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sexta-feira, 5 de abril de 2019

Setúbal vai ter espaços e lugares ligados a Zeca Afonso

Concerto e roteiro dos lugares de José Afonso assinalam 90 anos do músico

Um concerto de rua com “companheiros de estrada” de José Afonso e a edição de um roteiro com “os lugares do Zeca” em Setúbal constam das comemorações do 90.º aniversário de nascimento do autor de “Grândola, vila morena”. A informação foi divulgada esta quinta-feira, em conferência de imprensa, pela direção da Associação José Afonso – o presidente da associação, Francisco Fanhais, e o vogal João Madeira – na sede nacional desta entidade, em Setúbal. Mais de 40 locais “icónicos” a que José Afonso esteve ligado, na cidade de Setúbal, estão inventariados para a elaboração do roteiro “Os Lugares do Zeca na Geografia da Cidade”, disse o autor da obra.
José Afonso fazia este ano 90 anos 


Assinalar os 90 anos de nascimento de José Afonso, a 2 de Agosto próximo, evocar os 45 anos do 25 de Abril, “não dissociando a passagem do Zeca pela cidade de Setúbal”, foram, segundo João Madeira, os fatores que estiveram na base da programação das comemorações, que fazem parte do plano de atividades da Associação José Afonso para este ano.
O facto de as geografias do “poeta, andarilho e cantor” se cruzarem com Setúbal  - onde se fixou, em 1967, e onde morreu, em 23 de Fevereiro de 1987 - estiveram na base da escolha da cidade para a divulgação destas iniciativas da Associação José Afonso, bem como na origem da elaboração de um roteiro com lugares associados ao autor de “A Morte Saiu À Rua”, sem deixar de evocar a Revolução de Abril de 1974, tão “cara” a José Afonso, e que pôs fim a 48 anos de ditadura em Portugal, referiu João Madeira.
O roteiro é da autoria do professor Albérico Afonso, da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Setúbal, e investigador do Instituto de História Contemporânea.
Além de um concerto ao ar livre com “companheiros de estrada, de estúdio e de vida” de José Afonso - cujos nomes não foram revelados por não estarem concluídos os contactos -, as comemorações do nascimento do cantor (2 de Agosto de 1929, em Aveiro), integram ainda uma exposição com capas de edições discográficas de José Afonso pouco conhecidas do público, patente a partir de 21 de Abril, na Casa da Cultura de Setúbal, onde decorrerão também “tertúlias” sobre a obra de José Afonso.
No dia 28 de Abril, acontecerão “Baladas e Cantares do Andarilho”, pelo músico Rui Pato, que começou a acompanhar José Afonso à viola, aos 16 anos, em Coimbra, e com quem, durante a década de 1960, gravou mais de sete discos; no dia 26 de Maio, a tertúlia toma “Contos velhos, rumos novos e traz outro amigo também”, com Mário Correia, autor de livros sobre José Afonso. Ambas serão moderadas pelo jornalista Viriato Teles.
O programa alarga-se às crianças, com teatro e oficinas, para “passar o legado de José Afonso às gerações mais novas”.
Para os mais novos, as ações realizam-se na Casa de Cultura, um edifício recuperado pela autarquia e que, em 1975, foi ocupado pela direção do Círculo Cultural de Setúbal, instituição “fundamental” na vida de José Afonso – onde o cantor chegou a dar espetáculos bem como aulas de alfabetização ou de várias disciplinas do antigo ciclo preparatório -, e na resistência ao Estado Novo.
As encenações teatrais para crianças têm lugar nos dias 25 e 28 de Abril, e as oficinas sobre a obra do autor de “Os vampiros” para alunos do pré-escolar e ensino básico, realizam-se em Julho.
A nível nacional, Francisco Fanhais sublinhou a edição de correspondência inédita entre José Afonso e a família do jornalista e fotógrafo Rocha Pato, pai de Rui Pato, além de um concerto de homenagem a Rui Pato - no Fórum Lisboa, em 16 ou 17 de Novembro, conforme a disponibilidade da sala solicitada à Câmara de Lisboa.
O livro, sem data de saída, será coordenado pelo vogal da direção da Associação José Afonso, presente na conferência de imprensa, João Madeira, investigador do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, e por Susana Martins, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.
Além destas iniciativas, Francisco Fanhais admitiu a hipótese de a programação das comemorações do 90.º aniversário de nascimento de José Afonso e do 45.º aniversário do 25 de Abril de 1974 vir a “ser ampliada” ao longo deste ano, sobretudo a alguns núcleos onde a Associação José Afonso está implantada.
Em território português, a Associação José Afonso conta com 14 núcleos, a que acresce um em Bruxelas, e outro na Galiza, em Burgo das Nações, Santiago de Compostela, onde, em 10 de Maio de 1972, José Afonso cantou, pela primeira vez, em público, “Grândola, Vila Morena”, a canção que, em 1974, viria a torar-se na “segunda senha” do Movimento dos Capitães.
A Associação José Afonso é uma associação cultural e cívica, formada em torno da memória e do exemplo de José Afonso, que foi apresentada publicamente em 18 de Novembro de 1987.

Mais de 40 lugares inventariados para roteiro de Zeca Afonso
Mais de 40 locais “icónicos” a que José Afonso esteve ligado, na cidade de Setúbal, estão inventariados para a elaboração do roteiro “Os Lugares do Zeca na Geografia da Cidade”, disse o autor da obra.
Para João Madeira, um dos vogais da Associação José Afonso, o roteiro “é, porventura, a iniciativa mais importante das [comemorações], porque suscetível de deixar um lastro material mais evidente”.
É também o projeto que a associação gostaria de ver concluído até 2 de Agosto próximo, quando José Afonso faria 90 anos.
Entre os locais já inventariados para o roteiro estão o então Liceu Nacional de Setúbal, para onde José Afonso foi nomeado como professor, em 1967, e onde lecionou apenas durante um período, tendo sido depois expulso face à “influência das elites locais e da imprensa do regime”, referiu Albérico Afonso, doutorado em História Contemporânea, nascido em Setúbal e professor da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Setúbal .
Há mesmo um documento das forças da ditadura, no qual se refere que o “doutor José Afonso é uma figura da máxima inconveniência, notório colaborador da traição à pátria, no abandono das nossas províncias ultramarinas, na destruição moral dos combatentes”, sublinhou o investigador, acrescentando, a propósito, que “o resto foi feito pelos pais de alguns alunos e alunas que consideravam o Zeca uma figura prejudicial, como professor dos seus filhos”.
As primeiras instalações, na avenida 5 de Outubro, do Círculo Cultural de Setúbal, de que José Afonso foi um dos fundadores, em 1969, e que teve uma “importância muito grande na cidade de Setúbal”, pois era “uma espécie de espaço frentista de oposição à ditadura”, é, segundo Albérico Afonso, outro dos locais inventariados.
“O Zeca era uma referência para todos os jovens que aí estavam”, pois o Círculo Cultural – que em 1975 viria a funcionar no edifício onde entretanto se erigiu a Casa da Cultura de Setúbal – formava jovens sem acesso ao ensino básico e preparatório, e onde ensinava “português, francês, inglês, todas as disciplinas”, frisou o investigador.
O edifício onde funcionaram o departamento e os calabouços da polícia política da ditadura - a Polícia Internacional de Defesa do Estado e Direção Geral de Segurança (PIDE/DGS) -, no Bairro Salgado, onde José Afonso esteve detido várias vezes, o Clube Naval, onde o cantor foi um dos oradores no primeiro comício do 1.º de Maio de 1974, são outros locais já inventariados, disse o investigador à agência Lusa.
O primeiro comício do Partido Popular Democrático (PPD) em Setúbal, também foi realizado no Clube Naval, em 7 de Março de 1975, tendo culminado em confrontos, dando origem à canção de José Afonso “Foi na cidade do Sado”.
O Clube de Campismo é outro local referenciado. Organismo ligado ao PCP, acolheu o primeiro concerto de José Afonso na cidade, em 1968. Neste concerto compareceu também o jovem ator Mário Viegas, que veio de Santarém, de propósito para assistir e dizer poesia, observou Albérico Afonso.
O roteiro incluirá também espaços menos formais, como tascas, o extinto café Tamar, na avenida 5 de Outubro, e o ainda existente café Benjamim, que estão “para sempre ligados a José Afonso", referiu o historiador.
Além da edição do roteiro em livro, que incluirá georreferenciação e, possivelmente, 'QR codes', para informações adicionais, no futuro toda esta informação poderá vir a ser disponibilizada numa 'app', para dispositivos móveis, acrescentou o investigador, sublinhando que estas possibilidades estão a ser estudadas no Politécnico de Setúbal.
José Afonso Cerqueira dos Santos nasceu em 2 de Agosto de 1929, em Aveiro, e morreu em Setúbal, em 23 de Fevereiro de 1987, vítima de esclerose lateral amiotrófica.

Agência de Notícias com Lusa 

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