"Mão livre para o corrimão": nova regra divide agentes da PSP de Setúbal

Telemóveis e corridas proibidos nas escadas. Associação sindical compara a "prescrições escolares"

No edifício da PSP de Setúbal, subir umas escadas já não é apenas uma questão de chegar ao andar seguinte. É preciso levar uma mão livre, agarrar o corrimão, esquecer o telemóvel, guardar os documentos e, sobretudo, não tentar ganhar tempo saltando degraus. A ordem está escrita e já entrou em vigor. Pode parecer insólita, mas nasceu de um problema bem real: as escadas do Comando Distrital têm sido palco de quedas e outros acidentes, levando o comandante, a apertar as regras de segurança.
Na PSP de Setúbal, até as escadas têm regras. Sindicato critica medida

A medida foi emitida pelo comandante da PSP de Setúbal, depois de um número elevado de quedas e outros incidentes registados nas escadas das instalações policiais. A Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP/PSP), porém, considera a determinação excessiva e compara-a a "prescrições escolares".
O documento é bastante concreto: ao utilizar as escadas, os polícias devem manter uma mão disponível para se apoiarem no corrimão. Está também proibido o uso de telemóveis ou a leitura de documentos durante a subida ou descida, bem como correr ou saltar degraus.
À primeira vista, pode parecer uma lista de regras básicas para qualquer pessoa que use umas escadas. Mas, para a PSP de Setúbal, a questão ganhou outra dimensão depois dos acidentes registados e dos números globais de sinistralidade na polícia.

Uma mão no corrimão, outra para o que for preciso
A ordem enquadra-se nas medidas de "higiene e segurança no trabalho" e tem como objetivo prevenir acidentes em serviço, segundo o responsável pelo comando setubalense.
A preocupação não é meramente teórica. No ano passado, a PSP registou 1580 processos relacionados com acidentes em serviço, um número que serve de enquadramento para a adoção de medidas preventivas dentro das instalações policiais.
No Comando de Setúbal, a orientação já está em vigor. O seu incumprimento, por si só, não implica a abertura de um processo disciplinar. No entanto, a situação poderá ser considerada negligência grosseira caso um agente sofra um acidente relacionado com o desrespeito pelas regras.
É precisamente aqui que uma simples escada deixa de ser apenas uma escada. Para o comando, cada degrau pode representar uma oportunidade de evitar mais um acidente. Para alguns agentes, a resposta parece ir longe demais na tentativa de prevenir aquilo que deveria ser um comportamento elementar.

O estranho caso das escadas do comando
A determinação tem, por isso, um lado quase insólito. Não se trata de ensinar polícias a andar, mas de estabelecer por escrito aquilo que normalmente acontece de forma automática: subir, descer e usar o corrimão.
Só que, entre chamadas, documentos, telemóveis e a própria dinâmica do trabalho policial, o comando entende que até esses gestos quotidianos devem ser enquadrados numa política de prevenção. A proibição de correr ou saltar degraus junta-se à obrigação de manter uma mão livre para o corrimão e à interdição de utilizar o telemóvel ou ler documentos enquanto se circula nas escadas.
A ASPP/PSP contesta a opção e questiona o alcance destas regras. O comando, por seu lado, mantém a justificação: reduzir o risco de acidentes que têm sido comuns em Setúbal. 

Segurança antes do próximo degrau
O debate acaba por colocar frente a frente duas perspetivas diferentes sobre a mesma situação. De um lado, a organização sindical, que vê na ordem um excesso de regulamentação sobre comportamentos básicos. Do outro, o comando, que parte de acidentes concretos e de uma realidade de sinistralidade para defender medidas preventivas.
No meio está uma escada, aparentemente banal, que se tornou suficientemente problemática para merecer uma ordem escrita. E, a partir de agora, no Comando Distrital de Setúbal, há uma regra que todos os agentes conhecem antes de chegar ao próximo degrau: uma mão pode estar ocupada com o trabalho, mas a outra deve ficar livre para o corrimão.

Agência de Notícias 
Fotografia: Paulo Jorge Oliveira 

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