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quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Nós e as Cidades por Miguel Macedo


Em democracia faz sentido sitiar o parlamento?


Já li esta “reclamação” escrita por alguém sensato, mas não me lembro nem quem a escreveu, nem em que jornal, e por isso peço desculpa ao verdadeiro autor, mas a verdade é que faço minhas as suas palavras: é deprimente ver a Assembleia da República (AR) rodeada de grades de protecção dia após dia. As grades que inicialmente eram colocadas para a hora de uma manifestação foram-se tornando permanentes, alastrando da escadaria principal tanto para o lado da rua D. Carlos I, como na direcção do Rato, tornando impossível passar, mesmo a pé, pela rua fronteira à Assembleia, dando-lhe além do mais um ar de acantonamento provisório.

É deprimente ver sitiado um dos nossos principais órgãos de soberania, a sede objectiva de um regime democrático que tanto trabalho deu a conquistar. Os deputados que ali trabalham são os representantes eleitos da Nação, cuja legitimidade não pode ser corrida à pedrada, mas apenas a votos. Votos expressos através de eleições livres, de que só há pouco mais de 30 anos nos podemos orgulhar. Além do mais a AR é um órgão legislativo, o que torna ainda mais absurdo que à sua porta se proteste contra medidas de um Governo, de um Ministério, ou de uma troika. Escolher a AR, como tem sido feito nos últimos tempos, para exprimir o descontentamento contra Passos Coelho é não só descabido, como um insulto a cada um de nós. Mais grave ainda de tudo isto quando o local é determinado por forças políticas que têm assento lá dentro, ou seja, que pelos vistos aceitam ser eleitas para instituições em que não acreditam, nem respeitam.
As manifestações em S. Bento, não tendo por alvo uma medida legislativa concreta, parecem ter-se intensificado. Desconfio que a razão objectiva se prende com o facto de o espaço ao fundo da escadaria ser apertado, e poucos parecerem facilmente muitos, sobretudo nos ecrãs da televisão ou nas páginas dos jornais. Provavelmente a mesma concentração ficaria a “nadar” no Terreiro do Paço, mas seja qual for a razão era importante que a própria AR recusasse o cerco permanente.
Os tempos que se avizinham são cruelmente difíceis, e em todas as casas vai haver gente com vontade de atirar pedras. E adolescentes e jovens frustrados e atentos aos comentários dos adultos. Um Portugal democrático é o resultado de um esforço imenso, e o maior bem a preservar, por isso temos de tirar o “glamour” a estes comportamentos, deixando claro que a violência não é admissível, que a capacidade de protestar sem atentar contra os outros é um sinal de maturidade e não de fraqueza, de que atacar a polícia, ainda para mais de cara tapada, é um crime cobarde. E cabe-nos falar-lhes das consequências: pela minha parte impunha aos culpados que reconstruíssem a calçada portuguesa destruídas permanentemente por quem gosta de atirar pedras à polícia. Ou esperam que a paguemos todos, com dinheiro alemão e a juros?


Miguel Macedo
Estudante de Arquitectura
Montijo 

(Nós e as Cidades é uma rubrica sobre urbanismo, reflexões,  mobilidade e bem-estar, que será publicado à quarta-feira  no ADN)

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