Tempestades põem à prova escudo invisível de Setúbal contra inundações

Parque da Várzea que afinal é bacia e terá salvo a cidade das cheias do Sado

Durante o atual comboio de tempestades que atinge o distrito de Setúbal, uma infraestrutura quase invisível para a maioria dos habitantes revelou-se decisiva: a bacia de retenção da Várzea. Aquilo que muitos viam apenas como um parque urbano transformou-se numa barreira real contra inundações, protegendo a cidade num dos episódios meteorológicos mais exigentes dos últimos anos.

Setúbal vive numa posição geográfica delicada. Localizada na foz do rio Sado - o único rio que corre de sul para norte - e exposta ao Atlântico, a cidade recebe simultaneamente caudais das ribeiras e a pressão marítima. Quando chuva intensa coincide com marés altas, forma-se um cenário propício a cheias severas.
Nos últimos dias, enquanto Alcácer do Sal sofreu com o aumento do caudal do Sado, Setúbal enfrentou um teste diferente: perceber se o sistema de retenção construído na última década conseguiria travar o avanço das águas. E na verdade, está a conseguir. 

Um parque que afinal é uma infraestrutura hidráulica
O espaço verde com cerca de 19 hectares, junto à ribeira da Figueira, esconde uma função essencial. A área funciona como dupla bacia de retenção, semelhante a soluções previstas no plano de drenagem de Lisboa.  Em Setúbal, o sistema consegue armazenar cerca de 240 mil metros cúbicos de água, o  equivalente a aproximadamente 100 piscinas olímpicas.
Paulo Maia, vereador da Proteção Civil, lembra que o espaço foi pensado com duas funções distintas. "O espaço não é um parque urbano, é uma bacia de retenção de águas", disse. "O parque urbano é apenas uma segunda valência".

O primeiro grande teste real em sete anos
As chuvas recentes colocaram finalmente a infraestrutura à prova. Segundo o autarca, registaram-se níveis de precipitação entre 22 e 25 milímetros.
"Neste episódio extremo tivemos precipitação muito elevada", disse. "A bacia nem chegou aos 50 por cento da capacidade".
Segundo explica, a coincidência entre menor intensidade de chuva durante os picos de maré ajudou a evitar um cenário mais crítico.

Como funciona o sistema de proteção
O parque regula o caudal das ribeiras do Livramento e da Figueira, com extensões de 8,54 e 4,68 quilómetros, respetivamente. Estas linhas transportam caudais de 52 e 33 metros cúbicos por segundo vindos das serras do Louro e de São Luís, em Palmela. 
Quando o Sado e as marés permitem, a água acumulada é libertada por canais com válvulas de pressão. Parte regressa ao leito natural e outra infiltra-se no solo do parque. 

Uma obra com quase uma década que agora ganha destaque
O projeto nasceu há cerca de dez anos, no Executivo liderado por Maria das Dores Meira, que concorreu a fundos do programa PO SEUR para:
  • Regularizar 550 metros da ribeira da Figueira
  • Construir duas bacias de amortecimento (229 mil e 11 mil metros cúbicos)
  • Criar valas de drenagem para escoamento adicional
O investimento total rondou 1,3 milhões de euros, sendo cerca de 321 mil euros suportados pelo município. A obra foi concluída em cerca de 15 meses.

A importância só agora totalmente reconhecida
Durante anos, a infraestrutura passou quase despercebida. Só agora, com fenómenos climáticos mais extremos, se tornou evidente o seu valor estratégico.
"Esta obra não teve a importância que deveria ter tido", disse Paulo Maia. "Agora percebe-se o impacto real pelo teste que estamos a viver".
O autarca sublinha ainda o papel crescente destas soluções perante as alterações climáticas. "Isto deu à cidade proteção para eventos climáticos que estão cada vez piores", disse.

Segunda fase de teste pode chegar nos próximos dias
Com avisos do IPMA para forte agitação marítima e chuva persistente ao longo desta semana, o sistema poderá enfrentar um novo desafio. O Parque da Várzea poderá consolidar-se como exemplo nacional de adaptação urbana - ou enfrentar uma pressão ainda maior.

Agência de Notícias 
Fotografia: CM Setúbal 

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