Bombeiros do Pinhal Novo: 75 anos entre memória e urgência no dia 1 de Maio

Salvar vidas com poucos meios: o equilíbrio diário de quem nunca pode dizer não

A sirene toca às oito da manhã no dia 1 de Maio - e, por instantes, o tempo suspende-se. Não há urgência, não há fumo no horizonte. Há memória. Há 75 anos de história a ecoar num som que, desta vez, não chama para o perigo, mas para a celebração. A formatura alinha-se com rigor, as viaturas avançam em cortejo e a vila acompanha, quase em silêncio, até aos cemitérios onde se honra quem nunca deixou verdadeiramente este lugar. É nesse percurso, entre o passado que se recorda e o presente que se afirma, que se percebe o essencial: há coisas que mudam, mas a missão permanece intacta. ADN Associativo, uma rubrica onde se pretende conhecer melhor as nossas associações locais, começa aqui - nos Bombeiros da nossa terra. 
Fernando António está no segundo mandato nos Bombeiros

Os Bombeiros do Pinhal Novo continuam a medir o tempo não em décadas, mas em respostas. Entre fotografias a preto e branco e sirenes que rasgam o trânsito das horas de ponta, há um fio invisível que liga fundadores e operacionais de hoje: a ideia simples, quase radical, de que uma vida vale outra vida.
“Se calhar o que ainda corre nas veias é a vontade de bem servir a população e de lutar pelos seus interesses”, diz Fernando António, presidente da Associação Humanitária. “Salvar vidas e dar a vida pelo próximo continua a ser a essência, e isso está vivo na mentalidade de todos os homens e mulheres desta casa”.
Fundados em 1951 por vontade popular, os bombeiros chegam a uma data histórica com um legado consolidado - mas também com novos desafios operacionais, financeiros e humanos que exigem respostas estruturadas.

Mais do que incêndios: uma operação permanente
A imagem clássica do combate a incêndios florestais já não define, por si só, o trabalho diário da corporação. Hoje, o espectro de atuação é mais amplo e tecnicamente exigente, sobretudo em contexto urbano.
“A prioridade número um será os equipamentos de proteção individual”, afirma o presidente. “Os incêndios urbanos e industriais têm cargas térmicas muito mais elevadas e exigem equipamentos mais sofisticados, que garantam a segurança dos operacionais”.
O investimento recente permitiu reforçar a frota - com a aquisição de uma ambulância e dois veículos de transporte de doentes - mas expôs uma necessidade mais profunda: proteger melhor cada bombeiro no terreno.
Atualmente, a corporação dispõe de um dispositivo significativo: seis ambulâncias de emergência médica, 11 veículos de transporte de doentes não urgentes, cinco veículos pesados de combate a incêndios, um veículo ligeiro para a mesma função, duas viaturas autotanque, três viaturas de comando e ainda meios logísticos de apoio. A este conjunto soma-se um veículo pesado multifuncional recentemente adquirido, com forte comparticipação da Câmara Municipal de Palmela.
É um parque operacional robusto mas sob pressão.

Desgaste acumulado e investimento contínuo
Quando a atual direção tomou posse, o diagnóstico foi claro: desgaste elevado.
“Tínhamos a grande maioria das viaturas no limite, algumas com quase um milhão de quilómetros”, recorda Fernando António. “No caso das ambulâncias, o desgaste é diário, fazem milhares de quilómetros e isso reflete-se rapidamente na sua condição”.
Ao contrário dos veículos de combate a incêndios, que enfrentam cenários extremos mas menos quilometragem, as ambulâncias operam em regime intensivo. São a espinha dorsal de uma atividade que não para e que depende de manutenção constante.

Chegar primeiro pode salvar vidas
Quando tudo falha, são eles que chegam primeiro
É neste contexto que surge uma das respostas mais pragmáticas da corporação: a introdução de um motociclo de emergência, entretanto já garantido com o apoio do Motoclube do Pinhal Novo, artistas e comunidade local.
“Há situações em que não temos ambulâncias disponíveis no imediato”, explica. “Ter um motociclo com um tripulante capacitado permite chegar primeiro e iniciar o socorro, e isso pode fazer a diferença entre salvar ou não uma vida”.
Num território onde o trânsito já cria constrangimentos reais, sobretudo em horas de ponta, o ganho de tempo pode ser determinante. “É subjetivo quantificar, mas será sempre um meio mais rápido de intervenção”, acrescenta.
O motociclo está assegurado, mas a sustentabilidade da operação mantém-se dependente do envolvimento da comunidade. “Os cidadãos podem ajudar através da consignação de um por cento do IRS, sem qualquer custo”, lembra. “E também através de donativos ao abrigo da Lei do Mecenato. Seja muito ou pouco, tudo conta”.

Contas certas, margem curta
Apesar de uma gestão que permitiu regularizar dívidas estruturais, a saúde financeira continua frágil - uma realidade transversal ao setor.
“Não devemos a fornecedores estruturais, mas não respiramos muita saúde financeira”, admite. “Grande parte das nossas receitas vem dos serviços que prestamos, e os financiamentos do Estado são limitados”.
O modelo levanta constrangimentos evidentes. “Quem nos solicita os serviços é que define quanto vamos receber por eles”, explica. “E os valores não acompanham a subida dos custos, como o combustível”.
Num contexto de aumento significativo do preço do gasóleo, a pressão sobre as contas intensifica-se. “Estamos a receber praticamente o mesmo que recebíamos há um ano, quando os custos eram muito mais baixos”, acrescenta.
A isto soma-se a imprevisibilidade dos pagamentos. “As verbas chegam tarde e, muitas vezes, aquém do necessário. Isso dificulta qualquer planeamento a médio prazo”.

Entre missão e substituição
No terreno, os bombeiros enfrentam uma realidade que extravasa a sua missão original: a compensação de falhas do sistema de saúde.
“Estamos, em certa medida, a tapar buracos”, reconhece. “Temos situações como partos em ambulâncias, o que não deveria acontecer. As ambulâncias são para transportar, não para substituir unidades hospitalares”.
A articulação com o sistema de emergência também levanta reservas. “Há meios disponíveis que não estão a ser acionados como deviam”, alerta. “E isso levanta dúvidas sobre o funcionamento do Centro de Orientação de Doentes Urgentes”. 
Ainda assim, a mensagem final é de confiança nos operacionais. “As ambulâncias que vemos no terreno são, na sua grande maioria, tripuladas por bombeiros”, sublinha Fernando António. “É na força deles que devemos confiar”. 

Voluntariado: um modelo em tensão
Se o presente exige respostas operacionais, o futuro levanta uma questão estrutural: quem continuará a garantir o socorro?
“O bombeiro voluntário está a tornar-se uma raridade”, admite Fernando António. “Hoje já não há tantas pessoas disponíveis para este tipo de compromisso”.
A solução passa, na sua perspetiva, por uma revisão profunda do enquadramento legal. “É preciso criar incentivos reais e adaptados à realidade atual”, defende. “E esses incentivos devem ser nacionais, não dependentes de cada município”.

Um quartel para o futuro ainda por concretizar
As instalações atuais refletem o crescimento da própria vila, com sucessivas ampliações ao longo dos anos. Mas já não respondem plenamente às exigências operacionais.
“Precisávamos de um quartel mais moderno e funcional”, reconhece. “Mas isso implica um investimento muito elevado”.
A ambição mantém-se, ainda que com prudência. “Temos de dar um passo de cada vez, mas é um objetivo que não está fora do nosso horizonte”.

Os bombeiros que seguram o que o Estado não consegue
Apoio local, resposta partilhada

A ligação às autarquias é um dos pilares silenciosos da operação diária dos Bombeiros do Pinhal Novo. No caso do município de Palmela, esse apoio materializa-se num contrato de programa que garante equipas de intervenção permanentes - um modelo de cofinanciamento em que os encargos são divididos entre a Câmara Municipal e a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil.
“Temos equipas em permanência durante 16 horas por dia, de segunda a sexta-feira, com o vencimento assegurado em partes iguais”, explica Fernando António. “Já no período noturno e aos fins de semana, o serviço assenta maioritariamente no voluntariado”.
A autarquia assegura ainda uma comparticipação que permite compensar, ainda que de forma limitada, a disponibilidade e o esforço dos bombeiros voluntários. Um apoio relevante, mas que, segundo a direção, deveria ter um reflexo mais uniforme a nível nacional, garantindo maior equidade e estabilidade ao sistema.

1 de Maio: memória, reconhecimento e compromisso
O dia do 75.º aniversário sintetiza tudo isto. Começa com a alvorada, percorre a memória dos que já partiram, distingue os que continuam e projeta o futuro com os mais jovens.
A partir das 10h30, o centro das celebrações desloca-se para o Monte do Francisquinho, onde decorre a sessão solene. Aqui, o tom torna-se mais institucional, mas não menos emotivo. “Faremos a receção às entidades oficiais e teremos os discursos das entidades que assim o entenderem”, explica. É também neste momento que se reconhece o percurso interno da corporação.
Serão promovidos bombeiros e atribuídas medalhas de serviço - 10, 15, 25 e 30 anos - num reconhecimento que ganha peso num contexto de escassez de voluntários. Os cadetes demonstrarão no terreno aquilo que pode ser o futuro da corporação. E as viaturas recentemente adquiridas, incluindo o novo motociclo, serão benzidas como símbolo de continuidade.
“Queremos dar visibilidade ao legado que recebemos e deixar também a nossa marca”, afirma o presidente. “Cada pessoa que passa por esta casa deixa um pouco de si”.
No final, a mensagem mantém-se simples e exigente. “Esperamos que a população olhe para os bombeiros com respeito, consideração e carinho”, conclui. “Porque, quando tudo falha, são eles que chegam primeiro”.

Paulo Jorge Oliveira 
Fotografia: Paulo Jorge Oliveira 

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