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quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Há dias que começam pelo fim por Carla Marques


A senhora que cheirava a malmequer 

Adélia viu o mar pela primeira vez já a sua filha se tinha casado e partido com o marido para uma casa na grande cidade. Primeiro assustou-se com aquela imensidão de água cujo fim a sua vista cansada não conseguia encontrar. Era fria como a água da nascente da sua aldeia, mas não tão transparente e…era salgada! Como se todos os quilos de sal aí tivessem sido derramados! Na realidade isso é que lhe causava uma grande estranheza, ainda mais do que a areia que se metia entre a abertura dos seus dedos gretados.


Como é que conseguiram salgar tanta água? Perguntava-se enquanto o olhar fugia para uma linha do horizonte onde os barcos pareciam pequenos bonecos de plástico.
Pensava no seu Manel, o seu homem, aquele com quem se fez mulher e que lhe deu a sua vida até que a morte o levou. Estaria ele para lá daquela linha de água?
Como se sabe onde estão os nossos mortos quando ainda vivem dentro de nós, quando ainda escrevem palavras rudes mas cheias de carinho nos nossos corações?
Adélia sabia que as mãos calejadas do seu Manel já não estavam ali, já não eram a certeza ou a esperança que ela tantas vezes precisava, no entanto ainda as sentia, num afago mudo que só ele lhe sabia dar.
Agora era o mar e esse silêncio. Agora era o mar e essas incertezas de como seriam os seus dias…tão longos e com tantas lágrimas salgadas!
Viu o mar três vezes em toda a sua vida. Depois a filha mudou-se e ela foi atrás. Não queria. O seu espaço não era aquele, o seu mundo era muito mais pequeno, mais centrado nas pessoas com quem viveu uma vida. Depois os convites para ir a casa da filha deixaram de chegar, ela deixou de aparecer e Adélia foi-se fechando em casa, fechando a porta da sua vida.
Primeiro os poucos vizinhos com quem falava estranharam e batiam à porta perguntando pela sua saúde, depois a preocupação foi-se esbatendo e o velho batente acalmou, até que um dia se esqueceram dela e os dias que se seguiram foram também de esquecimento.
Adélia não se importava. Os afetos foram secando dentro de si e os sorrisos eram apenas lembranças longínquas.
Conheceu a solidão sentada no velho banco de madeira e com ela falou até as lágrimas secarem. Nunca foi mulher de chorar, mas agora … agora eram companhia e confissão, dor e companhia de dias vazios.
Havia nas paredes uma incerteza pintada a negro, uma incógnita que cheirava a medo e lhe congelava o olhar vago. Eram essas mesmas paredes que a abrigavam e lhe tiravam o ar. Adélia não pensava com palavras caras, pensava sim com o coração e esse ia ficando pequenino com as ausências de uma vida. fome de afetos, forme de gente com caras conhecidas e depois…a fome que mata, o dinheiro contado ao final do mês para o pão que a mesa pedia.
Procurava outros olhares que não o das paredes vazias e encontrou o calendário amarelecido por um tempo que não se lembrava de ter vivido e perguntou-se há quanto tempo não fazia anos!
Nessa perda de identidade em que mergulhava, os dias eram pouco mais do que horas por viver e Adélia era pouco mais do que o ar que consumia.
Um dia… encontraram-na deitada na cama com a foto do seu Manel colada ao peito. O sorriso nos lábios apagava toda a dor de ser só num mundo tão cheio de gente.
Cheirava a malquereres e esse amarelo era a única vida daquele quarto sombrio!




Carla Marques 
Porto
Jornalista

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