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quarta-feira, 30 de julho de 2014

Médicos denunciam situações graves no Hospital de Almada

Diretores de serviço do Garcia de Orta apontam carências graves no funcionamento do hospital  

Mais de 40 diretores de serviço do Hospital Garcia de Orta, em Almada, subscreveram um documento que revela situações graves na instituição, como o adiamento de cirurgias, consultas e exames por falta de profissionais e equipamentos ultrapassados. Os clínicos dizem que as saídas de muitos médicos e enfermeiros "afetará gravemente a prossecução da missão do hospital e da sua atividade assistencial". Outra preocupação destes chefes de serviço prende-se com o estado dos equipamentos médicos, "em muitos casos completamente obsolescentes e com necessidade de substituição ou modernização urgente", garantem os responsáveis médicos do maior hospital do distrito de Setúbal. Porém, o Conselho de Administração do Hospital diz que as "situações ou problemas graves não correspondem à realidade" da instituição, causando "alarmismo desnecessário".
Diretores clínicos do Garcia da Orta temem funcionamento do hospital

O documento foi é subscrito por 42 diretores, que representam a Comissão Médica do Hospital Garcia de Orta, e foi enviado para o Ministério da Saúde, a Ordem dos Médicos, grupos parlamentares da Assembleia da República, entre outros, divulgou a Lusa.
Um dos subscritores do documento, que não quis ser identificado, revelou as suas apreensões, considerando que a qualidade do serviço está ameaçada.
Este médico, e diretor de serviço, adiantou que a falta de pessoal já levou à paralisação de blocos operatórios, nomeadamente por carência de especialistas.
O médico lamentou que o Hospital Garcia de Orta, que atende toda a região do sul de Portugal, não seja tratado da mesma forma do que outros hospitais em Lisboa, reconhecendo que a instituição não tem a mesma força do que o Hospital de São João, no Porto, cujas reivindicações - algumas das quais comuns aos dois hospitais - foram cumpridas após ameaça de demissão dos diretores de serviço.
O médico disse ainda que, para já, não está decidida uma demissão em bloco, mas garante que estão a ser ponderadas medidas mais duras.
No documento que seguiu para Paulo Macedo, a que a Lusa teve acesso, os médicos referem que "a saída de muitos médicos e enfermeiros do hospital, o impedimento da ação gestionária do Conselho de Administração e das estruturas intermédias de gestão do hospital, por via da centralização administrativa, no que concerne a políticas de recursos humanos e compras, afetará gravemente a prossecução da missão do Hospital Garcia de Orta e da sua atividade assistencial".

Equipamentos obsoletos 
Saída de enfermeiros e médicos são uma das preocupações 
Ainda segundo os promotores do documento, "não nos assiste outro objetivo se não o de chamar a atenção aos órgãos da tutela, para a degradação, em termos de recursos humanos, que esta unidade hospitalar, mercê de causas internas e externas, tem vindo a sofrer, na esperança de que da análise do mesmo resultem recomendações que possam contribuir, para a melhoria da equidade e acesso a cuidados de saúde com qualidade no nosso hospital em particular e na Península de Setúbal, em geral", diz a Comissão.
Outra preocupação destes chefes de serviço - entre os quais a ex-ministra da Saúde Ana Jorge - prende-se com o estado dos equipamentos médicos, "em muitos casos completamente obsolescentes e com necessidade de substituição ou modernização urgente".
"Existem casos gritantes, como o da pediatria médica, com incubadoras, ventiladores mecânicos e monitores com 20 anos de uso, que pese embora ainda funcionantes, têm taxas de operacionalidade que comprometem a qualidade dos cuidados prestados", refere a comissão no documento.
Também nos cuidados intensivos de adultos há dificuldades, com "camas de 20 anos de uso, completamente inadequadas às necessidades atuais daquele tipo de doentes em termos de posicionamento ideal, não só pondo em causa a qualidade de assistência prestada como condicionando igualmente um elevado índice de lesões músculo-esqueléticas dos seus profissionais de enfermagem e assistentes operacionais", concluem os 42 diretores clínicos do principal hospital do Distrito de Setúbal, o Garcia da Orta.

"Alarmismo desnecessário" diz administração 
Depois da divulgação destas denúncias,  o Conselho de Administração do Hospital Garcia de Orta diz, em comunicado enviado à agência Lusa, que as "situações ou problemas graves não correspondem à realidade" da instituição, causando "alarmismo desnecessário".
A administração refere também que o hospital de Almada, "mercê de todo o esforço dos profissionais, fez
um grande esforço nos últimos anos para melhorar a eficiência e a qualidade". Sublinhou ainda que "o sistema de qualidade foi reconhecido internacionalmente" e acentuou que a "eficiência passou de uma situação deficitária para uma situação de 'superavit'".
Ainda de acordo com a administração do Garcia de Orta, "com a ajuda do Ministério da Saúde foi já possível amortizar a maior parte da dívida acumulada e encurtar os prazos de pagamento", lê-se na nota enviada à imprensa, acrescentando a administração do hospital que se está a "encontrar algumas soluções para resolver os problemas ao nível dos recursos humanos".
"Devido à limitação dos recursos públicos, não temos conseguido que a atividade do Hospital seja totalmente financiada, o que se traduz de facto em algumas dificuldades, designadamente, ao nível da renovação e manutenção das infraestruturas e do parque tecnológico, mas estamos com o Ministério da Saúde a tentar encontrar soluções", conclui  o Conselho de Administração.

Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo "atenta à situação"
No entanto, a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT) deixa uma “palavra de tranquilização” depois de 42 diretores de serviço terem denunciado situações graves no hospital.
Estão asseguradas "todas as condições" que permitem ao Hospital Garcia de Orta, em Almada, manter "os cuidados adequados à população", garante a Administração Regional de Saúde.
É feito um apelo a todos os profissionais de saúde para que "dêem o melhor de si, de forma a assegurar a melhor resposta aos seus utentes", no contexto particularmente complexo que o país atravessa. A ARSLVT adianta ainda que vai continuar a acompanhar a situação dos hospitais da região de Lisboa e Vale do Tejo, "em articulação com os respectivos conselhos de administração".

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