Sol regressa a Almada, mas há famílias que já não vão voltar a casa

Encostas instáveis obrigam a respostas urgentes em Porto Brandão e Costa de Caparica

O céu abriu finalmente sobre Almada, mas a tranquilidade está longe de ser plena. Depois de três semanas marcadas por um violento “corredor de tempestades”, o concelho entra agora numa fase decisiva de reconstrução. As zonas mais afetadas são Porto Brandão e a Costa de Caparica, onde a instabilidade do terreno continua a preocupar as autoridades. E há uma certeza dolorosa que começa a ganhar forma: muitas famílias já sabem que não poderão regressar às suas casas. 
Encostas instáveis mantêm alerta em Porto Brandão e Caparica 

“Agora está sol, mas o perigo ainda não desapareceu”. Foi desta forma direta que a presidente da Câmara Municipal de Almada, Inês de Medeiros, se dirigiu aos munícipes, esta segunda-feira, através de uma mensagem em vídeo divulgada nas redes sociais. 
Após três semanas marcadas por um intenso “corredor de tempestades” que deixou um rasto de destruição no concelho, o município prepara-se para uma nova etapa: a reconstrução. A melhoria do estado do tempo trouxe algum alívio, mas os riscos mantêm-se, sobretudo nas encostas de Porto Brandão e na Costa de Caparica, onde a instabilidade do terreno continua a preocupar as autoridades. E há uma certeza dolorosa: muitas famílias já sabem que não poderão regressar às suas casas.
“Por fim um pouco de sol depois de três semanas muito difíceis que nós passámos em conjunto”, afirmou a autarca, sublinhando o esforço coletivo vivido nas últimas semanas.

Quase 500 pessoas retiradas de casa
O cenário mais crítico resultou dos deslizamentos de terra na Azinhaga dos Formozinhos, em Porto Brandão, e também na Costa de Caparica, “tanto de um lado como do outro”, explicou.
“Houve também uma situação mais grave”, referiu, apontando para a instabilidade das arribas e encostas que obrigou à retirada de centenas de moradores. “Esses deslizamentos obrigaram a retirar pessoas de suas casas, retirámos quase 500 pessoas”, declarou.
Parte dessas pessoas foi acolhida diretamente pelo município, enquanto outras encontraram abrigo junto de familiares e amigos. O impacto, no entanto, estendeu-se muito além das habitações particulares.
As tempestades provocaram danos em vias rodoviárias, escolas, centros de saúde e habitação municipal. Na Costa de Caparica, os concessionários das praias também sofreram prejuízos significativos, agravando o cenário económico local.
 
Reconstruir começa agora: levantamento caso a caso
Ultrapassada a fase mais urgente da emergência, a Câmara Municipal concentra-se agora num levantamento exaustivo da situação de cada agregado familiar afetado.
“Está na altura de começarmos a reconstruir”, afirmou Inês de Medeiros, explicando que é essencial conhecer “exatamente toda a situação de todas as pessoas que foram retiradas de casa”.
A análise está a ser feita caso a caso: perceber se existem condições de segurança para o regresso, se esse regresso será impossível e qual o enquadramento legal de cada morador, seja arrendatário ou proprietário.
Para dar resposta a esta complexidade, foi criado um gabinete de apoio específico. “É isso que nós estamos a fazer com um gabinete de apoio que criámos de propósito para poder obter os dados de todas as pessoas e assim criarmos um planeamento de reconstrução destas vidas”, explicou.

Acesso a Porto Brandão é prioridade absoluta
Em paralelo, decorrem trabalhos intensivos de limpeza e desobstrução de vias, com especial enfoque no acesso a Porto Brandão.
“É muito importante começar a limpar as vias e sobretudo o acesso à localidade”, frisou a presidente.
Há moradores que continuam impedidos de regressar não porque as suas casas estejam diretamente ameaçadas, mas porque os acessos permanecem bloqueados ou inseguros. “Há muita gente que neste momento não vai a Porto Brandão não porque as suas casas estão em risco mas pura e simplesmente porque não está acessível”, explicou.
A Câmara Municipal de Almada iniciou os trabalhos de desobstrução da rua 1.º de Maio, que dá acesso ao Porto Brandão, numa intervenção que, numa primeira fase, representa um investimento municipal estimado em 2,6 milhões de euros. A informação foi avançada por Inês de Medeiros, presidente da autarquia, através de uma publicação nas redes sociais.
“Este é um passo importante para que as famílias retiradas preventivamente possam regressar às suas casas e para que o comércio local, os restaurantes e o terminal fluvial possam retomar a atividade”, explicou a autarca.
A intervenção é particularmente exigente do ponto de vista técnico. As terras continuam em movimento, situação que está a ser acompanhada pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, que instalou marcadores no terreno para monitorizar a evolução das encostas.
“É uma obra difícil aquela que nós estamos a fazer porque aquelas terras ainda estão em movimento”, afirmou.

“Muita paciência” e esperança no futuro
Perante um cenário ainda instável, a autarca apelou ao cumprimento rigoroso das orientações das autoridades. “É muito muito importante que continuem a aceitar e a respeitar as indicações da proteção civil”, pediu.
Reconhecendo o desgaste emocional provocado por semanas de incerteza, deixou um apelo à população: “muita paciência” e confiança na “capacidade de resiliência” dos almadenses, “que eu sei que têm”.
A concluir, dirigiu palavras especialmente sentidas a quem poderá não regressar à casa onde construiu uma vida. “Termino com uma palavra especial para aqueles cuja casa já foi afetada e que vivem num sítio onde provavelmente não vai ser possível regressar”, afirmou.
Inês de Medeiros acrescentou: “sei, o sofrimento que é deixar a casa de uma vida e deixar muitas memórias. Nunca nos esquecemos dessa dor”. E garantiu: “estamos convosco solidariamente e ativamente para que este momento seja o mais breve possível e que possam sarar e possam voltar a ter esperança neste nosso maravilhoso território”.

Agência de Notícias 
Fotografia: Carlos Valadas / CM Almada 

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