nós tivemos de entrar por ela, porque o Pinhal Novo estava muito, muito atrasado"
A palavra surge repetidamente na sua memória: atrasado. E não é exagero.
"Íamos buscar água como quem vai buscar esperança"
Hoje há ruas asfaltadas, iluminação pública, serviços, escolas, movimento. Mas houve um tempo em que tudo isso era apenas ausência.
Joaquim Ricardo lembra-se de cada detalhe.
"Era muito difícil viver aqui. Nós chegámos a ir buscar água à estação, íamos aos poços… as pessoas não tinham água canalizada, não tinham luz, não tinham caminhos em condições. Aquilo não era uma vila como é hoje - era quase um deserto em termos de condições".
A pausa que se segue é longa. Como se as imagens regressassem de repente.
Depois acrescenta, quase em tom de espanto perante o contraste entre passado e presente.
"Quem olha hoje não imagina. Não imagina mesmo".
Ser presidente da Junta naquele tempo não era um cargo confortável. Era uma responsabilidade enorme com recursos mínimos.
Cada decisão implicava negociação, persistência e, muitas vezes, uma dose grande de teimosia.
Um exemplo marcante foi a ampliação do cemitério da Cascalheira. Pode parecer apenas uma questão administrativa. Mas para Joaquim Ricardo era algo muito mais profundo.
"Houve quem não quisesse dar terreno, tivemos de insistir, negociar, insistir outra vez… mas fizemos. Porque até para morrer as pessoas precisam de dignidade".
É uma frase simples, mas diz muito sobre a forma como encarava o serviço público. E resume aquele período com uma serenidade que só o tempo permite.
"Fazia-se aquilo que se podia… mas fazia-se. Nunca se deixou de fazer".
Entre a Lisnave e a Junta: duas vidas no mesmo dia
Enquanto liderava a freguesia, Joaquim Ricardo trabalhava na Lisnave, enfrentando turnos exigentes.
O dia raramente terminava quando saía do trabalho.
"Era muito difícil. Eu vinha do trabalho, muitas vezes cansado, sem descanso… mas depois havia sempre mais qualquer coisa para resolver aqui. E a gente fazia. Porque tinha de ser feito".
Não havia uma separação clara entre vida profissional, vida pessoal e serviço à comunidade.
Tudo fazia parte da mesma missão.
A política que mudou
Décadas depois, Joaquim Ricardo observa a política com alguma preocupação.
Acredita que o espírito que marcou aqueles primeiros anos da democracia se perdeu um pouco pelo caminho.
"A política está muito diferente. Naquele tempo havia um espírito de missão, de entreajuda… hoje muita gente esqueceu-se do que foi preciso passar para chegar aqui".
E deixa uma reflexão que funciona quase como um aviso.
"As pessoas pensam que as coisas aparecem feitas, que caem do céu. Mas não caem. Nunca caíram. Tudo o que aqui está foi conquistado com muita luta, com muito sacrifício".
Quando fala das novas gerações, não usa discursos complicados. Prefere um conselho direto.
"Façam o mesmo que nós fizemos. Lutem pela vossa terra, envolvam-se, não fiquem à espera. Porque se não forem vocês, ninguém vai fazer por vocês".
E talvez seja esta a frase que melhor resume toda a sua vida.
"Eu nunca lutei pelo meu bem-estar. Sempre lutei pelo bem-estar dos outros. E é isso que faz falta hoje - mais gente disposta a dar sem esperar receber".
A palavra surge repetidamente na sua memória: atrasado. E não é exagero.
"Íamos buscar água como quem vai buscar esperança"
Hoje há ruas asfaltadas, iluminação pública, serviços, escolas, movimento. Mas houve um tempo em que tudo isso era apenas ausência.
Joaquim Ricardo lembra-se de cada detalhe.
"Era muito difícil viver aqui. Nós chegámos a ir buscar água à estação, íamos aos poços… as pessoas não tinham água canalizada, não tinham luz, não tinham caminhos em condições. Aquilo não era uma vila como é hoje - era quase um deserto em termos de condições".
A pausa que se segue é longa. Como se as imagens regressassem de repente.
Depois acrescenta, quase em tom de espanto perante o contraste entre passado e presente.
"Quem olha hoje não imagina. Não imagina mesmo".
O momento em que alguém tinha de avançar
Depois da Revolução de Abril, o país mudou. Mas nas vilas e nas aldeias essa mudança tinha de ser construída passo a passo.
No Pinhal Novo, alguém tinha de dar o primeiro passo.
"Eu senti que tinha de fazer alguma coisa. Não por mim, mas porque aquilo precisava mesmo de alguém que se chegasse à frente. E não fui só eu, claro… mas eu estava lá, e avancei. Incentivei-me, outros ajudaram-me, e fomos fazendo. Foi assim que tudo começou".
Não havia planos complexos, nem grandes financiamentos. Só havia urgência. E havia pessoas dispostas a trabalhar.
Uma simples passagem sobre a linha férrea tornou-se símbolo dessa determinação.
"Os carros não passavam. E nós fizemos passar. Pode parecer uma coisa pequena hoje, mas naquela altura era abrir caminho onde não havia caminho".
Depois da Revolução de Abril, o país mudou. Mas nas vilas e nas aldeias essa mudança tinha de ser construída passo a passo.
No Pinhal Novo, alguém tinha de dar o primeiro passo.
"Eu senti que tinha de fazer alguma coisa. Não por mim, mas porque aquilo precisava mesmo de alguém que se chegasse à frente. E não fui só eu, claro… mas eu estava lá, e avancei. Incentivei-me, outros ajudaram-me, e fomos fazendo. Foi assim que tudo começou".
Não havia planos complexos, nem grandes financiamentos. Só havia urgência. E havia pessoas dispostas a trabalhar.
Uma simples passagem sobre a linha férrea tornou-se símbolo dessa determinação.
"Os carros não passavam. E nós fizemos passar. Pode parecer uma coisa pequena hoje, mas naquela altura era abrir caminho onde não havia caminho".
Liderar quando quase nada existia
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| Entre memória e futuro, o homem que ajudou a construir uma vila |
Cada decisão implicava negociação, persistência e, muitas vezes, uma dose grande de teimosia.
Um exemplo marcante foi a ampliação do cemitério da Cascalheira. Pode parecer apenas uma questão administrativa. Mas para Joaquim Ricardo era algo muito mais profundo.
"Houve quem não quisesse dar terreno, tivemos de insistir, negociar, insistir outra vez… mas fizemos. Porque até para morrer as pessoas precisam de dignidade".
É uma frase simples, mas diz muito sobre a forma como encarava o serviço público. E resume aquele período com uma serenidade que só o tempo permite.
"Fazia-se aquilo que se podia… mas fazia-se. Nunca se deixou de fazer".
Entre a Lisnave e a Junta: duas vidas no mesmo dia
Enquanto liderava a freguesia, Joaquim Ricardo trabalhava na Lisnave, enfrentando turnos exigentes.
O dia raramente terminava quando saía do trabalho.
"Era muito difícil. Eu vinha do trabalho, muitas vezes cansado, sem descanso… mas depois havia sempre mais qualquer coisa para resolver aqui. E a gente fazia. Porque tinha de ser feito".
Não havia uma separação clara entre vida profissional, vida pessoal e serviço à comunidade.
Tudo fazia parte da mesma missão.
Quando as ruas começaram a mudar
Pouco a pouco, o Pinhal Novo começou a transformar-se.
As ruas ganharam alcatrão. A eletricidade chegou às casas. Os caminhos começaram a ligar lugares que antes pareciam isolados.
Cada melhoria era celebrada como uma conquista coletiva.
"Quando começámos a ver as ruas alcatroadas, a luz a chegar, os caminhos a ganharem forma… aí sim, sentimos que o Pinhal Novo estava a dar um passo histórico. Um passo grande, mesmo grande".
Pouco a pouco, o Pinhal Novo começou a transformar-se.
As ruas ganharam alcatrão. A eletricidade chegou às casas. Os caminhos começaram a ligar lugares que antes pareciam isolados.
Cada melhoria era celebrada como uma conquista coletiva.
"Quando começámos a ver as ruas alcatroadas, a luz a chegar, os caminhos a ganharem forma… aí sim, sentimos que o Pinhal Novo estava a dar um passo histórico. Um passo grande, mesmo grande".
Mas havia algo que o preocupava ainda mais do que as obras visíveis. Entre todas as obras, houve uma que sempre considerou essencial: a luta por escolas e serviços básicos.
Para Joaquim Ricardo, não se tratava apenas de construir edifícios. Tratava-se de construir futuro e lembra que nem sempre foi fácil convencer todos.
"Quando lutámos por escolas, por centros de saúde… eu não estava a pensar em edifícios. Estava a pensar nas gerações que vinham a seguir. Porque uma terra sem isso não tem futuro".
E não foi uma batalha fácil.
"Lutei muito. Houve quem não quisesse fazer escolas onde eram precisas, houve resistências… mas eu bati o pé. E conseguimos. E quando conseguimos, aí sim, senti que valeu a pena".
E não foi uma batalha fácil.
"Lutei muito. Houve quem não quisesse fazer escolas onde eram precisas, houve resistências… mas eu bati o pé. E conseguimos. E quando conseguimos, aí sim, senti que valeu a pena".
A política que mudou
Décadas depois, Joaquim Ricardo observa a política com alguma preocupação.
Acredita que o espírito que marcou aqueles primeiros anos da democracia se perdeu um pouco pelo caminho.
"A política está muito diferente. Naquele tempo havia um espírito de missão, de entreajuda… hoje muita gente esqueceu-se do que foi preciso passar para chegar aqui".
E deixa uma reflexão que funciona quase como um aviso.
"As pessoas pensam que as coisas aparecem feitas, que caem do céu. Mas não caem. Nunca caíram. Tudo o que aqui está foi conquistado com muita luta, com muito sacrifício".
Uma vida que continua a servir
Apesar da idade, Joaquim Ricardo continua ligado à comunidade.
Hoje dedica grande parte do seu tempo à Associação de Reformados e Pensionistas do Pinhal Novo, onde ajuda muitos idosos da vila.
E fá-lo da mesma forma simples de sempre.
"Ainda hoje vou buscá-los a casa, levo-os, ajudo no que é preciso. É difícil, claro que é… mas eles precisam, e enquanto eu puder, vou continuar".
Há, no entanto, uma realidade que o toca profundamente.
"Há pessoas que trabalharam uma vida inteira e agora não têm dinheiro para pagar um lar. Isso custa-me muito. Custa mesmo".
Apesar da idade, Joaquim Ricardo continua ligado à comunidade.
Hoje dedica grande parte do seu tempo à Associação de Reformados e Pensionistas do Pinhal Novo, onde ajuda muitos idosos da vila.
E fá-lo da mesma forma simples de sempre.
"Ainda hoje vou buscá-los a casa, levo-os, ajudo no que é preciso. É difícil, claro que é… mas eles precisam, e enquanto eu puder, vou continuar".
Há, no entanto, uma realidade que o toca profundamente.
"Há pessoas que trabalharam uma vida inteira e agora não têm dinheiro para pagar um lar. Isso custa-me muito. Custa mesmo".
O conselho para quem vem depois
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| Em Março a Junta de Freguesia homenageou o primeiro presidente |
"Façam o mesmo que nós fizemos. Lutem pela vossa terra, envolvam-se, não fiquem à espera. Porque se não forem vocês, ninguém vai fazer por vocês".
E talvez seja esta a frase que melhor resume toda a sua vida.
"Eu nunca lutei pelo meu bem-estar. Sempre lutei pelo bem-estar dos outros. E é isso que faz falta hoje - mais gente disposta a dar sem esperar receber".
É essa a linha que atravessa toda a sua história - da infância humilde no Alentejo, onde caminhava quilómetros para ir à escola, até à construção de uma vila que hoje oferece qualidade de vida a quem cá vive.
A memória de uma terra
Hoje o Pinhal Novo é uma vila com milhares de habitantes, serviços, cultura e uma forte ligação à mobilidade ferroviária.
Mas por detrás dessa realidade existe o trabalho silencioso de pessoas que decidiram agir quando quase nada estava feito.
Joaquim Ricardo pertence a esse grupo restrito de protagonistas locais que não aparecem nos grandes livros de História, mas que moldam profundamente o quotidiano das populações. A sua trajetória recorda-nos que a política, ao nível mais próximo das pessoas, é feita de compromisso, persistência e visão.
Não pede destaque. Não pede homenagens. Pede apenas que a memória não desapareça.
"Que as pessoas percebam o que isto era antes do 25 de Abril. Que saibam que não havia nada e que tudo o que há hoje foi construído com esforço, com união, com luta. Minha e de muitos outros".
Talvez seja essa a melhor forma de resumir a sua história: No Pinhal Novo, nada caiu do céu. Tudo foi conquistado.
Hoje o Pinhal Novo é uma vila com milhares de habitantes, serviços, cultura e uma forte ligação à mobilidade ferroviária.
Mas por detrás dessa realidade existe o trabalho silencioso de pessoas que decidiram agir quando quase nada estava feito.
Joaquim Ricardo pertence a esse grupo restrito de protagonistas locais que não aparecem nos grandes livros de História, mas que moldam profundamente o quotidiano das populações. A sua trajetória recorda-nos que a política, ao nível mais próximo das pessoas, é feita de compromisso, persistência e visão.
Não pede destaque. Não pede homenagens. Pede apenas que a memória não desapareça.
"Que as pessoas percebam o que isto era antes do 25 de Abril. Que saibam que não havia nada e que tudo o que há hoje foi construído com esforço, com união, com luta. Minha e de muitos outros".
Talvez seja essa a melhor forma de resumir a sua história: No Pinhal Novo, nada caiu do céu. Tudo foi conquistado.
O seu nome não vive apenas nos registos da história local. Vive nas ruas que hoje atravessam a vila. Vive nas escolas, nos serviços, nas conquistas que transformaram um lugar cheio de carências numa comunidade com identidade e futuro. Vive, sobretudo, na memória de quem assistiu à transformação de uma terra que aprendeu a levantar-se com as próprias mãos.
Porque o Pinhal Novo não nasceu pronto. Foi construído com luta, persistência e um profundo sentido de comunidade. E poucas histórias representam tão bem esse espírito como a de Joaquim Ricardo.
Porque o Pinhal Novo não nasceu pronto. Foi construído com luta, persistência e um profundo sentido de comunidade. E poucas histórias representam tão bem esse espírito como a de Joaquim Ricardo.
E certamente seja essa a sua maior herança: não apenas o que fez, mas o exemplo de que uma vila se constrói - literalmente - com mãos, ideias e um profundo sentido de pertença
Paulo Jorge Oliveira
Fotografia: Paulo Jorge Oliveira



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