Puxadas ilegais voltam a causar tensão social no concelho de Almada

Entre buracos no asfalto e apagões, o retrato de um problema que se arrasta há meses

Quatro pessoas foram detidas em flagrante no Monte de Caparica, em Almada, depois de terem aberto um buraco na estrada para tentar roubar eletricidade. A intervenção da GNR travou a ação, mas o caso expõe um problema mais vasto no concelho, marcado por ligações ilegais à rede elétrica, cortes prolongados de energia e um crescente clima de insegurança para moradores e empresas.
GNR travou mais uma puxada ilegal no Monte de Caparica 

A tentativa de furto de eletricidade ocorreu numa artéria do Monte de Caparica, onde os suspeitos abriram um buraco com cerca de 20 centímetros de profundidade na estrada. Para concretizar o plano, recorreram a ferramentas como picaretas, pás e alicates, material que acabou por ser apreendido pelas autoridades.
A GNR chegou ao local após uma denúncia e surpreendeu os indivíduos em plena ação. Os quatro suspeitos, com idades entre os 27 e os 49 anos e residentes no Monte de Caparica, foram detidos em flagrante enquanto tentavam fazer puxadas de eletricidade a partir de um poste da rede pública.
O buraco entretanto aberto foi tapado, evitando riscos adicionais para a circulação rodoviária.

Crime e medidas judiciais
De acordo com Dinarte Santos, capitão da GNR de Almada, está em causa o crime de atentado à segurança rodoviária. Os arguidos foram ouvidos pelas autoridades e ficaram sujeitos à medida de apresentações periódicas, explicou o responsável.
Este tipo de ocorrências não é isolado no concelho. As puxadas ilegais de eletricidade são recorrentes em bairros ilegais de Almada e têm impactos diretos na vida de quem reside em zonas vizinhas e cumpre as suas obrigações legais.

Cortes de energia e danos em casas e empresas
No Bairro do Matadouro, em Almada, os moradores relatam interrupções constantes no fornecimento de energia elétrica, algumas com várias horas de duração. A ausência de uma resposta eficaz por parte das entidades responsáveis tem agravado o descontentamento da população.
Situado junto ao Hospital Garcia de Orta e contíguo ao bairro ilegal da Penajóia, o Bairro do Matadouro vive, segundo os residentes, uma situação que se arrasta há meses. Apesar das sucessivas reclamações à E-Redes, a empresa responsável pela distribuição e manutenção da rede elétrica em Portugal continental, os problemas mantêm-se e, em alguns casos, intensificam-se.
"Pagamos as contas e temos tudo conforme a lei, mas estamos a ser ignorados e deixados à margem pelas entidades competentes como a E-Redes", disse um morador citado pela Lusa. 
As falhas no fornecimento têm provocado danos em eletrodomésticos como frigoríficos, arcas congeladoras, esquentadores, placas elétricas e máquinas de lavar. Para além dos prejuízos materiais, os cortes deixam ruas e habitações às escuras durante a noite, aumentando os riscos de criminalidade e de acidentes. Mesmo quando há eletricidade, a corrente é por vezes insuficiente, impossibilitando o uso de esquentadores e o aquecimento da água para o duche.

Segurança condiciona intervenções técnicas
Roubo de eletricidade tem sido dramático para residentes  
A E-Redes admitiu que a sua intervenção está fortemente condicionada pela falta de condições de segurança para os técnicos no terreno. Segundo a empresa, esta situação é do conhecimento das autoridades policiais, às quais tem sido solicitado apoio de forma recorrente, mas sem sucesso.
Junto ao Bairro do Matadouro localiza-se o bairro ilegal da Penajóia, um aglomerado de barracas instalado em terrenos do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana, que tem crescido nos últimos anos. A situação levou a Câmara Municipal de Almada a avançar com uma carta aberta ao Governo, alertando para a urgência do problema e referindo também o bairro ilegal do Raposo, contíguo ao Bairro do Monte.

Carta aberta e apelo ao Governo
O documento foi enviado ao primeiro-ministro, Luís Montenegro, e ao ministro das Infraestruturas e Habitação, Miguel Pinto Luz. A carta foi subscrita por cerca de 200 moradores de bairros contíguos, pela Câmara Municipal de Almada e pelas juntas de freguesia de Almada, Cova da Piedade, Pragal e Cacilhas, bem como de Caparica e Trafaria.
"Com o envio desta carta aberta, a Câmara Municipal de Almada, em conjunto com as duas juntas de freguesia e os moradores, reitera o seu compromisso em defender os direitos das populações e a legalidade urbanística, apelando a uma resposta urgente, responsável e consequente do Governo e do IHRU que reponha a dignidade habitacional e salvaguarde o interesse público neste território", explicou a autarquia em comunicado.
O gabinete do primeiro-ministro respondeu indicando que o assunto seria encaminhado para o ministro das Infraestruturas.
Os subscritores alertam ainda para impactos negativos no concelho, como interrupções em serviços públicos essenciais, danos patrimoniais significativos, acumulação de resíduos e o agravamento do sentimento de insegurança entre moradores e comunidades vizinhas.
A presidente da Câmara Municipal de Almada, Inês de Medeiros, sublinhou que o problema tem várias dimensões, social, humana e económica, afetando também empresas instaladas na zona, que enfrentam cortes de energia e roubo de materiais.

Agência de Notícias 
Fotografia: Design ADN 


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