Há quase um século que uma família guarda a memória do Pinhal Novo

Mais do que uma adega, Nuno e Carlos Branco herdaram a missão de preservar um legado através do vinho

Quando uma terra muda, há sempre o risco de perder parte da sua memória. No Pinhal Novo aconteceu precisamente o contrário. No meio do crescimento urbano, sobrevive uma adega onde quase um século de histórias continua intacto. Ali, o vinho é apenas o pretexto para contar uma herança feita de trabalho, família e comunidade. Carlos e Nuno Branco são hoje os guardiões desse legado que começou muito antes de nascerem e que esperam um dia entregar à geração seguinte. Esta é mais uma história da rubrica Gente da Nossa Terra na adega onde nasceu o Abafadinho Caramelo: a ASL Tomé. 
Os irmãos Branco preservam um legado com quase um século

Há lugares onde o tempo parece correr à velocidade dos comboios. E há outros onde o tempo amadurece devagar, como um vinho guardado na penumbra de uma adega centenária. No Pinhal Novo, entre ruas que cresceram onde antes havia terra batida, existe um desses lugares raros. À primeira vista, é apenas uma adega cercada pela malha urbana. Mas basta atravessar o portão para perceber que ali se conserva muito mais do que vinho. Conserva-se uma parte da memória coletiva de uma vila inteira.
Muito antes de o betão ocupar o lugar das estradas de terra, muito antes de o Pinhal Novo conhecer o crescimento que o transformou numa das localidades mais dinâmicas da região, já ali se faziam vindimas, já os lagares recebiam uvas e já o cheiro intenso da fermentação anunciava que o Outono tinha chegado.
A história da ASL Tomé, oficialmente fundada em 1953 por Américo de Sousa Lopes, afinal começa muito antes dessa data. A verdade está "escondida" numa placa esquecida na fachada da adega velha que continuam a testemunhar um passado iniciado muito antes da formalização do negócio. O edifício é de Setembro de 1927.  
Hoje, quase um século depois, os irmãos Carlos e Nuno Branco são os guardiões dessa herança e representam a quinta geração de uma família que fez do vinho a sua forma de estar na vida.

Uma história mais antiga do que todos imaginavam
Nuno Branco conhece cada recanto daquela casa como quem conhece a história da própria família e explica que, afinal, a cronologia oficial acabou por ser mais conservadora do que a realidade.
"Durante muitos anos assumimos 1953 como a data da fundação porque corresponde ao momento em que o nosso avô se estabeleceu oficialmente aqui. Mas a verdade é que esta adega já existia antes disso. A placa que continua na fachada indica claramente Setembro de 1927 como data da construção da casa e Outubro desse mesmo ano para a construção do poço. Isto significa que já se fazia vinho neste espaço muito antes da empresa existir formalmente. Se quisermos ser rigorosos, estamos muito próximos de celebrar um século de atividade vínica nesta propriedade e isso diz muito sobre a ligação desta casa ao Pinhal Novo".
A confirmação surgiu quando os dois irmãos decidiram revisitar antigos arquivos familiares. Carlos Branco recorda esse processo quase como uma investigação histórica feita dentro da própria adega.
"Andámos durante bastante tempo a abrir baús antigos onde estavam guardados documentos da família. O mais antigo que encontrávamos relacionado com a empresa apontava para 1953 e foi por isso que essa data acabou por ficar associada à fundação. Mas depois começámos a cruzar essa informação com aquilo que a própria casa nos mostrava. A adega já existia muito antes, havia atividade vínica muito antes e ainda hoje existem construções na propriedade que são anteriores. Percebemos que a história da nossa família aqui é muito mais longa do que aquilo que durante décadas contámos".
Essa descoberta acabou por reforçar aquilo que ambos sempre sentiram: a ASL Tomé não representa apenas uma empresa que atravessou várias gerações. Representa uma continuidade quase centenária entre uma família e uma terra que cresceram lado a lado.

Quando o campo deu lugar à cidade
Uma fotografia que testemunha a história da adega 
Ao longo deste século, o Pinhal Novo mudou profundamente. A expansão urbana aproximou-se da Quinta da Cascalheira até praticamente a envolver por completo, transformando uma antiga exploração agrícola num dos poucos testemunhos vivos da paisagem rural que durante décadas caracterizou esta zona da vila. 
Carlos e Nuno cresceram precisamente durante essa transformação e ainda conservam imagens muito nítidas de uma realidade que hoje praticamente desapareceu.
Nuno sorri quando recorda uma expressão repetida inúmeras vezes pela avó e que resume bem a forma como a vila era percecionada naquela época.
"A nossa avó dizia muitas vezes que ia 'lá abaixo ao Pinhal Novo'. Hoje essa frase parece estranha porque toda esta zona faz parte da vila, mas naquele tempo fazia sentido. A adega era quase vista como um lugar à parte. Lembro-me perfeitamente de a Rua 25 de Abril ser apenas um caminho de terra batida e de toda esta envolvente ser campo. A transformação foi acontecendo devagar, quase sem darmos por ela, até chegarmos ao ponto em que hoje estamos completamente integrados na malha urbana".
Carlos Branco partilha exatamente essa memória, acrescentando imagens que ajudam a perceber a dimensão da mudança.
"Vir de bicicleta até aqui era quase uma pequena aventura. Parecia que saíamos da vila para entrar no campo. Havia uma distância emocional muito maior do que a distância física. Hoje fazemos esse percurso em poucos minutos e estamos sempre rodeados de casas, mas na altura havia vinhas, terrenos agrícolas e muito espaço aberto. Assistimos, literalmente, ao crescimento do Pinhal Novo à nossa volta".
Hoje, rodeada pela malha urbana, continua a ser um dos últimos testemunhos vivos da paisagem rural que durante décadas marcou esta zona da vila. Um lugar onde o passado permanece presente, mesmo quando tudo à sua volta mudou. 

A infância escrita entre vindimas e lagares
Muito antes de imaginarem que um dia assumiriam os destinos da empresa familiar, Carlos e Nuno Branco já faziam parte daquela casa.
Não por obrigação, nem por qualquer imposição familiar. Simplesmente porque cresceram dentro da adega.
Enquanto muitas crianças passavam as férias entre a praia e as brincadeiras na rua, os dois irmãos aprenderam cedo que o calendário da família obedecia a outro ritmo. O Verão terminava com a chegada das vindimas, as carroças carregadas de uvas enchiam o pátio e o aroma intenso do mosto acabado de esmagar anunciava o início de mais uma campanha.
A adega era muito mais do que um local de trabalho. Era uma extensão natural da casa, onde várias gerações conviviam diariamente e onde cada tarefa, por mais simples que parecesse, acabava por ensinar o valor do esforço, da responsabilidade e da continuidade.
Carlos Branco recorda com nitidez uma das primeiras memórias ligadas ao trabalho na adega.
"A memória mais antiga que tenho é de transportar os engaços em baldes às costas, desde o esmagador até cá acima. Devia ter 13 ou 14 anos. Na altura parecia apenas mais uma tarefa, mas hoje percebo que foi ali que comecei verdadeiramente a conhecer a adega. Depois, todos os anos, as férias coincidiam com as vindimas e era natural estarmos aqui a trabalhar. Fazia parte da nossa educação", recorda.
Também Nuno Branco cresceu entre lagares e pipas, numa época em que cada vindima mobilizava famílias inteiras.
"Sempre fizemos as vindimas. Era algo absolutamente normal para nós. Hoje fala-se muito de tecnologia e de processos automatizados, mas naquela altura quase tudo era manual. Havia muito mais pessoas envolvidas e uma ligação muito física ao vinho. Quem viveu essas campanhas percebe que cada vindima era um verdadeiro acontecimento", explica.
Essa ligação precoce à terra acabaria por marcar definitivamente a forma como ambos passaram a olhar para o vinho.
Antes de ser um produto colocado no mercado, era o resultado de meses de trabalho paciente, de conhecimento transmitido entre gerações e de um profundo respeito pelos ciclos da natureza.
Talvez por isso, ainda hoje percorrem a adega com a familiaridade de quem nunca deixou completamente de serem aqueles meninos que corriam entre os lagares enquanto os adultos discutiam castas, colheitas e fermentações.

Onde cada parede continua a contar uma história
A inscrição no poço marca a verdadeira idade da adega 
Hoje recebe visitantes, acolhe provas de vinho, exposições, concertos e encontros culturais.
Mas basta olhar com atenção para perceber que a antiga casa dos lagares continua presente.
O chão de pedra marcado pelo tempo, o velho alambique cuidadosamente preservado e vários elementos da construção original recordam diariamente aquilo que aquele espaço já foi.
Muito antes de se transformar numa sala de enoturismo, ali produziam-se milhares de litros de vinho através de um processo inteiramente artesanal.
Os lagares ocupavam praticamente toda a divisão e o trabalho fazia-se como sempre se fez durante gerações: com os pés.
Carlos Branco percorre o espaço quase como quem revisita um álbum de família.
"Este era o verdadeiro centro da vinificação da adega. Onde hoje estão as mesas e o balcão existiam os lagares. Quando decidimos integrar a Rota dos Vinhos da Península de Setúbal percebemos que precisávamos de criar um espaço para receber visitantes. Foi uma decisão difícil, mas procurámos preservar ao máximo a identidade desta casa", explica.
A transformação mudou a função do edifício, mas nunca lhe retirou a alma. Pelo contrário.
Cada nova utilização acrescentou mais um capítulo à história da Quinta da Cascalheira, onde o património agrícola passou naturalmente a conviver com a cultura e o enoturismo.
Entre todas as recordações, existe uma que continua particularmente viva na memória de Carlos Branco.
Não está ligada ao vinho, mas à produção da aguardente bagaceira.
"Lembro-me perfeitamente de ficar ali, ainda miúdo, a observar o Américo enquanto fazia a aguardente. Para uma criança aquilo parecia quase um ritual. As caldeiras trabalhavam sem parar e eu ficava fascinado a acompanhar todo o processo. Produzimos aguardente bagaceira durante muitos anos e só por volta de 2010 deixámos definitivamente essa atividade para nos dedicarmos exclusivamente ao vinho", recorda.
São memórias aparentemente simples. Mas ajudam a compreender porque motivo os dois irmãos nunca olharam para a adega apenas como uma empresa.
Cada divisão guarda rostos que já partiram, cada parede conserva episódios da infância e cada vindima acrescenta uma nova página a uma história familiar que atravessa cinco gerações.

O vinho que ganhou o nome de um povo
Há marcas que nascem em gabinetes de marketing. Outras nascem espontaneamente, pela força da tradição e da forma como uma comunidade se apropria delas.
O Abafadinho Caramelo pertence claramente ao segundo grupo. Muito antes de existir um rótulo, aquele vinho doce já ocupava um lugar especial nas festas, nos almoços de família e nas celebrações do Pinhal Novo.
Era o abafado da casa. O vinho reservado para os dias especiais. Mas faltava-lhe um nome.
Curiosamente, foi um antigo presidente da Junta de Freguesia do Pinhal Novo quem, sem o saber, acabaria por batizá-lo. Nuno Branco lembra-se bem desse hábito.
"Sempre que havia uma comemoração da freguesia ou das festas da vila, o Álvaro Amaro nunca pedia simplesmente um abafado. Pedia sempre o 'Abafadinho Caramelo'. Dizia-o com tanta naturalidade que a expressão começou a espalhar-se. Primeiro entre nós, depois entre as pessoas da terra, até percebemos que aquele nome já fazia parte da identidade do Pinhal Novo", conta.
Com o crescimento da valorização da cultura caramela, Carlos e Nuno Branco perceberam rapidamente que aquela designação tinha um significado muito maior do que um simples nome comercial.
Representava uma comunidade, uma forma de viver e uma identidade construída ao longo de gerações.
Foi então que decidiram registar a marca. Não para se apropriarem dessa identidade, mas para garantir que continuaria ligada ao território onde nasceu.
"Percebemos que a palavra 'Caramelo' tinha um enorme valor identitário. O registo nunca foi apenas uma questão comercial. Foi sobretudo uma forma de proteger essa ligação à nossa terra e garantir que continuaria associada ao Pinhal Novo", explica Nuno Branco.
Apesar da notoriedade alcançada, o processo de produção continua praticamente inalterado. O objetivo nunca foi reinventar o vinho, mas preservar-lhe a memória.
"Tentámos manter o espírito do abafado que os nossos avós faziam. Era o vinho das festas, dos momentos felizes e das reuniões familiares. Nunca quisemos modernizá-lo ao ponto de perder essa identidade. Queríamos que continuasse a saber a memória", resume Carlos Branco.
Talvez seja precisamente por isso que o Abafadinho Caramelo deixou há muito de ser apenas uma referência da adega. Transformou-se num dos sabores mais identitários do Pinhal Novo.
Um vinho que continua a reunir avós, filhos e netos em redor da mesma mesa, transportando, geração após geração, um profundo sentimento de pertença.

A geração que percebeu que honrar o passado também significa saber mudar
Carlos e Nuno Branco representam a quinta geração da família
Durante décadas, a ASL Tomé fez aquilo que sempre soube fazer. Produzia vinho, abastecia clientes habituais, enchia barris e garrafões destinados a tabernas, cafés e pequenos comerciantes da região. Era uma empresa sólida, respeitada e construída numa época em que a melhor publicidade continuava a ser a confiança conquistada ao longo dos anos.
Entretanto, o setor vitivinícola começou a mudar. A partir do final da década de 1980 e, sobretudo, durante os anos 90, o vinho português iniciou uma profunda transformação. Surgiram novas marcas, cresceram os concursos nacionais e internacionais, as adegas passaram a apostar no engarrafamento próprio e o consumidor começou a valorizar cada vez mais a origem, a identidade e a história de cada produtor.
Foi precisamente nesse período que Carlos Branco percebeu que o futuro da empresa teria de passar por um caminho diferente.
Enquanto estudava em Évora, acompanhava de perto essa evolução.
"Foi nessa altura que percebi que o mundo do vinho estava a mudar profundamente. Até então vendíamos praticamente tudo a barril ou em garrafão. De repente começaram a surgir novos produtores, novas marcas e uma forma completamente diferente de comunicar com o consumidor. Percebemos que também tínhamos de criar a nossa identidade e apostar na Rota dos Vinhos. Hoje parece uma decisão natural, mas, naquela altura, representava uma mudança muito grande", recorda.
Nuno Branco viveu esse momento de outra forma. Licenciado em Gestão, imaginava um percurso profissional longe da adega, como muitos dos colegas da universidade. Mas havia um projeto familiar que precisava de continuidade.
"Quando terminei o curso queria experimentar outras áreas, como praticamente todos os meus colegas. Mas via o investimento que o nosso pai estava a fazer na modernização da empresa e sentia que abandonar o projeto naquele momento não seria justo. Acabei por ficar e hoje posso dizer que foi uma das melhores decisões da minha vida", afirma.
A modernização começou de forma discreta.
Primeiro surgiu o levantamento e o cadastro das vinhas, indispensáveis para integrar a Rota dos Vinhos da Península de Setúbal.
Depois chegaram as primeiras marcas engarrafadas, uma nova imagem e uma estratégia diferente de aproximação ao consumidor.
Mas rapidamente os dois irmãos perceberam que o maior património da casa não estava apenas dentro das garrafas. Estava nas pessoas.

Muito mais do que uma adega
A Quinta da Cascalheira acolhe regularmente grandes eventos
Foi essa convicção que levou Carlos e Nuno Branco a abrir definitivamente as portas da Quinta da Cascalheira à comunidade.
Enquanto muitas adegas concentravam todos os esforços na produção e comercialização dos seus vinhos, eles decidiram criar um espaço onde o vinho seria apenas uma parte da experiência.
A antiga sala dos lagares transformou-se num espaço de enoturismo.
Vieram depois as exposições de pintura, fotografia e artesanato, os concertos, as noites de poesia, o teatro, as apresentações de livros, os jantares temáticos e inúmeras iniciativas que, ao longo dos anos, deram uma nova vida à adega. Tudo começou de forma simples.
"Quando preparámos esta sala para receber visitantes percebemos rapidamente que podia servir para muito mais do que provas de vinho. Conhecíamos muitos artistas da terra que praticamente não tinham espaços para mostrar o seu trabalho. Pareceu-nos natural abrir-lhes as portas e, a partir daí, tudo foi crescendo de uma forma que nunca imaginámos", explica Carlos Branco.
Aquilo que começou por ser uma iniciativa pontual acabou por transformar profundamente a identidade da empresa. Ao longo dos últimos anos realizaram-se centenas de iniciativas culturais.
Hoje, a Quinta da Cascalheira é reconhecida como um dos espaços mais dinâmicos da região e uma referência dentro da própria Rota dos Vinhos da Península de Setúbal.
Carlos Branco recorda com satisfação um comentário que ouviu recentemente.
"Disseram-nos que, apesar de sermos uma das adegas mais pequenas da Rota dos Vinhos, somos provavelmente aquela que mais visitantes recebe ao longo do ano. O vinho continua a ser importante, mas aquilo que verdadeiramente nos distingue são os eventos que organizamos. As pessoas já não vêm apenas comprar vinho. Vêm porque gostam de estar aqui", refere.
Para Nuno Branco, esta abertura à comunidade acabou por redefinir o papel da empresa.
"O nosso pai olhava naturalmente para o negócio de outra forma, porque era essa a realidade do seu tempo. Nós sentimos que também temos uma responsabilidade social. Sempre que podemos apoiar uma associação, uma coletividade ou uma iniciativa da terra, procuramos estar presentes. É a forma que encontramos de retribuir tudo aquilo que o Pinhal Novo nos deu ao longo de quase um século", sublinha.
É precisamente neste ponto que a história deixa de ser apenas sobre vinho. Passa a ser sobre uma empresa familiar que conseguiu transformar um negócio numa verdadeira casa da comunidade.

Adega Velha vive entre a modernidade e a história da família 
Os novos desafios do vinho
Apesar da paixão que continuam a colocar em cada vindima, os dois irmãos acompanham com preocupação as profundas mudanças que atravessam atualmente o setor vitivinícola.
Os hábitos de consumo mudaram. As novas gerações relacionam-se de forma diferente com o vinho e os produtores são hoje obrigados a reinventar-se sem perder a sua identidade.
Nuno Branco acredita que o setor vive um dos períodos mais desafiantes das últimas décadas.
"Estamos provavelmente perante uma das maiores mudanças dos últimos cinquenta ou sessenta anos. O consumo está a mudar e ninguém consegue prever exatamente como será o mercado daqui a 10 anos. Muitas empresas terão de se adaptar e algumas acabarão por desaparecer. Nós vamos continuar a fazer aquilo que sempre fizemos: trabalhar, adaptar-nos e preservar este legado", considera.
Também Carlos Branco reconhece que a realidade atual é muito diferente daquela que encontrou quando começou a trabalhar na adega.
"As antigas tabernas desapareceram, os consumos diminuíram e os hábitos mudaram completamente. O vinho sempre fez parte da nossa cultura e da dieta mediterrânica quando consumido com moderação. O desafio passa agora por transmitir essa mensagem às novas gerações e continuar a mostrar que o vinho representa muito mais do que uma bebida. É património, território e cultura", defende.
Ainda assim, nenhum dos dois encara o futuro com pessimismo. Falam com serenidade. Com a confiança de quem sabe que uma casa que atravessou quase um século sempre encontrou forma de se adaptar sem perder as suas raízes.

Uma casa que nunca deixou de pertencer ao Pinhal Novo
Ao longo das últimas décadas, Nuno e Carlos Branco fizeram muito mais do que assegurar a continuidade de uma empresa familiar.
Transformaram a ASL Tomé num espaço onde o vinho convive diariamente com a cultura, a solidariedade e a vida da comunidade.
Sempre que uma associação precisa de apoio ou uma coletividade organiza uma iniciativa, procuram estar presentes.
Não por estratégia empresarial. Mas por convicção.
"Sentimos que temos um compromisso com esta terra. O Pinhal Novo deu-nos muito ao longo de quase um século e acreditamos que temos a obrigação de devolver uma parte desse carinho. Faz parte da nossa forma de estar e da responsabilidade de quem tem raízes tão profundas nesta comunidade", afirma Nuno Branco.
Talvez seja essa a maior singularidade da ASL Tomé. Mais do que uma das empresas mais antigas em atividade contínua no Pinhal Novo, continua a ser uma casa onde as portas permanecem abertas e onde cada garrafa transporta um forte sentimento de pertença.

O legado que nenhuma medalha consegue medir
A adega preserva quase um século de história
Ao fim de quase um século de história seria natural pensar que a riqueza da ASL Tomé se mede pelas vinhas, pelas garrafas produzidas ou pelas distinções conquistadas.
Mas basta ouvir Carlos e Nuno Branco durante alguns minutos para perceber que a verdadeira herança desta casa nunca foi contabilizada em números.
Mede-se nas pessoas. Nas memórias. E na relação construída com a comunidade ao longo de cinco gerações. Os vinhos da casa acumulam hoje diversas distinções nacionais.
Contudo, para Nuno Branco, o reconhecimento mais importante continua a chegar de forma muito mais simples.
"Fico naturalmente feliz quando um vinho é premiado, mas aquilo que mais me marca é encontrar pessoas da terra que vêm dizer-nos que gostaram verdadeiramente do nosso vinho. Quando esse orgulho é genuíno, percebemos que todo o esforço valeu a pena", admite.
Carlos Branco acrescenta que a maior conquista nem sequer cabe dentro de uma garrafa.
"Se me perguntassem qual foi a nossa maior vitória, responderia que foi conseguir abrir a adega à comunidade. Hoje praticamente toda a gente no Pinhal Novo conhece esta casa, participou numa festa, visitou uma exposição ou passou por aqui. Conseguimos colocar a adega no mapa sem nunca perdermos a ligação às nossas origens", afirma.
Quando a conversa chega às perdas, instala-se um breve silêncio. O nome do pai surge naturalmente. A sua morte, há oito anos, continua a ser a ausência mais difícil de aceitar.
"Foi, sem dúvida, o momento mais duro das nossas vidas. Para além de pai, era uma referência dentro da empresa. Foi ele quem acreditou que conseguiríamos dar continuidade a este projeto. A sua ausência aumentou ainda mais o sentido de responsabilidade que sentimos todos os dias", recorda Nuno Branco.
Talvez esse seja o verdadeiro segredo da Quinta da Cascalheira. Mais do que produzir vinho, cada geração recebeu a missão silenciosa de proteger uma história que nunca lhe pertenceu por inteiro.
Uma história que começou muito antes de Nuno e Carlos Branco, que continuará muito depois deles e que, enquanto houver alguém disposto a abrir aquelas portas, continuará a confundir-se com a própria memória do Pinhal Novo.
Porque há casas que produzem vinho. E há outras que, além do vinho, conseguem engarrafar quase um século de identidade, de afetos e de memória coletiva. E é precisamente isso que a Quinta da Cascalheira continua a oferecer, todos os dias, à terra que a viu nascer.

Paulo Jorge Oliveira 
Fotografia: Paulo Jorge Oliveira 
Foto 2 cedida pela ASL Tomé 


Comentários