Montijo em alerta: dois homens em prisão preventiva por violência doméstica

Gritos de socorro e fuga às autoridades terminam com suspeitos atrás das grades 

No mesmo território, em poucos dias, duas detenções por violência doméstica terminaram com a aplicação da medida de coação mais gravosa: prisão preventiva. No Montijo, tanto a Guarda Nacional Republicana como a Polícia de Segurança Pública detiveram dois homens suspeitos de agredirem as ex-companheiras. Ambos vão aguardar julgamento atrás das grades, num sinal claro de maior rigor judicial num dos crimes que mais cresce em Portugal. Os casos surgem na semana em que se assinalou o Dia Europeu da Vítima de Crime, celebrado no domingo, 22 de Fevereiro. Uma coincidência que sublinha a urgência do debate e a dimensão estrutural do problema.
Um dos casos ocorreu junto à esquadra da PSP do Montijo 

Num dos episódios, um homem de 34 anos foi detido pela GNR no concelho do Montijo por suspeitas de violência doméstica contra a ex-companheira, de 28 anos. A detenção ocorreu na quarta-feira, na sequência de uma denúncia.
Segundo as autoridades, o suspeito, já referenciado por ilícitos da mesma natureza, exerceu violência sobre a vítima e colocou-se em fuga após os factos. Tentou esconder-se, aproveitando as condições atmosféricas adversas e as características do terreno para escapar à ação policial.
As diligências dos militares do Posto Territorial do Montijo permitiram, contudo, localizá-lo e detê-lo. Presente ao Tribunal Judicial do Barreiro, ficou em prisão preventiva.
A GNR recorda que realiza regularmente campanhas de sensibilização e apela à denúncia através do Portal Queixa Eletrónica, do número europeu de emergência 112, do posto mais próximo ou das aplicações MAI112 e SMS Segurança, esta última destinada a cidadãos surdos.

Gritos de socorro ouvidos na rua terminam em perseguição policial
No outro caso, foi o som dos gritos que desencadeou a intervenção. Dois agentes da PSP ouviram pedidos de socorro nas imediações da Esquadra do Montijo e correram para o local. Encontraram uma mulher caída no solo e o agressor a tentar fugir. O homem terá  atacado a ex-companheira com golpes de faca e pedras. 
Enquanto um dos polícias prestava assistência à vítima, o outro iniciou uma perseguição apeada por cerca de 200 metros. O suspeito foi intercetado junto da sua viatura, quando se preparava para entrar e abandonar o local.
O homem estava na posse de uma faca com vestígios de sangue no momento da detenção. A vítima foi assistida no local pelos bombeiros do Montijo e transportada para o Hospital do Barreiro para receber tratamento médico.
Após primeiro interrogatório judicial, também este arguido ficou sujeito à medida de coação de prisão preventiva.

"Barómetro do nosso grau de civilização"
Para Cristina Soeiro, psicóloga forense e vice-presidente da APAV, a violência doméstica mantém-se como um fenómeno estrutural na sociedade portuguesa.
A especialista, com larga experiência na Polícia Judiciária, sublinha o aumento do número de vítimas que recorrem a serviços de apoio. Este crescimento reflete, por um lado, mais criminalidade e, por outro, menos medo de quebrar o silêncio.
"Ser vítima vai muito além do momento do crime", alerta. As consequências prolongam-se no tempo, com medo persistente, impacto profundo na saúde mental e efeitos diretos nos filhos. O percurso judicial é frequentemente longo e desgastante, num sistema que ainda falha na resposta célere, na articulação entre entidades e na proteção efetiva das vítimas.
Sobre o Dia Europeu da Vítima de Crime, considera que funciona como um verdadeiro "barómetro do nosso grau de civilização" e defende que a data continua a fazer todo o sentido.

Um crime que exige resposta coletiva
Os dois casos registados no Montijo mostram uma resposta judicial mais firme, contrariando situações anteriores em que suspeitos aguardavam julgamento em liberdade. Ainda assim, especialistas alertam que a prisão preventiva, por si só, não resolve um problema que tem raízes profundas.
A violência doméstica continua a ser um dos crimes mais denunciados em Portugal. E cada grito ouvido na rua, cada denúncia apresentada, representa não apenas um pedido de ajuda, mas também um teste à capacidade do sistema em proteger quem mais precisa.

Agência de Notícias 
Fotografia: Paulo Jorge Oliveira 

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