Ana Guerreiro: a mulher que fez do teatro uma casa e de Pinhal Novo uma família

Quatro décadas depois, continua a abrir a mesma porta. Do outro lado, continuam a nascer sonhos

"Ele estaria orgulhosíssimo da sua Xana." É assim que Ana Guerreiro acredita que Rui a olharia hoje, usando o nome carinhoso com que sempre a tratou. Há mais de quatro décadas, deixou Trás-os-Montes para seguir o homem com quem partilharia a vida, os sonhos e uma paixão absoluta pelo teatro. O que não imaginava era que acabaria também por encontrar uma segunda casa no Pinhal Novo e que, lado a lado com Rui, ajudaria a escrever uma das mais marcantes histórias da vida cultural da nossa terra. Nesta edição da Gente da Nossa Terra, conhecemos a mulher que fez do ATA muito mais do que uma companhia de teatro: um lugar onde gerações cresceram, amizades nasceram e a cultura se tornou uma forma de cuidar das pessoas.
Ana, a mulher que nunca deixou cair o pano

Quem hoje a vê à frente da Ação Teatral Artimanha - o ATA -  poderá pensar que esta história começou no Pinhal Novo. Mas começou muito antes, entre as montanhas de Trás-os-Montes. Foi em Bragança que descobriu, ainda muito jovem, que havia qualquer coisa de mágico naquele instante em que as luzes se apagam e o pano se abre.
O teatro entrou-lhe na vida cedo. Não como um passatempo, mas como um lugar onde se sentia verdadeiramente inteira. Mais tarde, o trabalho levou-a para Coimbra. Não imaginava que essa mudança lhe traria muito mais do que um novo emprego.
Trouxe-lhe Rui e foi através dele que chegou ao Pinhal Novo. 
"Quando conheci o Rui. Eu conheci o Rui no local de trabalho e foi a partir daí que ele me disse que fazia parte de um grupo de teatro. Eu já fazia teatro em Bragança e, quando descobri que ele também vivia esta paixão, foi a cereja no topo do bolo".
Há histórias de amor que começam num acaso qualquer. A deles nasceu porque ambos partilhavam a mesma paixão. Um palco aproximou-os. E, sem o saberem, essa paixão acabaria por transformar também uma comunidade inteira.

Uma terra que se aprende a amar
Quando chegou ao Pinhal Novo, encontrou uma vila muito diferente da atual. As ruas eram mais silenciosas, a vida acontecia devagar e o seu mundo resumia-se praticamente ao trabalho e aos ensaios.
Conhecia poucas pessoas.
"Eu quando aqui cheguei conhecia praticamente só as pessoas do teatro. Todo este núcleo que circulava aqui à volta do teatro. Não conhecia praticamente mais ninguém".
Foi o teatro que lhe apresentou a terra. Com o passar do tempo, percebeu que uma associação cultural faz muito mais do que produzir espetáculos. Aproxima pessoas que nunca se cruzariam, cria amizades improváveis e transforma desconhecidos em família.
Foi exatamente isso que lhe aconteceu.
"Foi o teatro, foi a família e depois as pessoas que uma associação nos dá o acesso a elas. Fazer parte de uma associação é realmente muito bom porque conhecemos pessoas de todas as áreas. Acabamos por construir uma família".
É curioso ouvi-la falar do Pinhal Novo. Nunca tenta romantizar a terra onde vive. Pelo contrário. Sorri quando brinca com a aparência da vila.
"Eu digo muitas vezes, a brincar, que Pinhal Novo é uma localidade feia. Mas gosto muito de morar aqui. Estamos perto de tudo e, de certa forma, longe de tudo".
A frase arranca um sorriso, mas revela muito da relação que construiu com esta terra e com as gentes da nossa terra. Porque o verdadeiro encanto de uma terra nunca está apenas nas ruas ou nos edifícios. Está nas pessoas que lhes dão vida.
O amor raramente nasce da perfeição. Nasce da convivência, das memórias e das pessoas que dão significado aos lugares. Ana apaixonou-se pelo Pinhal Novo dessa forma. Devagar. Sem alarido. E para sempre.

A casa onde o teatro ganha vida
ATA, onde o teatro se tornou casa permanente 
Quando Ana Guerreiro fala da Ação Teatral Artimanha, percebe-se rapidamente que nunca a viu apenas como uma associação. Fundada em 1980, a companhia tornou-se uma referência cultural no concelho de Palmela, levando ao palco dezenas de produções, formando sucessivas gerações de atores e criando um espaço onde o teatro sempre foi muito mais do que representação. Ao longo de mais de quatro décadas, passaram pelo ATA clássicos como Sonho de uma Noite de Verão, Dom Quixote, O Pranto de Maria Parda ou Eu, Tu, Nós, Vós, Eles, mas também muitos projetos originais que ajudaram a aproximar o público da cultura e a afirmar o nome do Pinhal Novo no panorama do teatro amador.
Para Ana, porém, o verdadeiro património da Artimanha nunca esteve apenas nas peças que apresentou, mas nas pessoas que ajudou a formar. "Foi o teatro, foi a família e depois as pessoas que uma associação nos dá a conhecer. Fazer parte de uma associação é realmente muito bom porque conhecemos pessoas de todas as áreas e acabamos por construir uma família". É essa ideia de família que atravessa toda a história da companhia e que explica porque tantos continuam a regressar àquela sala, muitos anos depois de terem subido ao palco pela primeira vez.
Quem olha apenas para o resultado final vê um palco iluminado e uma plateia que aplaude. Mas quem conhece o teatro sabe que a verdadeira história acontece muito antes de a cortina abrir.
Acontece nos ensaios que se prolongam pela noite dentro. Nas dúvidas sobre um texto. Nas gargalhadas inesperadas. Nos improvisos que acabam por resultar melhor do que aquilo que estava escrito. E, sobretudo, na confiança que se constrói entre pessoas que aprendem a depender umas das outras.
É esse lado invisível que Ana guarda com maior carinho.
Nunca olhou para o teatro como um lugar onde alguém sobe ao palco para brilhar sozinho. Sempre acreditou que um espetáculo só existe quando todos caminham na mesma direção.
Os aplausos pertencem aos atores. Mas também a quem monta cenários, cose figurinos, controla as luzes, trata do som ou chega mais cedo para abrir as portas da sala. Foi essa forma de estar que moldou a identidade do ATA.
Ao longo dos anos passaram por ali centenas de pessoas. Algumas fizeram do teatro profissão. Outras seguiram caminhos completamente diferentes. Mas todas levaram consigo alguma coisa daquele palco.
Umas venceram a timidez. Outras aprenderam a falar em público. Muitas encontraram amigos para a vida. Houve até quem encontrasse uma nova família.
"Continuamos a ensinar teatro aos pequeninos, aos adolescentes e aos adultos. Estamos sempre a inovar e acho que o grupo trabalha e recomenda-se".

Uma porta sempre aberta
Enquanto fala da Artimanha, percebe-se rapidamente que não está a descrever apenas uma associação.
Fala de uma casa. Uma casa onde há sempre lugar para mais alguém.
Ao longo dos anos viu entrar crianças inseguras que hoje são adultos, adolescentes que venceram o medo de falar em público e famílias inteiras que acabaram por encontrar no teatro um ponto de encontro.
É por isso que continua a acreditar que vale a pena manter a porta aberta, mesmo num tempo em que os ecrãs parecem disputar a atenção dos mais novos.
Não fala disso com nostalgia, nem com a ideia de que "antigamente é que era melhor". Prefere olhar para cada geração como ela é.
Quando lhe perguntam se é difícil trabalhar com adolescentes, sorri.
"São gerações diferentes, como todas foram. Nós também fomos complicados para os nossos pais. Faz parte de crescer". 
A resposta diz muito sobre a forma como olha para as pessoas. Em vez de comparar gerações, procura compreendê-las. Em vez de lamentar o que mudou, adapta-se.
Talvez seja essa uma das razões pelas quais tantos jovens continuam a encontrar na Artimanha um lugar onde se sentem verdadeiramente acolhidos.

Mais do que ensinar teatro
Ao ouvi-la, torna-se evidente que o teatro nunca foi apenas o objetivo. Foi sempre o caminho.
O palco ensinou técnicas de representação, mas ensinou também a ouvir, a confiar, a trabalhar em equipa e a respeitar o tempo dos outros.
São aprendizagens que dificilmente cabem num guião, mas que acabam por acompanhar quem por ali passa muito depois de as luzes se apagarem.
É talvez esse o maior legado da Artimanha. Não apenas os espetáculos que apresentou ao longo de mais de quarenta anos, mas as pessoas que ajudou a formar. Porque há aplausos que duram apenas alguns minutos. E há encontros que ficam para uma vida inteira.

Rui, o homem que vivia para o teatro
Chegou ao Pinhal Novo há mais de 40 anos atrás do grande amor
Há um nome que surge inevitavelmente sempre que se fala da vida de Ana Guerreiro: Rui Guerreiro.
É impossível contar a história de um sem falar do outro. Durante décadas caminharam lado a lado, partilharam sonhos, preocupações e uma dedicação quase absoluta ao teatro. Quem os conheceu recorda um casal profundamente ligado à vida cultural do Pinhal Novo, ainda que cada um tivesse a sua forma muito própria de viver essa paixão.
Ana nunca idealiza o homem com quem partilhou a vida. Pelo contrário. Recorda-o com uma honestidade desarmante, porque sabe que os grandes amores também se constroem nas diferenças.
"Às vezes era muito complicado. O Rui vivia para isto. Trabalhava por turnos, mas nunca faltou a uma estreia do grupo. Enquanto, às vezes, familiarmente, não estava tão presente quanto isso e eu exaltava-me muito. Hoje percebo lindamente".
Há uma serenidade especial na forma como fala dessas discussões. O tempo não apagou as memórias; mudou-lhes a perspetiva.
Aquilo que um dia foi motivo de impaciência tornou-se parte da história que hoje guarda com ternura. Não esconde os defeitos de Rui. Humaniza-o. E é precisamente isso que o torna ainda mais próximo de quem lê.

O reconhecimento que chegou... 
A conversa acaba, inevitavelmente, por chegar ao reconhecimento público do trabalho desenvolvido por Rui Guerreiro.
Ana não fala com revolta. Fala com a tranquilidade de quem gostaria apenas que aprendêssemos a agradecer em vida.
"Em Portugal temos muito o hábito de só valorizarmos as pessoas quando morrem. As pessoas têm defeitos, têm valores, mas parece que só depois passam a ser as melhores do mundo". É difícil não ficar alguns segundos a pensar nesta frase.
Quantas pessoas dedicam uma vida inteira à comunidade e só recebem o verdadeiro reconhecimento quando já cá não estão para o ouvir? No caso de Rui Guerreiro, a homenagem chegou.
O Auditório Municipal passou a ostentar o seu nome, perpetuando a memória de quem ajudou a construir uma parte importante da identidade cultural do Pinhal Novo.
Quando fala desse momento, o sorriso mistura-se com a saudade. "Quando vejo ali Rui Guerreiro sinto uma espécie de orgulho. Penso: ele foi o meu homem. Mistura-se a saudade com a felicidade de ver reconhecido aquilo que ele fez".
Há uma expressão que fica a ecoar muito depois de a frase terminar. "Foi o meu homem". Não diz "o meu marido". Não diz "o meu companheiro". Diz "o meu homem". Duas palavras onde cabem uma vida inteira.

Uma vida construída a dois
Ao longo da conversa, percebe-se que Rui está presente muito para além das recordações.
Está na forma como Ana fala do ATA.  Na maneira como continua a defender o teatro. Na exigência com que olha para cada espetáculo. Durante décadas, construíram muito mais do que uma companhia de teatro. Construíram um lugar onde centenas de pessoas encontraram amigos, confiança e sentido de pertença.É por isso que, mesmo quando Rui deixa de estar fisicamente presente na narrativa, nunca desaparece verdadeiramente da história.
Continua em cada ensaio. Em cada estreia. Em cada jovem que sobe ao palco pela primeira vez. Porque há pessoas cuja maior obra nunca foi aquilo que fizeram. Foi aquilo que deixaram nos outros. 

Continuar quando o coração fica para trás
O Cabaret Gato Preto, em plena pandemia, foi um dos grandes desafios 
Há perguntas para as quais não existe uma resposta. Quando a conversa chega ao dia em que Rui Guerreiro partiu, Ana responde da única forma que consegue.
"Não sei". 
Duas palavras. E, talvez, nenhuma outra pudesse explicar melhor o que se sente quando a vida muda para sempre.
Durante décadas caminharam lado a lado. Partilharam projetos, estreias, preocupações, viagens, discussões e vitórias. Construíram uma família, mas construíram também uma casa chamada Artimanha, onde ambos deixaram uma marca que dificilmente desaparecerá.
Quando Rui morreu, em 2020, Ana perdeu o homem da sua vida. Perdeu também o companheiro de palco, o cúmplice de todas as decisões e uma presença inseparável da história do ATA e da vila do Pinhal Novo. 
Muitas pessoas teriam fechado a porta. Ela fez precisamente o contrário. Voltou no 'dia seguinte'. Voltou a abrir o Artimanha. Voltou a receber crianças, jovens e adultos. E continuou a cuidar do sonho que os dois ajudaram a construir. E foi assim que em plena pandemia nasceu Sonho de uma noite de verão e, um ano depois, o Cabaret, o Gato Preto. Duas das maiores produções do ATA. 

A força da memória
Quando lhe perguntam onde encontrou forças para continuar, não procura parecer corajosa.
"Não sei onde encontrei força. Acho que foi na memória dele. O querer preservar a memória dele. O querer preservar isto que ele ajudou a construir com tantas outras pessoas. Foi muito complicado".
Não há heroísmo nesta resposta. Há amor. E um profundo sentido de responsabilidade para com aquilo que construíram juntos.
Ao ouvi-la, percebe-se que nunca encarou a continuidade da Artimanha como uma missão individual. Continuou porque aquele projeto já não lhes pertencia apenas aos dois. Pertencia a todos os que, ao longo de décadas, lhe deram vida.

Há dores que não passam
Vivemos rodeados de frases feitas sobre o luto. Talvez por isso, uma das respostas mais marcantes de toda a conversa surja com uma simplicidade desarmante.
"Quando nos dizem que o tempo cura tudo... não. O tempo não cura tudo. O tempo ajuda a amenizar as coisas e ajuda a aceitar. E nós vamos andando. É dia a dia".
É impossível não reconhecer alguma verdade nestas palavras. Ana não fala de superação. Não diz que venceu a dor. Não procura ensinar ninguém a viver com a ausência. Limita-se a partilhar aquilo que aprendeu. A saudade não desaparece. Aprende-se apenas a caminhar ao lado dela.

Uma presença que permanece
Hoje, sempre que entra no Auditório Municipal Rui Guerreiro, entra também num lugar onde as memórias continuam vivas.
O palco é o mesmo. As cadeiras continuam voltadas para a mesma direção. Mas há uma voz que já não se ouve no final dos espetáculos. Durante muitos anos era Rui quem reunia o grupo para analisar cada apresentação. Havia quem brincasse com essas conversas demoradas. Todos sabiam que, depois de cada estreia, vinha "mais uma seca do Rui".
Hoje, Ana sorri ao recordar esses momentos. "Hoje dizemos isso com saudade. Era uma coisa ternurenta. Era o Rui a ser o Rui". 
Há memórias que só o tempo sabe transformar. Aquilo que um dia parecia uma pequena maçada tornou-se uma das maiores saudades. Quando levanta os olhos para o nome de Rui na fachada do auditório, dois sentimentos cruzam-se inevitavelmente. O orgulho. E a saudade.
"Quando vejo ali [nome do auditório] Rui Guerreiro sinto assim uma espécie de... porra... ele era o meu homem. Sobretudo quando fazemos lá peças lembro-me das conversas, das críticas que fazia no fim dos espetáculos e penso muitas vezes que toda a gente sente saudades disso".
Talvez seja essa a verdadeira medida de uma vida. Permanecer na memória daqueles que continuam a caminhar connosco, mesmo depois da despedida. E agora é de todos nós. É memória coletiva. 

Uma mulher que nunca deixou de aprender
A vontade de sonhar e de aprender novas coisas é permanente 
Ao longo desta conversa falou muitas vezes de Rui, do ATA e da comunidade. Falou dos amigos, dos livros, dos jovens e das pequenas alegrias que continuam a fazê-la sorrir.
Ao longo da conversa, percebe-se que Ana Guerreiro é daquelas pessoas que encontram felicidade nas coisas simples. Gosta de ler, de caminhar, de estar com os amigos e, sobretudo, de continuar a aprender. "Quando aprendo uma coisa nova fico mesmo feliz. Acho que estamos em constante aprendizagem e ninguém sabe tudo". Talvez seja essa curiosidade permanente que explique a forma como continua a abraçar novos desafios e a olhar para cada geração sem preconceitos, procurando sempre compreender antes de julgar.
Também não esconde aquilo que mais a inquieta. "O que me faz perder mesmo o juízo é ver uma grande injustiça ou a falta de civismo. Isso revolta-me profundamente". São palavras que ajudam a perceber a mulher para lá dos palcos: alguém que acredita no respeito, na responsabilidade e no cuidado pelos outros. A mesma mulher que, quando lhe perguntam que sonhos ainda guarda, responde sem hesitar: "Todos. Sonhar faz parte da vida. Se deixarmos de sonhar, a vida deixa de valer a pena".
Curiosamente, falou muito pouco de si. E talvez isso diga mais sobre a sua personalidade do que qualquer elogio. Ana parece medi-la de outra forma. Há pessoas que medem uma vida pelos cargos que ocuparam, pelos prémios que receberam ou pelas homenagens que colecionaram. E pela certeza de que a cultura continua a ser um dos mais poderosos lugares de encontro entre seres humanos.
 
Uma casa onde as luzes nunca se apagam
Ao sair do Artimanha, a sensação que fica não é a de ter visitado uma associação cultural.
É a de ter entrado numa casa. Uma casa onde as gargalhadas dos ensaios parecem ficar presas às paredes, onde continuam a nascer novos projetos e onde cada pessoa que entra acrescenta mais um capítulo a uma história escrita ao longo de mais de quarenta anos. Enquanto nos despedimos, Ana regressa naturalmente ao trabalho. 
Há sempre alguém para receber. Um ensaio para preparar. Um texto para discutir. Uma estreia para imaginar. Não procura protagonismo. Limita-se a fazer aquilo que fez durante toda a vida. Cuidar de um lugar que ajudou a transformar tantas outras vidas.

"Ele estaria orgulhosíssimo da sua Xana"
Quando a conversa já caminha para o fim, pergunto-lhe se acredita que Rui Guerreiro, onde quer que esteja, olha para aquilo em que o ATA se tornou e sente orgulho.
Ana sorri antes de responder. Fá-lo sem dramatismos, com a serenidade de quem aprendeu a viver com a saudade.
"Eu não acredito... Acho que a pessoa morre e pronto. Não há mais nada. Aqui no grupo há muitas pessoas que acreditam, mas eu não. Agora, se por acaso isso existir, não tenho dúvidas absolutamente nenhumas de que ele estaria orgulhosíssimo da sua Xana". E sorri novamente. "Eu era a Xana dele". 
Durante alguns segundos, deixa o olhar perder-se nas memórias de uma vida inteira. Depois acrescenta, quase como se Rui ainda estivesse ali, sentado entre todos eles, pronto para comentar mais um ensaio.
"Mas, sobretudo, estaria muito orgulhoso deste coletivo que ele ajudou a construir. Há muitas pessoas que continuam aqui desde o tempo dele, outras chegaram depois, mas isto continua vivo. E isso deixá-lo-ia muito, muito, muito orgulhoso". 
Faz uma breve pausa e, de repente, a emoção dá lugar ao humor que sempre marcou a relação dos dois.
"E inchava-se tipo peru em vésperas de Natal!". 

O pano nunca desce
Esta não é a primeira vez na sede do ATA. Antes de fechar a porta, ainda olho uma última vez para o interior do Artimanha. Dentro da sala já se ouvem vozes. Alguém ri. Outro procura o texto. Há quem experimente uma marcação em palco. O ensaio vai começar. É sempre assim! 
É então que percebemos que esta nunca foi apenas a história de uma atriz, de uma dirigente associativa ou da viúva de Rui Guerreiro. É a história de uma mulher que escolheu fazer do teatro uma forma de cuidar das pessoas. E talvez seja por isso que Rui nunca tenha saído verdadeiramente dali.
Continua em cada estreia. Em cada aplauso. Em cada criança que vence o medo de subir ao palco pela primeira vez. E continua, sobretudo, sempre que Ana abre a porta da Artimanha para mais um dia.
Porque há histórias que não terminam quando alguém parte. Continuam enquanto houver quem as viva. Enquanto houver uma luz acesa no palco. Enquanto houver alguém disposto a sonhar. O pano nunca desce.

Paulo Jorge Oliveira 
Fotografia: Paulo Jorge Oliveira 

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